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Viver a "quase morte"

Viver a

Julho de 2017 - férias

O plano era simples, eu e meu marido faríamos apenas uma pequena viagem de férias a Machu Pichu, já que meu filho está no Vale do Silício fazendo um estágio e minha filha viajando pela Europa com a amiga.

Saímos de São Paulo direto para Cusco, uma cidade que fica a 3400 m de altitude. Para fazer ciência, meu marido levou um oxímetro, aquele aparelhinho que se coloca no dedo e mede a saturação de oxigênio. A saturação normal deve estar acima de 90% , sendo que a média fica em torno de 98 a 99%.

Quando viajamos para uma alta altitude, é comum haver uma queda dessa saturação que demora algumas horas ou até alguns dias para ocorrer a adaptação. Chegando lá, meu marido mediu a saturação dele que ficava em torno de 93% e a minha 74%.

De início, não acreditamos muito nesse índice, porque seria relativamente grave e eu não estava me sentindo mal, talvez apenas com um cansaço maior aos esforços como seria de se esperar. Lá, esse mal estar é conhecido como "Soroche".

Mas estávamos é preocupados com um outro problema. Que azar! Na cidade havia uma greve dos professores e no dia seguinte haveria uma paralisação geral. Assim tivemos alguns passeios cancelados e por causa desses inconvenientes, acabei fazendo pouco esforço físico. Mesmo assim, minha saturação não melhorava muito (Ahn! esse aparelhinho devia estar com algum defeito!)

Já estávamos no terceiro dia . Tinha uma ladeira e eu subi extremamente ofegante. Meu marido ainda riu dizendo que nem os velhinhos subiam assim! rsrsrsr

De noite já foi um pouco mais difícil subir um lance de escada dentro do hotel. Cheguei a conclusão de que talvez eu tivesse que fazer mais atividade física para melhorar meu condicionamento. Ainda me recusava a acreditar que meu corpo estava dando sinais de limitação.

Desde que cheguei a Cusco, eu estava com muita dor de cabeça. Tomava vários comprimidos, chá de coca, chá de muña e mesmo assim a melhora era parcial. Mas essa noite acordei pela dor de cabeça. Também estava muiitoooo cansada e comecei a tossir com um pouco de dor nas costas. Pela primeira vez percebi como eu estava exausta, até para respirar. Minha saturação já estava em 64%. Ops! Acho que o oxímetro está realmente funcionando!

O plano de viagem seria ir para Machu Pichu de manhã. Decidimos que seria mesmo o melhor a ser feito, afinal Machu Pichu fica a 2400 m de altitude, então lá, possivelmente eu me sentiria melhor. Comentei com meu marido que talvez se eu não estivesse me sentindo bem, eu não o acompanharia no passeio e ficaria esperando em algum hotel por lá.

Contratamos um motorista para nos levar até Ollantaytambo, de onde sai o trem para Águas Calientes, a cidade de onde parte um ônibus que leva a Machu Pichu. O que não sabíamos é que no trajeto subiríamos a 3800 metros antes de descer para 2400m. Puxa, nesse trecho de 2 horas a tosse piorou e comecei a ter mais dor para respirar. A dor de cabeça me deixava atordoada, mas finalmente chegamos ao nosso destino.

O trem demorou a partir porque havia bloqueio na ferrovia. Ficamos mais de 1 hora sentados no trem esperando a partida, então comecei a me sentir bem melhor. Minha saturação já estava em 82% e eu nem tinha dor de cabeça. Até agitava a cabeça, balançando-a e me sentindo livre da dor.

Finalmente o trem partiu e cada vez me sentia mais bem disposta. Chegamos a Águas Calientes e eu estava animada para o passeio. Puxa, mas estávamos com o cronograma todo atrasado. Nosso guia lá nos colocou para correr para não perder um dos últimos ônibus que nos levaria a Machu Pichu.

Incrível! Eu consegui correr!!! (cansei bastante, é claro!)

Começamos a caminhada pelas trilhas íngremes e fantásticas daquele incrível museu arqueológico inca. Meu marido perguntava se eu não queria parar, afinal, já tínhamos tirado a foto clássica. O guia estava empolgado e eu acreditei que estava bem. Faltava apenas meia hora para o passeio acabar, então fomos seguindo devagarinho.

A tosse voltou, com uma sensação de que tinha algo meio espumante dentro do peito.

Pegamos o ônibus de volta a Águas Calientes para pegar o trem de volta a Ollantaytambo. Puxa, seria uma viagem de primeira classe, com jantar e bebidas inclusos. Tudo muito chique e romântico. Mas a estação estava lotada e os trens saindo com muito atraso.

Era para embarcarmos às 19h, mas partimos às 22h!

A programação seria voltar para Cusco ainda aquela noite, mas meu marido pediu ao nosso guia que encontrasse um hotel em Olliantaytambo, porque já estava muito tarde para encararmos uma viagem de 2 horas subindo a Cordilheira dos Andes. Assim ficamos em um pequeno hotel ao lado da estação dessa cidadezinha. Tomei um banho revigorante e dormi.

Acordei várias vezes a noite. A dor de cabeça incomodava demais e muito cansaço para respirar.

Pela manhã a saturação chegou a 56%. Estava tossindo e comecei a expelir uma espuma rósea.

 

BLÉIM BLÉIM BLÉIM!!!!

 

Sinal de alerta: tosse com expectoração espumante rósea revela edema pulmonar. Já estava expelindo sangue com líquido pelos pulmões!!! O edema agudo de pulmão pode ser fatal se não tratado imediatamente.

Meu marido conseguiu falar com um médico da região, mas que morava longe. O hotel nos encaminhou para o único centro médico da cidade. Uma enfermeira abriu a clínica e me colocou no oxigênio. Um lugar extremamente simples, mas uma enfermeira que sabia de todas as providências a serem tomadas. Aos poucos fui me sentindo melhor.

E agora?! Estávamos em uma minúscula cidade no interior do Peru. Nossa bagagem estava em um hotel de Cusco. Para chegar lá teríamos que conseguir transpor os 3800 m para chegar aos 3400 m. E eu nem conseguia manter minha saturação por 5 minutos fora do oxigênio.

O médico chegou, vindo da outra cidade. Avisou que já havia solicitado uma ambulância para minha transferência para o hospital de Cusco. Que maravilha, nosso problema estava solucionado!!!
Eficiência deste médico? Bem, na verdade mais me pareceu receio em não saber como conduzir meu quadro! Cá entre nós, se a enfermeira era excelente, esse médico estava bastante inseguro e atrapalhado.

Algumas horas depois a ambulância chegou. (Desconfio que aquele carro seja chamado de ambulância só porque eu poderia ser transportada deitada e tinha balão de oxigênio!)

Enquanto estava sendo acomodada, vejo o médico fazendo uma selfie comigo!!! Uma criança se aproxima e lá vai outra selfie! A enfermeira vai descer da ambulância e ele pede para ela posar antes para uma foto!!!

 

Aiaiaiaiai... justo eu, que odeio fotos!!!!

 

No caminho, sirene ligada: uóóóó....uóóóó....uóóóó....

Eu estava deitada em um colchonete que escorregava para cima e para baixo. Além disso a maca também batia de um lado para o outro.

Teve um momento em que o motorista não brecou em uma lombada e eu voei lá dentro. Ganhei um roxo no bumbum.

No caminho de subida daquelas montanhas, muita coisa começou a se passar em minha mente. Alguém já disse que na vida a gente precisa ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Comecei a entender esse significado:
1) Ter filho é doar-se para a posteridade. Meus filhos já voaram de meu ninho e seguem seus caminhos. Sei que eles seguirão um belo caminho. Já me tornei desnecessária o suficiente para eles saberem se conduzir por suas próprias asas. Sei que já plantei minha semente e que eles vão perpetuar tudo que neles foi cultivado! Havia muita paz em meu coração pela certeza do amor que nos une. Uma verdadeira sensação de missão cumprida!
2) Escrever um livro é doar-se para a sociedade. É contribuir para que esse mundo possa ser um pouquinho melhor. Os filhos perpetuam nossas sementes, mas a gente também tem que dar frutos. Puxa, que incrível, acabei de escrever um livro, onde registrei tudo aquilo que aprendi durante a criação de meus filhos. Já está em fase de revisão final para publicação. Por um momento me veio à mente se a minha editora iria lançar um livro póstumo! Puxa, mas eu ainda tenho tantos planos para o futuro!
3) Plantar uma árvore é retribuir à natureza. Decidi que não vou plantar uma árvore tão cedo, senão, né! Vai que de repente eu já cumpro com todas as minhas missões na Terra...

 E, então algo incrível aconteceu.

A minha ambulância, lembrava muito uma “Caravan”, carro da década de 1980. Ele era branco, com as janelas pintadas de branco só até a metade. Como estávamos subindo a Cordilheira, eu conseguia enxergar toda a paisagem, mas devido a minha miopia, eu enxergava tudo muito embaçado.

Eis que, de repente, minha dor de cabeça e no corpo inteiro sumiu. O cansaço e a falta de ar também. Veio uma imensa sensação de bem-estar. As cores do horizonte estavam incríveis!!! Era como se tudo estivesse brilhando. Talvez a imagem mais bonita que eu já vi! Muita, mas muita paz, plenitude, silêncio... (até a sirene da ambulância se calou). Por outro lado, até uma euforia, sensação de encanto, fascinação...

Seria uma tempestade de endorfinas?! Puxa, tudo era maravilhoso demais! Que sensação indescritível!!!

Algo me passa pela cabeça: “não vou ter tempo para me despedir dos meus filhos...” Uma pontada de dor no coração e algumas lágrimas.

Preciso dormir...

Fechei os olhos...

E, parece que no instante seguinte acordei!

Ué... como assim, eu não fui???!!!!

Chegamos ao hospital de Cusco. Uma pequena clínica onde todos são extremamente atenciosos e prestativos. Sabiam perfeitamente como conduzir o quadro. Fizeram vários exames e a tarde dois médicos vieram me avaliar.
A maioria das pessoas que viajam para altas altitudes em algumas horas já se adaptam à rarefação do ar. É raro, mas existem as que não se adaptam e eu fui exatamente uma dessas.
Minha cura seria voltar para uma baixa altitude, mas para isso eu precisaria pegar o avião. O problema é que eu não conseguia manter minha saturação fora do oxigênio, então não conseguiria fazer o voo de 1 hora até Lima (que fica ao nível do mar).
Descobrimos que durante o voo a pressurização alcançada em cabine é equivalente a 2400 m de altitude. Como faríamos?! Nosso voo já estava marcado para a madrugada e do jeito que tudo caminhava, eu não teria condições de embarcar.
Estava com um catéter de oxigênio no nariz e soro correndo com diversas medicações. Mesmo assim, só no tempo de ir ao banheiro minha saturação ficava em 72%. Então me sugeriram fazer uma sessão de câmara hiperbárica (um tipo de um tanque onde o paciente fica deitado inalando oxigênio 100% a uma pressão mais alta que da atmosfera). Possivelmente após esse tratamento eu conseguiria manter minha oxigenação. O problema é que não teria como fazer ainda aquela noite e possivelmente perderíamos nosso voo.

Percebi quanta boa vontade tinham todos os funcionários e médicos desse hospital. De alguma forma conseguiram encaixar um horário para eu fazer a sessão hiperbárica ainda aquela noite. Fiquei deitada por 1 hora dentro desse tanque. A única sensação ruim é a de pressão nos ouvidos.
Bem, o desafio era manter minha saturação acima de 80% em ar ambiente. Se conseguisse poderia ter alta.
Yuhuuuu, consegui!!!
Providenciaram a ambulância para nos levar ao aeroporto e embarcamos.
Durante o voo mantive 84% de saturação. Pousamos em Lima.
Medi a saturação e, como por mágica, 99% !!!

Havia então o desafio de mais 5 horas de voo até São Paulo.
Embarcamos novamente. A saturação que começou em 99% foi caindo aos pouquinhos e chegou a 89% . Desembarcamos e foi só pisar em terra que a saturação subiu para 98%!

Incrível!!! Acho que nasci com um altímetro embutido!
Chegamos em São Paulo no domingo a tarde. Fui dormir mais cedo, afinal segunda-feira já voltaria a trabalhar.
Ao acordar de manhã, caiu a ficha!
Puxa, eu poderia ter morrido!

Só tenho a agradecer a Deus:
- A greve em Cusco não me permitiu fazer muito esforço físico. Por todas as inconveniências das paralisações, ocorreu um grande atraso do trem e por isso decidimos ficar em Ollantaytambo. Talvez se tivéssemos subido a Cordilheira ainda aquela noite como previamente combinado com o motorista, eu não teria sobrevivido.
- A única clínica que havia em Ollantaytambo era muito próxima ao hotel. As instalações eram precárias, mas tinha oxigênio. Mesmo que o médico responsável não entendesse muito e só queria tirar uma selfie, a enfermeira sabia como agir.
- Já em Cusco, mesmo sendo um pequeno hospital, o atendimento foi de excelência. Chamou-me a atenção o quanto as pessoas se importavam conosco e não só com a doença. Fizeram de tudo para eu melhorar e também para que não perdessemos a passagem de avião que já tínhamos comprado.
- Aprendi que tenho que reconhecer as minhas limitações físicas. Os sintomas e as doenças não acontecem só com os outros. Ainda bem que meu marido havia levado o oxímetro. Mesmo assim foi difícil eu acreditar que o quadro estava grave. Talvez se não tivéssemos medido a saturação, não teria tido tempo de buscar socorro.
- E enfim, ... Ufa!!!! Eu sobrevivi!

 


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