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Novas mudanças no USMLE: Tudo o que você precisa saber

Novas mudanças no USMLE: Tudo o que você precisa saber

A pontuação da prova mais importante para atuar como médico nos Estados Unidos vai mudar. Descubra aqui como isso afeta o candidato brasileiro a uma vaga de residência no país.

Quem realiza o (longo) processo de provas para ser admitido em um programa de residência médica nos EUA e, consequentemente, poder exercer a medicina por lá já está familiarizado com os termos “Step 1”, “Step 2” e “Step 3”. Tratam-se dos “passos” do USMLE (United States Medical Licensing Examination), que representam diferentes exames, teóricos e práticos, e servem como base, dentre outros fatores, para classificar os candidatos às vagas de residência.

Uma mudança anunciada no início de fevereiro, no entanto, abalou a calma de muitos candidatos, sobretudo internacionais (os chamados “IMGs” - International Medical Graduates). O “Step 1”, prova cuja nota até então representava o principal fator de corte e classificação para os programas, deixará de ter um score de três dígitos, como vem tendo até hoje, e passará a ser avaliado como pass/fail (aprovado/reprovado).

 

Qual o motivo da alteração?

Segundo os comunicados oficiais, o objetivo da mudança seria o de atenuar um pouco o peso que a prova representa, melhorando o bem-estar do estudante de medicina. Além disso, o primeiro “step” é versado sobre a aplicação clínica das ciências básicas, cobrando portanto os conteúdos dos primeiros anos da faculdade. Os alunos americanos normalmente fazem a prova ao final do segundo dos quatro anos que têm os cursos médicos nos EUA. Assim, o USMLE alega que a mudança direcionará o currículo das escolas médicas para o foco certo, evitando os "currículos paralelos" que os alunos acabam tendo que fazer pra se preparar para o exame.

Outras mudanças no processo como um todo incluem uma redução do número máximo de tentativas, que passou de 6 para 4; e a nova regra de que o “Step 2 Clinical Skills”, única prova prática, passará a requerer que o candidato tenha já sido aprovado no Step 1 antes de realizar esta outra. Todas as mudanças anunciadas serão postas em prática só a partir de janeiro de 2022

 

O que isso muda para os candidatos?

Para quem está nos últimos anos da faculdade e fará a candidatura para a residência antes de 2022, não muda absolutamente nada. Para quem se forma depois da data, no entanto, resta uma área cinza quanto a como a nova forma de avaliar o Step 1 vai influenciar na maneira pela qual os diretores dos programas selecionarão os candidatos e os convocarão para as entrevistas.

Na verdade, vai levar um tempo também pra que os próprios “program directors” pensem nos novos parâmetros de avaliação e novos fatores de corte pra considerar cada candidatura. Por isso, os doutores David Flick, Dustyn Williams e Sahil Mehta, médicos coordenadores de conhecidos programas de tutoria online para alunos, se reuniram em um webinar para discutir o assunto.

O principal consenso entre os apresentadores foi algo já profetizado por todos os participantes do processo desde que foi anunciada a mudança: o “Step 2 Clinical Knowledge”, única prova que continuará provida de um score numérico, representará a nova métrica de maior importância e fator de corte. Isso põe um pouco em cheque a justificativa apresentada para a mudança, no sentido de que a tensão sobre os estudantes, que antes era dividida em duas provas e portanto duas chances de “mostrar seu valor”, agora recairá acumulada sobre apenas um exame, que além de tudo é comumente realizado durante os anos finais da faculdade, nos quais o aluno tem menos tempo disponível e o currículo é menos flexível por conta dos estágios do internato.

 

Mas e para quem fez o Step 1 antes de 2022 e se candidatará ao “Match” após a mudança?

O site do USMLE indica que ainda não foi decidido se o score numérico destes candidatos será ou não convertido para a classificação pass/fail. A opinião dos especialistas é de que “se houver ainda um score, ele será ainda considerado (pela seleção)”.

 

E o que essa mudança representa para o candidato brasileiro?

Muitos defenderam que o novo scoring seria “o fim do IMG”, já que o Step 1 representava uma chance para que os formados no exterior mostrassem seu valor através de notas chamativas e maiores que as dos concorrentes americanos. Sem as notas numéricas, isso não seria mais possível. David Flick, Dustyn Williams e Sahil Mehta, porém, reforçaram o fato de que os IMGs são necessários pra preencher as vagas da residência, já que todo ano o número de vagas ofertadas é maior que a quantidade de médicos que se formam nos EUA, e que a novidade agora é que o diferencial terá de ser mostrado através dos outros parâmetros.

 

Dicas e considerações finais para o candidato formado no Brasil

  • Para os IMGs que resolveram prestar os Steps um tempo depois de já terem se formado no Brasil, realizar o Step 3 antes de fazer candidatura (exame clínico que normalmente é realizado apenas durante a residência) pode ser um diferencial. Evidentemente, isso só é uma boa ideia para quem já têm experiência clínica suficiente.
  • Para quem fará o processo após a mudança, investir tempo e recursos em ter uma boa nota no Step 2 CK é a nova ideia, já que a prova vai gradualmente ganhar o protagonismo.
  • Além do Step 2, outros fatores ganharão mais peso na candidatura, dentre os quais a realização de pesquisa e publicações na área que você tem interesse em seguir, além da realização de bons estágios clínicos nos EUA (também na área).
  • As famosas cartas de recomendação continuam sendo importantes, mas basicamente todo candidato forte tem boas cartas, sendo assim necessário buscar suprir o diferencial com outros fatores.

Por fim, é importante ressaltar que o processo tende a valorizar cada vez mais o fator humano. A ideia do USMLE é gradualmente eliminar todos os scores numéricos, para que os candidatos sejam avaliados por seu currículo de forma cada vez mais abrangente. É claro que ainda são importantes avaliações quantitativas, sobretudo para que os programas possam ter um parâmetro “de corte”, mas é sempre melhor ter em seu time alguém que saiba levar bem o programa de residência e tenha obtido um 240 que um despreparado que conseguiu 250 por ter acertado um ou outro teste a mais. Esta é a nova ideia.

 


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Victor Bellanda
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Estudante de Medicina da Universidade de São Paulo, atualmente em intercâmbio na Università di Bologna, Itália. Entusiasta da medicina baseada em evidência, da cultura internacional e de um risotto bem feito.

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