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A medicina, a geração e a faculdade

A medicina, a geração e a faculdade

Há algum tempo me perturba a quantidade de acadêmicos de medicina em sofrimento enquanto deveriam estar na dita "melhor fase de suas vidas". Nunca esqueço quando o professor Gama, de oncologia, falou durante a aula:

"Vocês estão deixando de viver a melhor fase da vida de vocês em prol da preparação para um futuro de ajuda aos seus pacientes"

No último ano, chegaram a mim algumas notícias de suicídio entre acadêmicos de todo o Brasil e os questionamentos sobre os porques que estamos vivendo uma crise existencial tão grande não param de vir a minha cabeça.

A nossa ineficácia não está apenas na forma de entregar educação de qualidade. Está também na forma de medir qualidade de ensino, na incapacidade de prover acolhimento e atenção às demandas dos estudantes e professores (estes também se veem sem possibilidades), na impossibilidade de medir as estatísticas quanto a tentativas e fatalidades oriundas do suicídio.

Temos que mudar essa nossa  incapacidade de evoluir com as novas demandas do estudante e na forma de prover o ensino. Ainda vomitamos informações, pedindo para que eles decorem e repitam. Não somos capazes de ensinar o como se aprende e nem temos essa capacidade de mostrar que o profissional que o futuro precisa é aquele que tem a capacidade de aprender por si, desaprender o que já foi verdade e reaprender/criar conceitos que perdurarão até o próximo entendimento da ciência.

Há pouco tempo estive no Simpósio de Metodologias Ativas de Ensino da PUCPR e pude ouvir o professor Thomas Rottroff (Heinrich Heine Universität Düsseldorf). Na ocasião, ele foi informado que nas escolas médicas brasileiras temos períodos/fases com mais de 700 horas curriculares. Sua reação foi tragicômica ao questionar:

Quando os seus alunos têm tempo para aprender?

O vídeo abaixo é de conhecimento de muitos, mas vale a pena vê-lo e revê-lo para refletir sobre o nosso papel como emissores de conhecimento. Além disso vale a pena repensar sobre a forma do ensino que estamos acostumados a fornecer em nossas escolas médicas. Será que as 9.000 horas letivas ainda são necessárias?

Não trago isso apenas como uma revolta sobre os sistemas de ensino. Trago pela certeza de que algo está errado. Também não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto (Suicídio entre estudantes de medicina- isso não é normal). Resolvi falar sobre isso novamente após ser confrontado com as mensagens compartilhadas por diversos alunos e residentes membros da comunidade Academia Médica de todo o Brasil, que as compartilho aqui:

 

 

Realmente o sofrimento não deve ser normal para ninguém, em nenhuma instituição. Alguns desses problemas, ao meu ver, são transformações das dificuldades cotidianas em um componente nocivo, e acabam por somar de forma negativa a uma mente já perturbada pelo sofrimento. 

Temos que abrir espaço para a discussão dos modelos de ensino. Sabe-se que o PBL não é melhor que o ensino tradicional. A metodologia ativa mostra grandes avanços, mas muitas vezes esses acadêmicos aprendem sem a sensibilidade que apenas à beira do leito nos dá.

Por último temos uma arte que está cada vez mais mecanizada e distorcida pelo que se diz ser "Medicina Baseada em Evidência. O Humanismo, base de nossa profissão, foi deixado de lado ao mesmo passo que temos arautos da humanização da medicina. Pela nossa própria humanidade, muitos de nós não suportam mais a rigidez feudal de um sistema que todos sabemos ser falho, porém aparentemente imutável.

Sinto em frustrá-los pela falta de uma conclusão para esse texto, mas o fiz no sentido de promover a discussão e gostaria da colaboração de todos nos comentários ou na forma de um texto para esta comunidade, para melhorarmos um pouquinho a luz que damos ao sofrimento do acadêmico de medicina, do médico em treinamento e do profissional em atividade.

Conto com vocês. Caso desejem mandar seus textos com suas reflexões, sintam-se a vontade para criá-lo clicando no botão laranja com um "+", alí em cima. Todos os nossos textos passam por uma curadoria e editoração do time Academia Médica para que você tenha sempre o melhor conteúdo produzido por pares, para você.

 

 

Academia Médica
Fernando Carbonieri
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Inovação é sua forma de exercer a medicina. Em 2012 criou a Academia Médica, comunidade dedicada a "FALAR O QUE A FACULDADE ESQUECEU CONTAR". Membro Comissão do Médico Jovem do CFM, especialista em Bioética

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