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Vacina contra covid-19: vidas pobres importam?

Vacina contra covid-19: vidas pobres importam?

Um dos maiores empreendimentos e maior busca da ciência no momento é o de uma vacina contra esta pandemia da Covid 19, existindo hoje mais de 150 vacinas em diferentes estágios de desenvolvimento sendo que após a comprovação de sua segurança e eficácia, saber quem vacinar primeiro será fundamental para diminuir a propagação do vírus assim como o número de internações e mortalidade. 

Os benefícios da vacina irão ocorrer de forma lenta, gradativa e em camadas pois neste primeiro momento não haverá vacinas para todos, com estimativa de se  vacinar somente 10% da população mundial.  

Esta primeira distribuição deveria ocorrer de forma equitativa, que significa ser justa, imparcial e isenta, tratando os diferentes de formas diferentes, não devendo haver nacionalismos e uso poder financeiro para sua aquisição, pois esta pandemia vai durar mais e matar mais até que nos livremos dela em todos os locais do mundo.

Como quem está produzindo a vacina é o setor privado e não entidades acadêmicas ou governamentais e o suprimento inicialmente será escasso, os gestores não medirão esforços para comprar o maior estoque possível de vacinas para proteger a população de seus países, então os vencedores serão bem previsíveis e será ignorado que os mais pobres precisam mais imediatamente das vacinas, afirma Dra Ruth Faden do Johns Hopkins Berman Institute of Bioethics.

A grande discussão é: como alocar de forma justa, ética, imparcial as vacinas neste primeiro momento? Quem deve receber prioritariamente as vacinas? Profissionais da área da saúde? Trabalhadores essenciais? Idosos? Portadores de comorbidades? Crianças? Países com maior número de casos ou mortes?

Parece haver um consenso que profissionais da área de saúde (não só médicos) devem ser vacinados por primeiro. Os motivos são claros e aceitáveis pois são a classe com maior exposição ao vírus, classe que todos nós mostramos apreço e reconhecimento por estarem na linha de frente colocando em risco sua vida e de seus familiares em prol da vida dos outros, com jornadas exaustivas de trabalho e com enorme desgaste físico e emocional.

O segundo grupo seriam os idosos pois são o grupo de maior risco de terem formas graves com necessidade de internação e altas taxas de mortalidade.

Nestes dois critérios de prioridades surgem algumas reflexões como; ao priorizarmos profissionais da área de saúde e idosos, estaríamos privilegiando países ricos, que tem maior população destes dois grupos. Os riscos, exposição, número de casos e mortes de profissionais da área de saúde são mitigados em países ricos, devido a não faltar EPI (Equipamento de Proteção Individual), com este argumento os profissionais da área de saúde deveriam ser priorizados em países não ricos; ao priorizarmos idosos estaríamos dando preferência a salvar vidas independente da expectativa de vida das pessoas salvas.

Outra discussão em prioridades são os trabalhadores de áreas essenciais, sendo  desafiador definir quem é mais essencial. Será que que os profissionais da área da saúde tem um trabalho mais essencial do que os trabalhadores do transporte, alimentação, segurança, trânsito e escolas? Os trabalhadores destas áreas tem empregos de riscos, não possibilidade de trabalhar em casa, salários mais baixos,  incapacidade de fazer isolamento adequado, muitas vezes maiores jornadas de trabalho, exposição a um maior número de pessoas e sem a proteção de EPIs adequados, merecendo ao meu ver o mesmo tratamento dado aos profissionais da área de saúde, quando forem disponibilizadas as primeiras doses de vacinas. 

Agora o principal fator de risco para formas graves e mortalidade em todo mundo é a pobreza, pois como todas as outras pandemias esta não é nada democrática, atingindo e matando os mais vulneráveis, os menos favorecidos. Em países pobres onde não há água, comida e condições mínimas de habitação e sanitarismo, todos são de risco, não havendo a necessidade de estratificar e priorizar camadas sociais para se receber vacinas. 

Nos EUA, Brasil e em vários países do mundo existem decisivas e marcantes influências étnicas e sociais também na saúde, onde pobres e negros são mais  atingidos em todas as doenças, epidemias ou pandemias. Esta influência fica evidente ao observarmos o maior número de casos e mortes da Covid-19 em negros e pobres, evidenciando também existir um racismo na saúde.  

Os critérios de alocação das vacinas serão uma grande oportunidade de corrigirmos  ou ampliarmos ainda mais esta injustiça social e/ou racial.

Em pandemias onde a morbimortalidade é muito maior em classes sociais mais baixas ou em países menos favorecidos, devem ser definidas prioridades na alocação de vacinas, com critérios éticos sendo que estas definições e critérios devem ser bem transparentes e esclarecidas à população. Prioridades devem ser definidas assim como atendimentos em um pronto socorro onde uma dor de ouvido não deve ser atendida antes de um acidente vascular cerebral.

O National Academy of Sciences, Engineering, and Medicine(NASEM) estabeleceu alguns princípios básicos para esta primeira distribuição de vacinas como: beneficiar pessoas de maiores riscos de danos e mortes, priorizar países desfavorecidos pela pobreza e com altas taxas de transmissibilidade, evitar discriminação, evitar mortes prematuras e perdas de muitos anos de expectativa de vida além de amenizar consequências econômicas e sociais. Salientam que não deve haver nacionalismos na distribuição das primeiras vacinas, deixando claro que é preferível vacinar algumas pessoas em todo mundo do que todas as pessoas no mesmo país.

Saber quem vacinar primeiro, como e quando é fundamental para diminuir a propagação e danos causados por este vírus, sendo que esta distribuição deve ser justa, equitativa , segura e eficaz.

 Estas escolhas podem ser trágicas e traumáticas mas eticamente justificáveis em pandemias segundo a World Health Organization Ethics and Covid-19. Segundo esta mesma organização países com sucesso no controle da pandemia, deveriam ser os últimos a receberem as vacinas, pois milhões de doses iriam salvar pequeno número de pessoas, ao contrário do que aconteceria em países pobres, onde a pandemia ainda  não está controlada. 

A Organização Mundial de Saúde formou uma aliança com mais de 170 países ( EUA não fazem parte) denominado Acesso Global de Vacinas Covid 19 (COVAX) para garantir 1 bilhão de doses de vacinas aos países pobres a um custo bem baixo ou sem custos, o que permitirá que cada país possa comprar inicialmente vacinas para imunizar 10% de sua população, devendo atender prioritariamente às populações de risco e os mais vulneráveis.

Estamos cada vez mais próximos de provar que todos os indivíduos devem ser tratados com os mesmos direitos e com equidade, devemos salvar o maior número de vidas possível priorizando os mais vulneráveis tornando esta pandemia pouco mais democrática, diminuindo número de casos, internações e mortes entre os menos favorecidos.

Em resumo, chegou o momento de provarmos e mostrarmos que VIDAS POBRES IMPORTAM.

 


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Referências Bibliográficas

1-Nature 17 September 2020: Vol. 585, Issue 7826, pag. 492-3

Who gets a COVID vaccine first? Access plans are taking shape

2-Nature 01 october 2020: Vol.586, Issue 7827, pag. 8

COVID vaccine confidence requires radical transparency

3- Nature 27 August 2020: Vol. 584, Issue 7822, pag. 506-07

The unequal scramble for coronavirus vaccines — by the numbers

4-Science 25 Sep 2020: Vol. 369, Issue 6511, pp. 1553

Despite obstacles, WHO unveils plan to distribute vaccine

Academia Médica
Rubens Cat
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Médico pediatra e professor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atual chefe do Departamento de Pediatria do Hospital de Clínicas (HC-UFPR)

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