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CinePsiquiatria #1: Clube da Luta

CinePsiquiatria #1: Clube da Luta

O projeto CinePsiquiatria é um trabalho proposto pela equipe da Academia Médica que recebeu grande aceitação e apoio nos leitores da comunidade. Queremos agradecer os vários comentários recebidos e ressaltamos a importância da participação de todos leitores para melhor discussão dos filmes. Este projeto é uma coluna periódica chamada #CinePsiquiatria, com recomendação e análise de filmes para os amantes de cinema e psiquiatria.

E aqui vai o CinePsiquiatria #1, no qual tentarei, na visão da psiquiatria, analisar uma das grandes obras do cinema ocidental, o filme de 1999, do emblemático diretor David Fincher: Clube da Luta (Fight Club). Pegue sua pipoca e vamos lá!

AVISO DE SPOILER! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, É RECOMENDADO VOLTAR APÓS O TÉRMINO DA PELÍCULA!

"A propaganda fez com que as pessoas buscassem carros e roupas que não precisam. Gerações trabalhando em empregos que odeiam, apenas para que possam comprar coisas que não precisam." Tyler Durden

Iniciaremos este primeiro CinePsiquiatria com a pergunta: Qual a semelhança entre a série de desenho animado americana Adventure Time e o filme de David Fincher?  

O filme Clube da Luta, de 1999, é baseado no romance homônimo publicado em 1996, por Chuck Palahniuk. A história é contada por um narrador intencionalmente sem nome, que as vezes é chamado de Jack e outras vezes de Rupert. O filme foi polêmico na época de lançamento e não rendeu tanto quanto era esperado, porém com o passar dos tempos foi entrando na categoria cult e, nos tempos atuais, é aclamado pelos cinéfilos e pela crítica especializada.

Clube da Luta foi estrelado por um elenco de peso: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter e Jared Leto. E é rotineiramente pauta de análise no mundo tudo. 

Existem várias teorias sobre o filme e ele transmite, ao mesmo tempo, diversas mensagens, como você pode constatar na frase célebre de Tyler no início do texto. A intenção do diretor David Fincher com a violência do filme foi a metáfora do conflito entre toda uma geração e o sistema de valores da publicidade. O filme está repleto de metáforas e usa a simbologia para passar a mensagem que o narrador quer mostrar para a platéia. Mas qual é essa mensagem?

A película começa in medias res (latim para "no meio das coisas"), uma técnica literária na qual a narrativa tem início no meio da história, quando o personagem de Brad Pitt está com uma arma na boca do personagem de Edward Norton, esperando algo grande acontecer. Nesse primeiro momento do filme, já entramos em contato com o seu final e podemos perceber que as coisas vão se direcionar para um rumo "complicado". No decorrer do filme a história vai se desenvolvendo até entendermos o contexto do que está acontecendo e quem são aquelas pessoas envolvidas.  

(SPOILER!) Lembrou? Segue aqui a resposta da pergunta que fizemos inicialmente: BMO e Football, Narrador (Jack ou Ruppert) e Tyler Durden, ambos são a mesma pessoa!  

Vamos dar 4  pistas para identificar isso. Para entender, assista novamente as seguintes cenas:

  1. Cena do comercial de televisão onde Tyler está camuflado entre os funcionários de um hotel; 
  2. A cena em que ocorre o acidente proposital de carro. O narrador entra pela porta do motorista e, apesar de demonstrar que está sentado no banco do carona, é uma prova de que é ele quem está dirigindo o carro e não Tyler;
  3. Na cena em que o narrador vai ao hospital consultar-se por insônia, Tyler aparece em um flash de imagem;
  4. Quando o narrador descobre que seu apartamento explodiu ele liga para Tyler em um telefônico público que tem um adesivo com o escrito "não recebe ligações". Lembram que Tyler não atende ao telefone, mas liga de volta ao orelhão? Essa é uma dentre outras das pistas que David Fincher deixa para mostrar que Tyler não é real. 

O filme abre uma série de discussões e pode ser analisado por várias linhas, vou tentar aqui fazer as vistas da psiquiatria clínica, mas recomendo aos amantes de psicanálise o interessante artigo disponível neste link. ¹

Mas vamos lá! Pela psicopatologia e clínica psiquiátrica, o filme tem como protagonista um homem com características semelhantes àquelas do Transtorno Dissociativo e de Identidade (TDI), anteriormente conhecido como Transtorno de Personalidade Múltiplas. Tal transtorno foi até os anos 1980 praticamente ignorado pela medicina e é controverso até nos tempos atuais. Encontra-se na CID-10 (10ª edição do Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) e no atual DSM-5 (5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais)‎. 

O TDI é um transtorno curioso que, apesar de raro (a literatura aponta em torno de 1% da população), é alvo de muitos trabalhos na literatura e no cinema.² Recomendo os filmes "Sybil" (1976) e "Fragmentado" (2016), e o livro "O Médico e o Monstro" (1885), de Robert Louis Stevenson.  Se fizermos uma revisão de literatura nas bases de dados em língua portuguesa vamos encontrar poucas publicação sobre esse tema. 

Existem poucos estudos em língua portuguesa para o transtorno. Porém existem alguns casos célebres e curiosos em que se suspeita do transtorno, por exemplo o estranho caso da mulher que só enxerga quando muda de personalidade (acesse aqui a reportagem da BBC sobre esse caso).³

Segundo o DSM-5, a prevalência em 12 meses do transtorno dissociativo de identidade entre adultos em um estudo de uma pequena comunidade nos Estados Unidos foi de 1,5%.  Nesse estudo a prevalência por gêneros  foi de 1,4% para mulheres e 1,6% para homens.(4)

Já em outros estudos o transtorno predomina em mulheres. A média de 92% dos casos com idade média no diagnóstico de 31 anos e um número médio de 13 personalidades, sendo que 85% dos casos, uma das personalidades é de criança. Não é incomum as personalidades serem autodestrutivas, violentas, criminosas ou desinibidas sexualmente.²

A característica crucial do TDI é a presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos, que recorrentemente assumem o controle total do comportamento, o que ocorre o filme com nosso personagem. Vale lembrar que, deve ser descartadas comorbidades clínicas que justifiquem o quadro e o indivíduo não pode estar intoxicado com substâncias psicoativas. Isso não pode ser comprovar no filme, pois quando o pesonagem vai ao hospital o médico não realiza a investigação clínica; naquele momento a queixa era insônia. Portando, essa análise é baseada em uma suposição. Lembramos que o cinema é uma arte e toda arte pode ter diversas interpretações, deixe a sua aqui nos comentários! 

Conheça os critérios diagnósticos segundo o DSM-5 para o Transtorno Dissociativo de Identidade: 

 A. Ruptura da identidade caracterizada pela presença de dois ou mais estados de personalidade distintos, descrita em algumas culturas como uma experiência de possessão. A ruptura na identidade envolve descontinuidade acentuada no senso de si mesmo e de domínio das próprias ações, acompanhada por alterações relacionadas no afeto, no comportamento, na consciência, na memória, na percepção, na cognição e/ou no funcionamento sensório-motor. Esses sinais e sintomas podem ser observados por outros ou relatados pelo indivíduo.

B. Lacunas recorrentes na recordação de eventos cotidianos, informações pessoais importantes e/ou eventos traumáticos que são incompatíveis com o esquecimento comum.

C. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo e prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

D. A perturbação não é parte normal de uma prática religiosa ou cultural amplamente aceita. Nota: Em crianças, os sintomas não são mais bem explicados por amigos imaginários ou outros jogos de fantasia.

E. Os sintomas não são atribuíveis aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., apagões ou comportamento caótico durante intoxicação alcóolica) ou a outra condição médica (p. ex., convulsões parciais complexas). (4)

Como já relatei aqui, o personagem não fecha todos os critérios diagnósticos, pois não temos como argumentar sobre o critério E, porém, com relação aos outros critérios, conseguimos supor que se encaixe perfeitamente. Por isso sempre em análises de filmes levando em consideração a nosologia psiquiátrica, o TDI é citado para o Clube da Luta.

Finalizo aqui com as 8 regras do Clube da Luta:

  1. Você não fala sobre o Clube da Luta;
  2. Você não fala sobre o Clube da Luta;
  3. Somente duas pessoas por luta;
  4. Uma luta de cada vez;
  5. Sem camisa, sem sapatos;
  6. As lutas duram o tempo que for necessário;
  7. Quando alguém gritar “para!”, sinalizar ou desmaiar, a luta acaba;
  8. Se for a sua primeira noite no Fight Club, você tem que lutar!

Espero que tenham gostado da análise. Deixem nos comentários o que você achou do projeto e sugestões para os próximos #CinePsiquiatria.

  • CURIOSIDADE: Existe o Fight Club 2! Também conhecido como "Fight Club 2: The Tranquility Gambit" é a sequência em quadrinhos do romance Fight Club, de 1996, de Chuck Palahniuk. No Brasil você deve encontrar os quadrinhos, até o momento sem tradução para o português, em algumas livrarias virtuais. 

Esse foi o post CinePsiquiatria #1.  

Aguarde que nos próximos dias vai começar a votação para o CinePsiquiatria #2.

Referências Blibliográficas:

  1. MINERBO, Marion et al . O Clube da Luta: narcisismo, identificação e psicologia das massas. J. psicanal.,  São Paulo ,  v. 39, n. 70, p. 149-161, jun.  2006 .
  2. SANTOS, Mirian Pezzini dos et al. DISSOCIATIVE IDENTITY DISORDER (MULTIPLE PERSONALITIES): CASE REPORT AND STUDY. Revista Debates em Psiquiatria, [s.l.], v. 5, p.32-37, 1 abr. 2015. Associacao Brasileira de Psiquiatria. 
  3. O estranho caso da mulher que só enxerga quando muda de personalidade. BBC . Disponível em:<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160101_mulher_cegueira_personalidade_cc#share-tools >. Acesso em: 26 maio. 2018.
  4. Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.

 

Clique aqui para seguir o Dr. Eduardo Alcantara na Academia Médica e para acompanhar o projeto #CinePsiquiatria e os próximos artigos sobre psiquiatria. 

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Médico Residente (R3) em Psiquiatria. Formação em Dependência Química pela USP-SP. Estudioso do comportamento humano e suas implicâncias na sociedade. Idealizador do I Congresso Paranaense Acadêmico de Psiquiatria. Membro-Fundador do GERP.

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