O vírus Epstein-Barr (VEB), um herpes vírus ubíquo, infecta mais de 90% dos adultos em todo o mundo e entre 40% e 90% das crianças, dependendo da região. Tradicionalmente conhecido por sua associação com mononucleose infecciosa, o VEB tem ganhado destaque científico por sua ligação com diversas condições crônicas de desregulação imune, incluindo esclerose múltipla, lúpus eritematoso sistêmico, condições pós-COVID-19, linfomas e carcinoma nasofaríngeo.
Uma teoria crescente sugere que a infecção latente pelo VEB reprograma células epiteliais e imunológicas, permitindo escape viral e contribuindo para processos de imunopatologia. Essa reprogramação pode ter implicações não apenas em doenças crônicas, mas também em quadros agudos de disfunção imune, como a sepse.
Pesquisadores avaliaram uma coorte de crianças em unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP) com sepse, testando a hipótese de que a soropositividade para Epstein-Barr (anticorpos IgG contra o antígeno de cápside viral, VCA-IgG) estaria associada a pior desfecho clínico, caracterizado por:
-
Maior mortalidade;
-
Marcadores de hiperinflamação (PCR, ferritina elevada, síndrome de ativação macrofágica – MAS);
-
Imunodepressão (redução da resposta ex vivo de (Fator de Necrose Tumoral a endotoxina);
-
Microangiopatia trombótica (redução da atividade da ADAMTS13 - enzima proteolítica (metaloprotease).
📍Importante: crianças que receberam imunoglobulina intravenosa ou transfusões sanguíneas foram excluídas em análises específicas, já que esses produtos podem transferir anticorpos dirigidos contra o vírus Epstein-Barr e enviesar os resultados.
Resultados Principais
-
Associação com mortalidade: O estudo encontrou correlação robusta entre soropositividade para anticorpos dirigidos contra o vírus Epstein-Barr e aumento do risco de óbito em crianças com sepse.
-
Imune-desequilíbrio agudo: Crianças soropositivas apresentaram hiperinflamação, imunossupressão e alterações trombóticas, mesmo sem exposição a transfusões ou Imunoglobulina Intravenosa.
-
Efeito da latência, não da replicação viral: Os achados reforçam que não é a presença ativa do DNA viral (detectada por PCR), mas sim o estado de latência dos anticorpos dirigidos contra o vírus Epstein-Barr que contribui para a disfunção imunológica.
-
Mecanismos moleculares: Evidências prévias sugerem que proteínas de latência do vírus Epstein-Barr (como LMP) interagem com a AMP quinase (AMPK – proteína quinase ativada por AMP, sensor energético celular), promovendo desacoplamento da fosforilação oxidativa e proliferação celular patológica. Esse processo pode ser revertido por fármacos como a metformina, que restaura a atividade da AMP quinase.
Implicações Clínicas
-
Este é o primeiro estudo a realizar análise de inferência causal ligando soropositividade ao vírus Epstein-Barr a mortalidade em sepse infantil.
-
A pesquisa amplia o espectro das condições associadas ao vírus Epstein-Barr, sugerindo que sua latência pode ser relevante tanto em doenças crônicas autoimunes e neoplásicas quanto em condições agudas de disfunção imune, como a sepse.
-
Estudos indicam que compostos como sódio butirato e metformina podem modular os efeitos da latência do vírus Epstein-Barr, oferecendo potenciais estratégias de intervenção em pacientes graves.
-
A descoberta reforça iniciativas globais para o desenvolvimento de vacinas contra vírus Epstein-Barr, visando não apenas reduzir cânceres e doenças autoimunes, mas também potencialmente impactar quadros críticos como a sepse pediátrica.
🟦 A figura a serguir, apresenta as curvas de desfecho em 28 dias, comparando os grupos de pacientes com teste sorológico positivo e negativo para o vírus Epstein-Barr (VEB), e a associação entre latência do VEB e pior prognóstico na sepse pediátrica.
Fonte: Sriram A, Kernan KF, Qin Y, et al., 2025
Limitações
-
Embora amplamente usada, essa abordagem não diferencia totalmente o histórico de infecção.
-
Os anticorpos foram medidos 24 a 48h após o diagnóstico de sepse, gerando possibilidade de viés temporal.
-
Não é possível concluir se os achados são específicos da sepse ou aplicáveis a estados críticos em geral.
-
Outras variáveis não medidas podem influenciar as associações.
Conclusão
A pesquisa publicada em JAMA Network Open posiciona a infecção latente pelo vírus Epstein-Barr como um problema de saúde pública subestimado que pode contribuir para desfechos desfavoráveis não apenas em doenças crônicas, mas também em cenários agudos de disfunção imunológica.
O estudo sugere que vacinas contra vírus Epstein-Barr e estratégias terapêuticas que revertam a reprogramação metabólica induzida pela latência viral podem ter impacto direto na redução da mortalidade infantil por sepse.
Referência:
Sriram A, Kernan KF, Qin Y, et al. Epstein-Barr Virus Seropositivity, Immune Dysregulation, and Mortality in Pediatric Sepsis. JAMA Netw Open. 2025;8(8):e2527487. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.27487

