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Adesão Ao Tratamento De Doenças Crônicas

Adesão Ao Tratamento De Doenças Crônicas

Doenças crônicas, ou seja, que exigem acompanhamento potencialmente para a vida toda, trazem consigo questões para além da doença em si. O fator tempo aumenta o risco de abandono do tratamento nessas situações, um problema complexo e altamente danoso para o indivíduo, seu círculo familiar e todo o sistema de saúde e proteção de uma sociedade.

A análise desse fenômeno pode ser chamada de “adesão ao tratamento” (termo que usaremos), “compliance do paciente” ou “aderência ao tratamento”. Em importante publicação de 2003¹, a Organização Mundial de Saúde apresentou exaustiva revisão de estudos publicados a respeito de nove condições crônicas e fatores de risco: asma, câncer (cuidado paliativo), depressão, diabetes, epilepsia, HIV/AIDS, hipertensão, tabagismo e tuberculose. E qual o tamanho do problema?

Bom, metade dos pacientes que sofrem de doenças crônicas não segue o tratamento. Na Gâmbia, 73% dos pacientes com hipertensão não seguem o regime de anti-hipertensivos (e se nos EUA o percentual é melhor, está longe de ser bom: 49% são não aderentes). Na Austrália, o problema atinge 57% dos pacientes com asma.

Em condições complexas como o diabetes, a situação mostra o quanto diagnosticar e prescrever corretamente é apenas parte de um bom trabalho. Em estudo escocês de 2002² entre pacientes com diabetes tipo 2, a adesão ao tratamento entre aqueles com prescrição de sulfonilureia ou metformina era menor que 35%.

Pacientes com prescrição para ambas as medicações atingiram apenas 13% de adesão! Sofrimento evitável ocorre em consequência disso, com estudos na Europa e nos EUA apontando a baixa adesão ao tratamento como a principal causa no desenvolvimento de complicações do diabetes.  

Fatores que Afetam a Adesão Ao Tratamento

Existem vários fatores interagindo nesses cenários, alguns deles antes mesmo do diagnóstico. Custos do tratamento, idade, grau de instrução, crenças, etc. Todos trazem também a questão ética ao clínico, que precisa ter em mente o que significa um diagnóstico de doença crônica na vida da pessoa que está na sua frente. A OMS classificou cinco categorias de barreiras para a adesão ao tratamento:

  • Profissionais e Sistema de Saúde (p. ex. uma relação pobre entre o paciente e seu médico)
  • Barreiras Socioeconômicas (p. ex. alto custo da medicação)
  • Condição do Paciente (p. ex. severidade dos sintomas, disponibilidade de tratamentos efetivos)
  • Tratamento (p. ex. tempo para percepção dos efeitos benéficos, efeitos colaterais)
  • Paciente (p. ex. estigma da condição, compreensão inadequada do tratamento)

Analisando-as, é possível perceber que existem várias frentes de batalha. Não cabe a esse texto exaurir todas as possibilidades, inclusive porque este é um tema ao qual voltaremos. Um dos principais problemas reside na relação do paciente com os profissionais de saúde, em especial o médico. É nesta relação que ocorre a interface entre a ciência e a vida do paciente, na apresentação do diagnóstico, do prognóstico e dos caminhos que se abrem e se fecham a cada decisão tomada.

Em pacientes não hospitalizados, a relação do paciente com sua condição é, no limite, solitária, e pode se desdobrar nos mais diversos comportamentos. É fundamental que ele se sinta seguro e confiante em ancorar sua conduta e sua tomada de decisão nas informações recebidas (e discutidas) com seu médico.

A Decisão Solitária

Assim, se falaremos de forma mais detalhada sobre as barreiras ao tratamento em outros textos, cabe aqui ressaltar a fundamental característica da doença crônica: a manutenção, monitorização e gestão do autocuidado são conceitos-chave para que o paciente tenha qualidade de vida.

Entretanto, esses conceitos são influenciados por fatores ainda pouco observados pelos profissionais de saúde em relação a sua importância: a individualidade da experiência, habilidades, motivação, cultura, confiança, hábitos, cognição, suporte social e acesso a cuidados³.

O acompanhamento desses aspectos, de forma aberta e sem julgamentos, oferecendo suporte e informação, pode ser a diferença entre uma vida saudável e complicações graves ou mesmo fatais. Se você recebeu um diagnóstico e, em uma autoanálise sincera, entende que precisa de ajuda para aderir ao tratamento proposto, procure ajuda especializada.

 


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Referências:

¹Evidence for action (World Health Organization. Adherence to long-term therapies: evidence for action (PDF). Geneva: World Health Organisation, 2003) 

²Adherence to prescribed oral hypoglyacaemic medication in a population of patients with Type 2 diabetes: a retrospective cohort study (Donnan PT, MacDonald TM, Morris AD . Adherence to prescribed oral hypoglyacaemic medication in a population of patients with Type 2 diabetes: a retrospective cohort study. 2002. Diabetic Medicine. 19 (4): 279–84) 

³A middle-range theory of self-care of chronic illness (Riegel, Barbara; Jaarsma, Tiny; Strömberg, Anna (2012). A Middle-Range Theory of Self-Care of Chronic Illness. Advances in Nursing Science. 2002. 35 (3): 194–204.)

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thiago sant'anna da silva
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