A prevalência de alergias alimentares vem crescendo e, entre crianças, a alergia ao amendoim se destaca por ser frequente, associada a reações graves e pouco propensa a remissão. Após o estudo LEAP (2015) demonstrar redução de 81% no desenvolvimento de alergia ao amendoim em lactentes de alto risco quando alimentos com amendoim foram introduzidos até 11 meses, recomendações a partir de 2017 passaram a incentivar a introdução precoce do amendoim (EPI) durante a fase inicial de alimentação complementar. Apesar disso, a adesão permanece aquém do esperado: um levantamento nacional nos EUA (2021) indicou que menos de 1 em 5 pais ofereceu amendoim antes de 7 meses e menos de 3 em 5 até 12 meses. Diante dessa lacuna, este estudo qualitativo investigou, por entrevistas, como pais compreendem a introdução precoce do amendoim, quais crenças orientam decisões e que barreiras interferem na prática, considerando também a introdução de sólidos, história familiar de alergia e presença de eczema/dermatite atópica.
Para lactentes com eczema grave, alergia a ovo ou ambos, a orientação é introduzir alimentos com amendoim entre 4 e 6 meses, com forte consideração de avaliação prévia com IgE específica ou teste cutâneo. Para eczema leve a moderado, a introdução é sugerida em torno de 6 meses. Para lactentes sem eczema ou alergia alimentar, a introdução pode ocorrer livremente com outros sólidos, respeitando preferências familiares e práticas culturais. As diretrizes destacam que outros sólidos devem vir antes para confirmar prontidão do desenvolvimento e sugerem, como referência, consumo semanal total de proteína de amendoim de aproximadamente 6 a 7 g em três ou mais ofertas. Um consenso adicional recomenda introduzir amendoim e ovo por volta de 6 meses (não antes de 4), não exige triagem prévia e enfatiza uma dieta complementar diversa, mas não define dose e sugere manter a prática por vários anos.
Nas entrevistas, a maioria dos pais descreveu a introdução precoce do amendoim como uma ideia positiva e “que faz sentido”, e a mudança em relação a orientações antigas de evitar amendoim não foi um entrave relevante, exceto para famílias com filhos maiores. As barreiras mais frequentes foram práticas e emocionais: dificuldade para escolher um produto adequado de amendoim para o bebê, necessidade de planejamento e, principalmente, medo de reações alérgicas graves — fator que tanto leva ao adiamento quanto atrasa o início mesmo entre quem decide seguir a recomendação. O estudo aponta que reduzir essa hesitação depende de orientações concretas sobre risco real de reações, sinais de alerta e como responder, além de estratégias simples sugeridas pelos próprios pais, como iniciar quando o bebê estiver saudável e começar com pequenas quantidades. Também é discutida a possibilidade de primeira oferta com suporte do pediatra, presencialmente ou via telemedicina, especialmente para lactentes de maior risco e para famílias que buscam mais segurança.
Um achado crítico é a baixa compreensão do papel da dermatite atópica como principal fator de risco para alergias alimentares: muitos pais não reconheciam essa relação, independentemente de a criança ter dermatite atópica. O texto defende que mensagens de saúde pública devem conectar mais claramente manejo deta condição e introdução precoce do amendoim, reforçando que, para lactentes com dermatite atópica moderada a grave, a introdução mais precoce deve ser conduzida com avaliação prévia, conforme recomendado.
Parte dos pais entende a prática como forma de “descobrir” precocemente uma alergia, quando a finalidade central é prevenir seu surgimento. Persistem dúvidas sobre quando começar, com que frequência oferecer, qual quantidade usar e por quanto tempo manter o amendoim na dieta. A variabilidade entre recomendações e a pouca clareza sobre manutenção do consumo ao longo de meses/anos contribuem para a interrupção precoce e para padrões inconsistentes de oferta.
Por fim, o fator mais associado à implementação bem-sucedida foi orientação clara do pediatra. O texto reconhece que o tempo limitado de consultas dificulta explicações detalhadas e defende suporte aos profissionais com materiais complementares para famílias (folhas de orientação, vídeos e conteúdo online) para tornar a recomendação mais acionável.
Referência:
Samady W, Jibrell H, Malik SW, Herbert LJ, Rolling C, Gupta R. Parental Understanding and Implementation of Early Peanut Introduction. JAMA Netw Open. 2025;8(12):e2550915. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.50915

