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Riscos Cardiovasculares e Metabólicos do Hiperparatireoidismo Primário

Riscos Cardiovasculares e Metabólicos do Hiperparatireoidismo Primário
Comunidade Academia Médica
nov. 22 - 6 min de leitura
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O hiperparatireoidismo primário (pHPT) é o terceiro distúrbio endócrino mais comum no mundo, marcado pela produção excessiva de paratormônio (PTH), geralmente acompanhada de hipercalcemia e repercussões sistêmicas que vão além do sistema musculoesquelético. Entre elas, ganha destaque um conjunto de desfechos cardiometabólicos – hipertensão, diabetes tipo 2, doença cardiovascular e acidente vascular cerebral, cuja real magnitude de risco e impacto de longo prazo ainda eram pouco definidos na literatura.

A pesquisa publicada em Jama Network Open, uma coorte nacional de grande porte, foi conduzida em um sistema integrado de saúde em Israel, que oferece cobertura universal a mais de metade da população do país e inclui pacientes de diferentes contextos étnicos e socioeconômicos. A partir dessa base de dados, os autores identificaram 50.199 pacientes com hiperparatireoidismo primário e os compararam a 150.265 indivíduos sem a doença, pareados por idade, sexo e nível socioeconômico. O desfecho central foi a incidência de hipertensão, diabetes tipo 2, doença cardiovascular e acidente vascular cerebral ao longo do tempo. Em um subgrupo de 6.654 pacientes com hiperparatireoidismo primário submetidos à paratireoidectomia, os pesquisadores também investigaram se a cirurgia alterava o risco de novos eventos cardiometabólicos.

Os resultados apontam de forma consistente que o hiperparatireoidismo primário se associa a um aumento significativo de risco a longo prazo para hipertensão, diabetes tipo 2, doença cardiovascular e AVC quando comparado aos controles pareados.Em termos clínicos, isso significa que viver com níveis persistentemente elevados de paratormônio (PTH) e hipercalcemia além de comprometer os ossos, também pode favorecer o desenvolvimento de uma constelação de problemas cardiometabólicos.

Do ponto de vista fisiopatológico, o estudo resgata evidências de que elevações crônicas de paratormônio estão relacionadas à disfunção endotelial, resistência à insulina, hipertrofia ventricular esquerda e aumento da rigidez arterial. Esses mecanismos ajudam a conectar o  hiperparatireoidismo primário  ao aumento observado de hipertensão, diabetes tipo 2 e eventos ateroscleróticos. A literatura citada pelos autores também aponta para o papel da hipercalcemia na alteração da função da musculatura lisa vascular e na rigidez arterial, contribuindo para o desenvolvimento de hipertensão e maior vulnerabilidade vascular. Trabalhos prévios destacam ainda a importância da calcificação vascular e da disfunção endotelial na construção desse risco, reforçando o caráter sistêmico da doença.

Um diferencial importante desta coorte é a amplitude dos desfechos analisados e a escala da amostra. Os autores ressaltam que, embora a associação entre  hiperparatireoidismo primário e alterações cardiovasculares já tenha sido descrita, a literatura dava menos ênfase a alguns desfechos específicos, como diabetes tipo 2 e um possível padrão de eventos cerebrovasculares. Ao quantificar o impacto clínico sobre uma faixa ampla de desfechos cardiometabólicos, em um conjunto de mais de 50 mil pacientes com a doença e 150 mil controles, o estudo se posiciona como uma das análises retrospectivas mais abrangentes sobre risco cardiovascular associado ao hiperparatireoidismo primário.

O segundo eixo central da pesquisa é a avaliação do impacto da paratireoidectomia. Ao examinar 6.654 pacientes submetidos à cirurgia, os autores observaram que a paratireoidectomia se associou a uma redução significativa da incidência de diabetes tipo 2. Em termos numéricos, o hazard ratio ajustado foi de 0,56, com intervalo de confiança de 95% entre 0,30 e 0,89 e valor de P de 0,002, indicando um benefício robusto na redução do risco de diabetes tipo 2 após a intervenção cirúrgica. Esse achado está em linha com resultados recentes que já sugeriam que a normalização do paratormônio e do cálcio poderia melhorar o metabolismo glicídico, especialmente em pacientes mais jovens e com doença bioquimicamente mais grave. Aqui, porém, a análise ganha densidade ao ser realizada em uma coorte nacional de grande porte, incluindo mais de 26 mil pacientes na avaliação dos impactos da cirurgia em um espectro mais amplo de desfechos cardiometabólicos.

Ao mesmo tempo, a pesquisa traz um contraponto importante: ao contrário de alguns relatos anteriores, não foram observados benefícios claros da paratireoidectomia em relação à incidência de hipertensão, doença cardiovascular ou AVC. Em outras palavras, a cirurgia parece conferir uma vantagem seletiva no campo metabólico, reduzindo o risco de diabetes tipo 2, mas não modifica de forma evidente o curso de outras condições cardiovasculares maiores ao longo do seguimento. Os autores discutem que essa discrepância pode estar ligada a um remodelamento vascular de longa duração, decorrente de anos de exposição a hipercalcemia e paratormônios  elevados, que não seria facilmente reversível mesmo após a normalização bioquímica. O tempo médio até a intervenção, de 879 dias (com ampla variação), sugere que muitos pacientes permaneceram por períodos prolongados sob o efeito da doença antes da cirurgia, o que favorece a consolidação de alterações estruturais na vasculatura.

Em síntese, a mensagem que emerge é a de que o hiperparatireoidismo primário deve ser encarado como uma doença sistêmica, com peso relevante na agenda de risco cardiovascular, e que a decisão cirúrgica, embora importante, precisa ser integrada a uma abordagem global de prevenção e controle de fatores de risco, aliada a mais pesquisas prospectivas que esclareçam o papel do rastreio cardiovascular e o verdadeiro alcance da cirurgia na proteção do coração e da vasculatura desses pacientes.


Referência:

Tsur N, Edri N, Kerman T, Talmor-Barkan Y, Kushnir S, Bachar G. Parathyroidectomy and Cardiometabolic Risks in Patients With Primary Hyperparathyroidism. JAMA Netw Open. 2025;8(11):e2544623. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.44623


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