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"A Morte de Ivan Ilitch" na formação médica

Embora o título nos faça pensar que o tema gira em torno da morte do personagem, na verdade, o autor nos faz refletir sobre a vida do protagonista. Ou será sobre a nossa?

Só pra avisar...

Ao longo deste texto será inevitável citar passagens do conto, então, sim, haverá spoilers. Entretanto, já sabemos que o personagem morre e não haverá nenhuma reviravolta nisso. A questão é bem mais profunda, não se trata apenas de introdução, clímax e desfecho, mas do que aprendemos ao longo de todo o processo. E isso, caro leitor, mesmo que eu fizesse a melhor resenha, jamais se equipararia à sua própria experiência em ler a obra.

Ainda assim, você pode seguir sem medo, pois o que ressalto aqui está longe de esgotar os diversos ângulos pelos quais a história pode ser interpretada. Tem mais a ver com a minha percepção do que com alguma análise literária propriamente dita. Já que temos falado tanto de humanidades médicas e do seu papel na formação de médicos mais humanizados, sendo você ou não da área de saúde, "A Morte de Ivan Ilitch" tem muito a ensinar sobre o significado da vida, das diversas dimensões da doença, e muito mais.

Contextualizando

Sempre acho importante conhecer um pouquinho do autor e do contexto histórico e social em que está inserido, pois isso dá uma ideia do que esperar das obras e do tipo de mensagem que ele quer passar.

Liev Tolstói (1828-1910) foi de uma família aristocrática russa do século XIX e em algumas de suas obras, como é o caso de "A Morte de Ivan Ilitch" (1884), descreveu o modus operandi hipócrita da alta sociedade russa, à qual pertencia [1, 2]. O autor descreve com propriedade a história de Ivan Ilitch e as mazelas no entorno de sua vida pessoal e profissional, visto que o contexto do protagonista, aparentemente, foi o mesmo de Tolstói. Até mesmo o casamento de Ilitch parece ter semelhanças como o do autor, tais como a frieza emocional e o desalinhamento de interesses com seus cônjuges [3].

A história de Ivan Ilitch foi escrita após uma crise moral de Tolstói e posterior conversão ao Cristianismo. Mas não pense que Tostói se enquadrava na visão tradicional de cristão que talvez você tenha. Muito ao contrário, ele foi considerado um anarco cristão, pois rompeu com a Igreja Ortodoxa Russa e adotou uma filosofia mais existencial e social do Cristianismo, desassociada da instituição religiosa [4, 5].

Esse desapego às instituições e a valorização dos elementos da filosofia cristã de Tolstói também emergem da narrativa. Fica claro no enredo que o autor busca gerar no leitor um incômodo frente às convenções sociais e institucionais vazias, dissimuladas e desprovidas de significado mais profundo e substancial.

A obra em si

De forma bastante resumida, o conto retrata a vida "bem sucedida" do magistrado russo Ivan Ilitch que, após um acidente doméstico, começa a sentir dores na parte inferior direita do abdome que vão piorando e cuja causa culmina na morte do personagem. Moribundo, Ivan faz uma reavaliação da sua vida, das suas escolhas, das suas relações e percebe a fragilidade e insignificância da existência humana [6].

Estamos falando de um meio social em que as pessoas se referem umas às outras por nome e sobrenome. Os "bem nascidos" são o tempo todo referenciados com seus nomes de família, enquanto que criados ou pessoas mais humildes apenas pelo primeiro nome. Nesse metiê, as relações se baseiam em interesses (financeiros, principalmente) e as aparências são mais valorizadas que os afetos, a amizade real e a empatia.

Apesar de ter acesso aos médicos mais famosos, nenhum deles pareceu de fato se importar sobre como Ivan se sentia. Na verdade, nem mesmo seus familiares e amigos passaram a ele alguma impressão diferente da que ele estava incomodando, com exceção de seu filho e de seu empregado camponês Gerassim (inocência e humildade, respectivamente?).

O que podemos aprender com Ivan Ilitch?

Essa é uma pergunta difícil, porque as lições me parecem muitas. No entanto, vou escolher apenas um aspecto para explorar: por que fazemos o que fazemos? Mais ainda, no caso de quem é médico formado ou acadêmico, por que queremos ser médicos?

"A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis."

Assim começa o segundo capítulo do livro [7]. 

Um pouco controverso pensar que um magistrado, de classe alta, bem casado, boa casa e bom salário poderia ter uma vida medíocre. Mas mesmo Ivan conclui que muito de tudo isso não foi alcançado por razões sinceras, mas porque suprimiu suas inclinações, suas lutas pessoais, seus anseios de mudança, em função do (achava) que a sociedade esperava dele.

1. Qual a sua motivação em ser médico?

Tornar-se médico (substitua essa palavra pelo que você quiser e adapte para a sua realidade) pode ser bastante atraente e socialmente louvável, isso é inegável, mas a influência parental e os louros sociais não estarão com você no dia a dia da profissão. Especialmente agora, quando as tecnologias estão tornando os diagnósticos e procedimentos mais precisos e rápidos, ser médico requer mais do que os longos anos de formação acadêmica, requer investir em adquirir outras competências, como a empatia, e compreender as múltiplas dimensões da doença ou, melhor, do que se entende por saúde.

Que tipo de médico você quer ser?

2. A relação médico-paciente

Por diversas vezes, Ivan manifesta a sua preocupação com seu estado de saúde, querendo saber a gravidade, as possibilidades de prognóstico, como seria sua vida a partir dali e, em uma posição de arrogância e superioridade, o médico famoso estava mais preocupado com o diagnóstico do que com sua compaixão em relação à dor do paciente. Isso fica muito claro no trecho:

"Para Ivan Ilitch só importava saber uma coisa: o seu caso era sério ou não era? Mas o médico ignorou essa pergunta tão fora de propósito. [...] Não era uma questão de Ivan Ilitch viver ou morrer, mas de decidir se era rim ou apêndice."

Tudo o que Ivan buscava era, no mínimo, um pouco de interesse por parte do médico, mais do que apenas um diagnóstico. Ironicamente, Ivan também se deu conta de que ele mesmo, em sua posição dentro do Tribunal, colocava-se em posição semelhante à do médico, cheio de formalidades e ares de superioridade e pragmatismo em relação aos que dependiam de suas decisões. 

Essa relação médico-paciente deturpada, e claramente alfinetada, ganha certo protagonismo no texto. O interessante é que você pode sentar na cadeira do médico ou do paciente e tentar se perguntar como você age e como agem com você quando os papeis se invertem. Afinal, mesmo os médicos também são pacientes, eventualmente.

Se fosse a sua mãe ou a pessoa que mais ama nesta vida sentada ali como paciente, como você a trataria?

3. A escolha da especialidade

A competitividade na carreira médica é estimulada antes mesmo de entrarmos na faculdade, durante o preparo para o vestibular. Isso perdura mesmo depois de formado e, mais do que nunca, quando vêm as provas de residência. Para além da dificuldade no processo em si, vem a dúvida quanto à especialidade. Neste momento, entram outras variáveis como o status da especialidade, o retorno financeiro, a afinidade pela área, o tipo de paciente, dentre outras coisas. Não há resposta certa ou errada para as nossas motivações em escolher uma especialidade. Cada um pondera esses fatores conforme sua história de vida e seus valores.

Será que a pergunta que ressoa lá no fundo é "Que escolha me fará parecer ter vencido a competição?"? "Parecer"? Para quem? No final das contas, nossa competição é com nós mesmos. Jogar o jogo da expectativa alheia é nada mais que tentar vencer um torneio entre medíocres. Não há mérito em se esforçar somente para ser aceito por um grupo, pois fazer parte dele apenas prova que você é só mais um. Le Bon e Freud que o digam [8, 9]. Uma possível pergunta, dentre tantas, seria: 

O que faz sentido pra você?

4. É preciso olhar pra dentro de si

Não se pode ignorar um ponto fundamental trazido pelo autor na época e que, neste momento, tem sido o horror de muitos: encarar a dor existencial. São bastante frequentes as passagens do texto que mostram a fuga de Ivan em relação à sua queixa, às reflexões sobre a essência de sua existência, sobre as decisões que havia tomado ao longo da vida, especialmente quando a morte parece ser algo tão palpável.

"[...] mas o tempo todo havia aquela sensação de que colocara de lado alguma coisa [...] para a qual voltaria assim que terminasse o que estava fazendo. Quando terminou, lembrou que esse assunto pessoal era seu apêndice. [...] Tentou voltar a antigos pensamentos que no passado o haviam protegido contra a idéia da morte. [...] Mas estava tudo bem, desde que ele não pensasse nela. Ela [a dor] não estava ali.''

Tais indagações e constatações talvez estivessem ali todo o tempo, mas era melhor negá-las sob a desculpa dos muitos afazeres cotidianos, dos encontros sociais, das obrigações do trabalho. Porém, assim como ocorreu com Ivan Ilitch, em algum momento a dor não se contenta mais em apenas doer eventualmente, torna-se insuportável, não é mais possível negligenciá-la, é preciso encará-la para que desse processo surjam os questionamentos saudáveis.

Está evitando encarar alguma dor e apenas se deixando levar?

5. Fazer o bem ao outro nos cura

A agonia de Ivan cessa quando ele tem um "momento de iluminação" em seus instantes finais. Não fica claro de que se trata a "coisa certa" a ser feita, mas subentende-se que Ilitch para de sofrer quando para de olhar para si mesmo, para a sua dor, e passa a olhar para o outro, para a angústia e o sofrimento que ele estava causando em sua família, mais especificamente em seu filho.

Por mais humana que a medicina devesse ser, ao longo de nossa formação o caminho é tão longo e extenuante que, muitas vezes, nos perdemos no processo. Esquecemos que o objetivo final é cuidar, é o paciente, é o outro. Ficamos tão preocupados em curar a doença que nos esquecemos do vínculo com o doente. Aliás, essas blindagens emocionais que aprendemos a criar, na verdade, nos faz esquecer de nós mesmos, de nossa humanidade. Um conceito interessante que aprendi com o psiquiatra Abram Eksterman é [10]: 

“Uma das racionalizações mais frequentes que muitos médicos lançam mão para justificar seu distanciamento emocional é justamente porque creem que o interessar-se pelos aspectos emocionais de seus pacientes pode levá-los a um envolvimento prejudicial. É precisamente o contrário que ocorre.”

Como você enxerga esse outro diante de si?

Considerações finais

Não se sabe ao certo qual o diagnóstico de Ivan Ilitch. Suspeita-se que tenha sido câncer, devido à longa duração e ao definhamento do personagem. Fato é que o diagnóstico em si é irrelevante sob o ponto de vista das reflexões trazidas pela breve biografia de Ivan e do que eu quis abordar aqui.

Um conto é basicamente uma narrativa curta. Não sei se esse foi o propósito do autor, mas narrar uma vida em tão poucas páginas se alinha com a perspectiva do salmista Davi, na tradição judaico-cristã, que compara a vida humana a um conto ligeiro. Ou à constatação do sábio Salomão ao ver, já idoso, que tudo na vida não passa de vaidades [11]. E não precisa ter qualquer credo religioso para levar em consideração tais essas reflexões. Tome esses personagens bíblicos como filósofos, se assim desejar.

"Por que fazer o que faço?", "Quais os reais motivos das minhas escolhas de vida?", "Será que estou seguindo apenas um script do que a sociedade espera de mim?", "Como está a saúde das minhas relações?", "Será que são honestas ou apenas baseadas em hipocrisias e superficialidades?". Esses foram alguns dos questionamentos que vieram à tona quando terminei o livro.

Quais seriam os seus?

 


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Referências

1. ROBINSON, Harlow. Six Centuries of Tolstoy. The New York Times, section 7, page 3, November 6, 1983.

2. TROYAT, Henri. Tolstoy. Grove Press, 2001.

3. JACOBY, Susan. The Wife of the Genius. The New York Times, section 7, page 11, April 19, 1981.

4. YEGOROV, Semion Filippovitch. Leo Tolstoy. education (Paris, UNESCO: International Bureau of Education), v. 24, n. 3/4, p. 647-60, 1994.

5. TOLSTOY, Leo. On life and essays on religion. Read Books, 2007.

6. ALVES, Paulo Cesar. “A Morte de Ivan Ilitch” e as múltiplas dimensões da doença. Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, p. 381-388, 2018.

7. TOLSTOI, Lev. morte de Ivan Ilitch, A. Editora 34, 2006.

8. LE BON, Gustave. Psicologia das Massas (1895). Lisboa: Esquilo, 2005.

9. FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. São Paulo: L&PM Pocket, 2013.

10. EKSTERMAN, Abram. Relação médico-paciente na observação clínica. In: Palestra apresentada ao XV Congresso Panamericano de Gastroenterologia [Internet]. Rio de Janeiro. 1977.

11. BÍBLIA, A. T. Salmos. In BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida, 2006. 

 

Academia Médica
Felipe Dalvi
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Engenheiro biomédico, doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Sou colunista do Alpha Squad e entusiasta da visão integrada entre mente e corpo.

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