Vivendo do futuro
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Vivendo do futuro

Não, esse não é um artigo sobre tecnologia ou avanços da ciência. Muito menos sobre um romance ou filme que fale de passagem no tempo. Também não é sobre como envelhecer bem. É sobre minha avó, ansiedade e cérebro

Minha avó era uma mulher que vivia seus problemas futuros. Apesar de longeva e de não ter tido nenhuma das principais doenças que acometem a humanidade, como o câncer, ela sempre estava prestes a vivenciar uma tragédia-infundada. Tudo era dramático, meio cinema espanhol. A ela, esse “sofrimento” não afetou os anos que ela iria viver. Aos familiares, principalmente a mim, causou uma estranha ansiedade que me acompanha até hoje. Uma ansiedade meio cinema mexicano dessa vez. Faz parte da rotina ouvir de outra pessoa que sou “meio ansiosa”. Sim, fui treinada para isso, risos.

Assim como ela, eu sou um ser extremamente preocupado com o futuro. No ditado popular: faço uma tempestade em um copo d'água. Muitas das minha tempestades não têm sentido algum em me causarem noites de sono mal dormidas. São bobagens, fantasias, pensamentos automáticos.

Há um mês entrei de férias da faculdade de medicina rumo ao terceiro semestre. Foi um mês difícil. Não relaxei. Além da filha da minha avó (risos) ser minha mãe e viver também no futuro estilo cinema espanhol, eu vivi momentos em que fui testada a me forçar a viver no tempo presente.

Ao contrário do que podem pensar, eu gosto do meu momento presente. Estudo o que amo, tenho consciência das responsabilidades que me aguardam em uma carreira como a medicina e de forma alguma isso me causa medo. Porém, em outras partes da minha vida, vivo há anos sobre a ameaça do momento futuro. É a minha herança familiar cuja minha mãe é protagonista de uma série de mau agouros. Ela, como eu, também foi treinada para acreditar que a homeostase de seu organismo depende do controle futuro de possíveis dramas que podem atormentar a sua vida. E falando de homeostase…

Nesse mês de férias li o livro “A Estranha Ordem das Coisas”, do neurologista Antônio Damásio. É nesse semestre de medicina que vou estudar os princípios das neurociências. A anatomia e fisiologia desse órgão que define em que momento do tempo a gente vive; que tenta, através dos dramas criados,  levar o organismo ao equilíbrio, sobreviver… E não importa como podemos carregar o mundo nas costas, mas se fomos ensinados encarar a vida com "fair play", iremos vivenciar muito mais o momento presente. Estaremos em atenção plena. Não antecipando conflitos.

Além do livro do Damásio, chegou a mim outro livro, “Busque Dentro de Você”, do Google. E nele há técnicas usadas para se desligar de todos os prognósticos a respeito do futuro, como os pensamentos automáticos de mau agouros. Confesso que ainda não experimentei “viver no presente”, mas estou empenhada, baixei até um aplicativo de nome "Lojong" que ensina meditação. E por que isso é tão importante?

A importância de viver um dia de cada vez evita a produção, por parte das nossas células, de diversas substâncias nocivas que acionam muitos mecanismos de estresse, entre eles o de “fuga e luta”. Até posso compreender que há bem pouco tempo vivenciamos guerras e situações adversas na humanidade. Em alguns lugares de conflitos como guerra civil, extrema miséria e epidemias, antecipar o futuro com todos os seus problemas e possibilidades irá garantir menos sofrimento e, portanto, a sobrevivência. 

Em seu livro, Antônio Damásio fala sobre a importância do ensino da atenção plena através da meditação. Quando li isso no livro parece que todos os pontos se conectam. Minha avó, mãe, minha ansiedade, o futuro, sentimentos de luta e fuga, sentimentos…

Viver no presente é necessário até nas tragédias que cruzam a vida. Em pesquisas recentes de cinco anos para cá, mulheres com câncer de mama que meditam tiveram uma taxa de sobrevivência maior. Nas respostas às vacinas, pessoas que meditam e vivem em seu momento presente alguns segundos da vida, produziram mais anticorpos.

Dos muitos caminhos que nossa espécie – e outras – tenta buscar, a homeostase é a sobrevivência. Viver tragédias futuras parece que nem sempre é a melhor solução. Precisamos aprender a apenas existir às vezes.

 

“O fluxo e refluxo de sentimentos homeostáticos espontâneos provê um segundo plano sempre presente, uma sensação mais ou menos pura de existir, como aquela a que os praticantes de meditação aspiram experimentar. A outra fonte de sentimento é o processamento das várias imagens que compõem as procissões de conteúdos em nossa mente enquanto eles causam respostas emotivas e os respectivos estados de sentimento. Esse último processo depende da presença de certas características nas imagens de qualquer objeto, ação ou ideia em nosso fluxo mental que consigam desencadear uma resposta emotiva e, com isso, produzir um sentimento. Os numerosos sentimentos assim produzidos unem-se ao fluxo contínuo de sentimentos homeostáticos e seguem com ele. O resultado é que nenhum conjunto de imagens deixa de ser acompanhado por uma quota de sentimento”

A Estranha Ordem das Coisas - Antônio Damásio, Companhia das Letras.

Academia Médica
Marcela da Silveira Rocha
Marcela da Silveira Rocha Seguir

Estudante de Medicina Universidade Nove de julho - GRU

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