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Meu mundo roxo e rosa

Meu mundo roxo e rosa

Trabalhando como Médica Patologista, é praticamente isto que passa pelos meus olhos a maior parte dos dias: meu mundo roxo e rosa de Hematoxilina e Eosina.

Células, fibras, tecidos, secreções... posso não conhecer diretamente as pessoas, mas vejo meus pacientes de uma forma muito íntima. Através das lentes do meu microscópio, observo as suas células e ouço as histórias que elas querem me contar, numa avaliação minuciosa e delicada do que se passa pelos seus órgãos.

Tirando alterações fisiológicas relativas à sexo e idade (uma vez que hormônios e fatores de crescimento variam em relação a essas condições), as nossas células são todas muito similares. No meu mundo roxo e rosa, somos todos parecidos.
 
Quando vejo meus pacientes no microscópio, não sei quem é branco, pardo, negro, asiático. Não sei quem é gay, quem é hétero, quem é cis, quem é trans. Não sei quem acredita na ciência, quem acredita em deus ou deuses, ou qual é a sua fé. Não sei se o paciente estudou ou se é analfabeto. Não sei se é de direita, de esquerda, se anulou o seu voto. Não consigo diferenciar quem está apaixonado ou de coração partido.

O fato é que sob o microscópio nós somos todos iguais. E quando eu observo minhas lâminas, minha metodologia e cuidado são absolutamente os mesmos, sem nenhuma distinção.

Antes de todos os substantivos e adjetivos que usamos para definir nossa identidade (nascendo com ou os escolhendo) somos todos iguais: organismos vivos, idênticos na nossa constituição histológica.

"Somos todos roxo e rosa."

Então, se é possível olhar um ser vivo no microscópio sem que tudo isso importe, por que aqui fora insistimos em separar?

Acho mesmo que nos falta ver o mundo pela ótica da Hematoxilina e Eosina.


 

NOTA 1: Para fins diagnósticos e considerando que a relação do ser humano com o meio em que vive determina mecanismos patológicos de adoecer, é claro que as informações sobre quadro clínico, sexo biológico, idade, epidemiologia são cruciais para chegar a uma resposta satisfatória sobre a doença do paciente.

NOTA 2: A foto que ilustra essa reflexão corresponde a um Melanoma Nodular, estadiamento patológico pT4 - um diagnóstico com prognóstico muito reservado, sombrio em qualquer paciente, independente de diferenças sócio-econômico-culturais. Parafraseando uma frase do colega patologista Dr. Luiz Roberto Kotze, "na lâmina e na mesa de necrópsia, somos todos iguais."

Academia Médica
Larissa Wendling
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Médica Patologista, professora e preceptora de internato.

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