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A medicina em cima do salto

A medicina em cima do salto

Por Érica Ermel

As mulheres já são maioria entre os estudantes de medicina no Brasil e em vários países do mundo. Desde 2009, o número de mulheres médicas que ingressam no mercado de trabalho brasileiro é superior ao dos médicos do sexo masculino. De acordo com o Censo da Educação Superior, na graduação elas já representam 55,1% do total de matriculados em Medicina e 58,8% entre concluintes do curso. A expectativa é de que essa diferença se acentue ainda mais nos próximos anos. Além disso, as mulheres ocupam cada vez mais posições de chefia e estão em todas as especialidades, mesmo naquelas tidas como tipicamente masculinas como as áreas cirúrgicas, ortopedia, proctologia, entre outras. Mas nem sempre foi assim, as primeiras mulheres a se aventurar na medicina precisaram lutar contra o preconceito e a hostilidade para ingressar nessa profissão, que antes era prerrogativa exclusiva de homens.

Na Idade Média, as mulheres que se envolviam com a prática – ainda rudimentar – da medicina, eram consideradas bruxas e levadas à fogueira para serem queimadas. No século XII, surgiram as primeiras universidades, que só admitiam estudantes do sexo masculino. Com exceção da Itália, onde as mulheres podiam exercer livremente a medicina, as representantes femininas que mais se aproximavam da prática naquela época eram as parteiras, ou algumas mulheres que aprendiam e exerciam a medicina de forma clandestina. Existem relatos de mulheres com grande habilidade cirúrgica que trabalhavam no anonimato ou se vestiam como homens e assumiam identidades masculinas para exercer a profissão.

Chama a atenção o caso de James Miranda Stuart Berry, nascido em 1790, doutor em Medicina pela University of Edinburgh, na Escócia, que trabalhou durante anos como cirurgião-médico e só após sua morte revelou-se que na realidade era uma mulher. Com o movimento feminista na Alemanha no século XIX muitas faculdades começaram a aceitar mulheres, mas essas profissionais eram menos valorizadas e recebiam menos que seus pares masculinos.

Acredita-se que a primeira mulher a receber o título de médica tenha sido a alemã Dorothea Christiane, graduada em 1754. Antes disso, por um espaço curto de tempo, as mulheres tinham permissão para praticar cirurgias em Paris, época em que os cirurgiões eram tidos como profissionais de prestígio notavelmente inferior em comparação aos médicos que praticavam a medicina interna.

A carioca Maria Augusta Generoso Estrella, nascida em 1861, foi a primeira brasileira e sul-americana a se formar em medicina. Na época, as mulheres eram proibidas de ingressar em faculdades no Brasil e, portanto, a brasileira foi aos 16 anos para os Estados Unidos fazer o curso. O caso da jovem teve grande repercussão na imprensa, e ela contou com o apoio do Imperador D. Pedro II para custear seus estudos quando sua família passou a ter dificuldades financeiras. Só em 19 de abril de 1879 o Império aprovou a Reforma Leôncio de Magalhães, que abriu as instituições de Ensino Superior às mulheres.

Gerty Theresa Cori, primeira ganhadora do Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1947.

A partir do século XX, houve uma progressiva emancipação da mulher, com a conquista de direitos sociais e de uma mentalidade mais voltada à ambição profissional e intelectual, em detrimento da antiga visão de submissão patriarcal de outrora. Diante dessa profunda mudança cultural, a mulher passa a se inserir no mercado de trabalho em praticamente todas as profissões, deixando o ambiente doméstico em busca de novos ideais e experiências. Nesse período, as mulheres passaram a se destacar cada vez mais como médicas e cientistas e temos a primeira ganhadora do prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia Gerty Theresa Cori, em 1947, seguida por várias outras.

Algumas características marcantes do universo feminino como uma sensibilidade mais desenvolvida podem ser extremamente benéficas no contato com o paciente e na formação de vínculo. Além disso, as mulheres possuem, em geral, uma facilidade maior de comunicação e de assumir múltiplas tarefas, o que pode ser muito vantajoso para o trabalho em equipes multidisciplinares, tão importantes na área da saúde. Mesmo que ainda encontrem certa resistência para ingressar em determinadas áreas, as mulheres têm mostrado plena capacidade e habilidade na prática da medicina, trabalhando tanto quanto os homens sem deixar de ser mulheres, esposas e mães, e, como diz o velho clichê, sem descer do salto.

Academia Médica
Fernando Carbonieri
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Inovação é sua forma de exercer a medicina. Em 2012 criou a Academia Médica, comunidade dedicada a "FALAR O QUE A FACULDADE ESQUECEU CONTAR". Membro Comissão do Médico Jovem do CFM, especialista em Bioética

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