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Um match entre NFTs e a Saúde

Um match entre NFTs e a Saúde

Quando nos cadastramos em algum aplicativo ou em algum serviço como Netflix ou Facebook, nós assinamos um contrato de usabilidade da plataforma. Uma das cláusulas consta o fornecimento de algumas informações pessoais, como idade, sexo, cidade, tempo e horário de uso da plataforma, preferências... Esses dados podem ser utilizados pela própria empresa, ou transferir para outra empresa, para nos direcionar determinadas propagandas de produtos ou serviços, por exemplo. Na saúde, geramos dados o tempo todo para nossos aplicativos nos smartphones, sensores, smartwatches, entre outros gadgets. O cadastro e contrato nesses softwares são semelhantes às outras plataformas. Porém aqui, os dados fornecidos são muito maiores, como a forma como nos alimentamos, doenças, quanto tempo estamos andando, se fazemos atividade física, se temos contato com espores aquáticos, nossa frequência cardíaca e pressão arterial em cada horário do dia. Esses mesmos dados podem ser utilizados por determinadas companhias com produtos e soluções voltadas para saúde e bem-estar. Dados que nós não sabemos ou não nos preocupamos podem ser transferidas de uma empresa à outra, sem os adequados registro e transparência.

A saúde é um importante setor da economia global, onde estima-se que atinja quase US$ 12 trilhões em investimentos diretos em 2022, porém sofre com a baixa qualidade de dados, problemas de transparência, algoritmos fracos e falta de tecnologias inovadoras. Nossos registros de saúde são mantidos em nossa rede de saúde designada, o que é incrivelmente ineficiente. Felizmente, o setor de saúde é um setor que pode se beneficiar da tecnologia que alimenta criptomoedas e tokens não fungíveis (NFTs). O NFT na saúde pode parecer um conceito excessivamente vago, entretanto alguns empreendimentos que concentram seus investimentos nos tokens a serem usados para o futuro da saúde já existem. A essência do NFT na área da saúde é digitalizar de forma eficaz e transparente o setor de bem-estar, com foco e integração mais estruturados.

O que são NFTs? A palavra do ano 2021 é desconhecida em diferentes níveis para a grande maioria das pessoas. As pessoas que hoje ainda não pararam para ler, mesmo que um título de um artigo, no intuito de saber mais, sobre NFT e Metaverso são equiparadas às pessoas na década de 90 que não sabiam que o homem havia pisado na lua até então. Um token é um código de computador com registro. Um token não fungível é um certificado digital exclusivo, registrado em uma blockchain, que é usado para registrar publicamente a propriedade de um ativo, como se fosse uma “patente certificada de algo único”. Todos podem tirar foto da Monalisa, mas o que confere a propriedade da Monalisa ao Museu do Louvre é um certificado público. Em resumo, a tecnologia conta com uma rede descentralizada de computadores que emprega criptografia avançada para verificar a validade de uma transação, através da internet.

Não entrarei no questionamento sobre quem acha que NFTs consistem em uma nova abordagem para financiar e possuir mídia digital (os pró-FNTs) ou sobre quem acha que causa ou efeito devastador sobre o clima (os anti-NFTs). Além da arte, peças de moda e artigos de luxo nos NFTs, que já consta com um valor na casa dos bilhões de dólares, os NFTs representam a oportunidade de pessoas, não mais empresas, serem detentoras completas de seus dados, como ela quer compartilhar seus dados (integral ou parcialmente), bem como estabelecer o valor para cada transação de cada dado fornecido. Com esse nível de propriedade dos dados, os pacientes podem aproveitar sua vantagem para monetizar seus dados em vez de as empresas lucrar com eles.

À medida que progredimos na era da saúde digital, os gadgets e aplicativos pessoais de saúde empoderam os pacientes com dados personalizados para que eles possam se tornar mais proativos no manejo de sua saúde. O problema está no modelo padrão de que esses dados confidenciais sejam controlados pelas empresas que prestam esses serviços, acarretando lucro, sem compartilhamento aos pacientes. Por exemplo, um aplicativo com sensor de monitoramento da glicemia, dieta e uso medicamentos consegue vender dados agregados de seus usuários-pacientes para outras empresas. Assim, outra empresa ligada à saúde (farmacêutica ou clínica, por exemplo) pode desenvolver medicamentos ou outros dispositivos com base no banco de dados genético que acumulou dos usuários-pacientes. Os pacientes não participam da decisão do compartilhamento de seus dados e muito menos do valor da transação para esse tipo de negócio. Os NFTs podem ajudar os pacientes a escolher quais dados eles compartilham ou vendem e permitiriam que eles rastreiem como esses dados são usados ​​e por quem. É aqui que os serviços confiáveis ​​de gerenciamento de NFT podem ser utilizados para dar suporte a transações de dados e monitoramento em nome dos pacientes.

As vantagens em tokenizar nossos registros médicos e mantê-los como um NFT em uma blockchain pública são inúmeras. Uma parte das pessoas teriam acesso às informações confidenciais e pode-se definir o grau de sigilo para cada informação. Essas informações são criptografadas com tecnologia blockchain. Um único NFT pode conter vários arquivos, com identificação-registro de transação e histórico detalhado armazenado com ele. Os NFTs podem ser atualizados e verificados em tempo real, o que agiliza o processo para hospitais e pacientes. Além disso, permite um documento-fonte de registros, o qual pode ser verificado em qualquer hospital ou consultório médico e ainda auditado pelo paciente, ao contrário de ter partes espalhadas de registros hospitalares por diferentes hospitais, clínicas e aplicativos. Uma ressonância magnética realizada em outro hospital pode ser integrado ao NFT de forma automática e lido em outro hospital ou clínica. Os códigos NFT podem ser gerados como códigos QR (QR code) para armazenar informações médicas de emergência, como certos desejos do paciente, alergias, comorbidades, telefone de contato, caso o paciente esteja incapacitado de fornecer essas informações. O paciente raramente era visto como proprietário desse documento. A capacidade de dar a responsabilidade dos registros médicos ao paciente cria mais transparência e simplifica a experiência da assistência médica. Pacientes com históricos médicos complicados e longos, em que foi envolvido muitas especialidades no processo decisório, não precisariam de muito tempo e energia relatando seu histórico. Ademais, o uso dos NFTs e tecnologia blockchain pode favorecer o trabalho contra produtos farmacêuticos falsificados. Cada lote do produto e unidade de manutenção do estoque pode ter seu próprio identificador NFT. Os envolvidos podem rastrear seu produto e resolver quaisquer problemas com precisão e eficiência.

Bertalan Meskó, do The Medical Futurist, exemplifica de forma clara uma situação. Digamos que você decidiu encomendar um kit de teste de DNA para ter um plano de nutrição adaptado à sua composição genética por uma empresa privada. Através dos documentos que você assina, você também “sabe” que este último pode vender seus dados genéticos a terceiros para fins de pesquisa. Mas você se contenta com o serviço de qualquer modo porque é a maneira mais precisa de obter uma dieta personalizada a um preço relativamente acessível, ou porque te indicaram aquele serviço como o certo a se fazer, ou porque você de alguma forma definiu que teria que ser aquela empresa. No entanto, ao vender seus dados genéticos e os de outros, a empresa pode ganhar milhões que nunca compartilhará com você. Além disso, à medida que esses dados confidenciais são transmitidos ao longo da cadeia de transações, o risco de manuseio incorreto das informações aumenta. Agora, se seus dados genéticos foram cunhados como NFTs, a informação virá com uma característica inerente a ser rastreada. Você poderá ver onde eles vão parar e responsabilizar aqueles que os usaram sem sua permissão, já que você é o único proprietário dos dados, conforme certificado pela autenticação NFT. Além disso, o proprietário do NFT pode habilitar um recurso para ganhar dinheiro sempre que ocorrer uma transação com os dados. Por exemplo, se alguma empresa estiver interessada em seus dados, ela pode entrar em contato diretamente com você, por meio de plataformas digitais, ou você pode aloca-las em plataformas que gerenciam a venda de seus dados, como exchanges.

No mercado atual organizações de doação de sangue já incentivam o uso de NFTs para doações de sangue. Os doadores de sangue são marcados com um token específico que pode ser acompanhado pelo sistema. A doação pode então ser seguida desde o transporte até o hospital, em um banco de sangue e em seu eventual destinatário. O sangue pode então ser registrado por seu NFT em um banco de sangue digital, onde a necessidade de determinados tipos de sangue pode ser rastreada por um sistema blockchain e entregue aonde for mais necessário.

Recentemente o Google e a rede de hospitais HCA Healthcare Inc se uniram pra desenvolver algoritmos de saúde usando registros de pacientes, a mais recente incursão da gigante da tecnologia no setor de saúde de US$ 3 trilhões. Os dados são desmembrados dos pacientes em tempo real, enquanto o uso de NFTs permitiria a esses pacientes rastrear como seus dados estão sendo usados. Um NFT não apenas marcaria os dados como pertencentes a essa pessoa em particular como forma de identificação, mas também garantia de propriedade, o que permitirá que o paciente possa acessá-los e rastrear para onde vai, podendo até fornecer ao proprietário os dados com renda residual. Isso também pode ser aplicado a outras iniciativas de pesquisa que pretendem usar dados gerados pelo paciente. De forma análoga, a RightsHash, um mecanismo de software descentralizado, visa rastrear e gerenciar o consentimento do paciente para ensaios clínicos.

A Aimedis se descreve como uma plataforma inovadora para soluções de saúde e dados médicos desenvolvidas para digitalizar o setor global de saúde por meio do poder de tecnologias como blockchain, contratos inteligentes e inteligência artificial (IA). Como uma plataforma de dados médicos baseada em blockchain, a Aimedis visa mudar a maneira como pacientes, médicos e hospitais se comunicam, conectam e lidam com informações. A plataforma já está ativa em mais de 20 hospitais localizados em 3 países diferentes e atualmente atende mais de 10.000 pacientes. Com a Aimedis, os pacientes podem ter controle total de seus dados de saúde, incluindo prescrições online e consultas com médicos antes, durante e após seus tratamentos. A plataforma baseada em blockchain permite que os usuários armazenem, protejam e compartilhem suas informações médicas apenas com as pessoas com quem desejam compartilhá-las usando o sistema de gerenciamento da Aimedis. A Aimedis também pretende reduzir o tempo gasto na busca de informações de pacientes em métodos de gravação analógica, armazenando com segurança os dados que podem ser recuperados de forma rápida e fácil. Curiosamente, a Aimedis também está alavancando o mercado de NFT e, de acordo com a equipe, lançou o primeiro mercado de NFT médico e científico do mundo, que apresenta pacientes e profissionais médicos a uma plataforma justa e segura onde dados médicos e científicos podem ser negociados para pesquisa e outros propósitos. Os provedores podem vender seus dados a preços razoáveis para empresas farmacêuticas, instituições de saúde e seguradoras sem intermediários. Os dados são vendidos e comprados como NFTs rastreáveis e protegidos por contratos inteligentes, o que garante que os termos do contrato sejam executados automaticamente em todos os momentos.

O aplicativo de monitoramento de saúde Go! (Enjin e Health Hero) coleta dados e atividades de bem-estar por meio da integração com dispositivos e aplicativos de rastreamento de saúde, como Apple Health, Google Fit e Fitbit, entre outros. O Go! irá então analisar esses dados para gerar W-NFTs (NFTs de bem-estar) exclusivos com uma ampla gama de recursos projetados para trazer um grau de escassez ao token. O Go! permitirá que cada usuário crie um token exclusivo para suas características de saúde e atividade. À medida que um número crescente de estatísticas de atividade e parâmetros de bem-estar são inseridos no aplicativo, o W-NFT correspondente continua a adquirir mais características e recursos que o tornam ainda mais raro e único. O usuário pode então, se desejar, optar por negociar tais W-NFTs por Enjin Coin (ENJ) no Enjin Marketplace. Além disso, o Global Challenges oferece uma experiência de painel agradável destinada a gamificar a saúde e habilitar um novo tipo de comunidade digital. A Health Hero está pensando em introduzir W-NFTs ao Global Challenge por meio de uma campanha baseada no Telegram para permitir que os usuários criem W-NFTs personalizados com base em seu procedimento de bem-estar. Com o objetivo de engajar os usuários para fazer parte de uma comunidade, esses W-NFTs estão sendo obtidos gratuitamente. Ainda o aplicativo aproveitará a blockchain JumpNet sem gás para garantir que os W-NFTs permaneçam economicamente viáveis ​​para uso e permanecerem mais ecológicos do que outras plataformas. Para comparação, a JumpNet utiliza 99,99% menos eletricidade do que redes como a Ethereum.

Pacientes de diferentes partes do mundo podem obter benefícios da plataforma médica NFT cooperando com provedores de dados profissionais enquanto recebem seus serviços de saúde. Os dados obtidos nos processos de diagnóstico e tratamento de pacientes podem ser utilizados em outra parte do mundo para tratar pacientes com problemas de saúde semelhantes e na fabricação de vacinas e medicamentos. Organizações de pesquisa contratadas e hospitais provedores de dados médicos podem compartilhar anonimamente seus dados médicos no mercado NFT. Isso permite que eles gerem receita para continuar suas contribuições de pesquisa no mais alto nível. As empresas farmacêuticas precisam dos dados dos pacientes para melhorar seus produtos, bem como para tomar as melhores decisões de adequação ao mercado de produtos para seus lançamentos. As companhias de seguros, por outro lado, precisam dos dados para entender efetivamente seus mercados-alvo e seu status médico.

Com todas essas vantagens, é possível concluir que os NFTs não são reservados apenas para obras de arte ou enterradas de seu jogador favorito da NBA. O ganho pelo uso de seus dados pode ser mais cedo ou mais tarde, embora seja evidente que há muito tempo os pacientes precisam controlar seus dados. Ainda que os NFTs ainda estejam em sua infância, a tecnologia pode evoluir no futuro para se tornar mais atraente para os pacientes favorecerem a agência que fornece seus dados. Existem obstáculos significativos a serem superados antes que a NFT na área da saúde se torne comum, mas seus potenciais são inconfundíveis. Uma limitação de curto e médio prazo está relacionada a capacidade da tecnologia blockchain funcionar de forma bastante ineficiente, com grandes quantidades de energia necessárias para pequenas transações. Isso está ainda ligado a emissões significativas de gases de efeito estufa, que contribuem para as mudanças climáticas. Mas alternativas para a cunhagem de NFT estão em andamento e podem usar uma fração do poder de computação atualmente envolvido em suas transações, em especial sob a computação quântica. Depois, há a questão de saber se as empresas que oferecem serviços de saúde digital realmente desejam adotar a tecnologia. Eles podem não ser particularmente atraídos pela ideia de compartilhar seus lucros com os pacientes, de quem tradicionalmente lucram e não o contrário. De qualquer modo, àqueles que questionam sobre o valor gasto sobre determinados ativos ou a hipervalorização de determinados ativos de arte ou moda transformados em NFT, amplio o questionamento: qual arte é mais admirável que a sua saúde? Qual item é mais valioso que a sua saúde? Cabe-nos dois rumos: sentar e aguardar o óbvio acontecer ou participar do processo de construção do que estamos vivenciando.

Academia Médica
Albert Bacelar de Sousa
Albert Bacelar de Sousa Seguir

Médico Intensivista, Professor Universitário, Coordenador UTI, Instrutor Simulação Realística, Programador Python, Professor Health Design Thinking, MBA Gestão em Saúde, Educação, Empreendedorismo e em Tecnologias em Saúde, Ex-Mergulhador de Resgate

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