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Ciência Brasileira Expõe Caminho para Vencer a Dengue

Ciência Brasileira Expõe Caminho para Vencer a Dengue
Comunidade Academia Médica
set. 16 - 4 min de leitura
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A dengue deixou de ser um problema sazonal para se tornar uma crise sanitária global. Só em 2024, o Brasil enfrentou 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6.300 mortes, no pior surto da história do país. Diante desse cenário, a ciência brasileira aposta em duas frentes complementares para conter a doença: mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia e uma nova vacina de dose única produzida pelo Instituto Butantan.

O desafio crescente da dengue

O Aedes aegypti, vetor da dengue, da zika e da chikungunya, prospera em áreas urbanas e está cada vez mais adaptado às mudanças climáticas e ao ambiente construído. Além do Brasil, países como Argentina, Colômbia e Peru também registraram surtos recordes em 2024. Globalmente, 3,9 bilhões de pessoas estão em risco de infecção, e o número de mortes em 2024 foi o maior já registrado, mais de 12 mil.

Fonte: Nature, 2025.

Vacina de produção nacional: autonomia e eficácia

A principal vacina em uso no mundo, Qdenga, da farmacêutica Takeda, foi incorporada ao SUS, mas enfrenta limitações: preço elevado (US$ 19 por dose), baixa disponibilidade (máximo de 50 milhões de doses até 2028) e eficácia incompleta para indivíduos nunca infectados.

Para superar essas barreiras, o Instituto Butantan desenvolveu uma vacina tetravalente de dose única, com produção local em São Paulo. O imunizante foi desenhado para gerar anticorpos contra os quatro sorotipos do vírus, reduzindo o risco de formas graves em infecções subsequentes.

Resultados preliminares de um ensaio clínico fase III com mais de 16.000 voluntários indicam 89% de eficácia em pessoas previamente infectadas e 74% em indivíduos sem exposição anterior. A aprovação pela Anvisa é aguardada, e o governo federal já anunciou planos para comprar 60 milhões de doses anuais a partir de 2026, garantindo autonomia para o país.

Mosquitos com Wolbachia: um exército biotecnológico

Paralelamente, o Brasil está ampliando a liberação de mosquitos Aedes aegypti infectados com Wolbachia, uma bactéria que reduz sua capacidade de transmitir o vírus. Essa estratégia, desenvolvida pela World Mosquito Program e liderada no Brasil pelo pesquisador Luciano Moreira, mostrou resultados expressivos:

  • 69% de redução de casos em Niterói (dados de 2021)

  • 89% de queda em casos prováveis após novas liberações entre 2022 e 2023

Em 2022, a Anvisa aprovou oficialmente o método como estratégia de saúde pública. Para sustentar a escala, foi inaugurada em Curitiba a maior biofábrica de mosquitos do mundo, com capacidade de produzir 100 milhões de ovos por semana, protegendo até 14 milhões de brasileiros por ano.

Evidência robusta

Um estudo randomizado em Yogyakarta, Indonésia, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a introdução de Wolbachia reduziu em 77% os casos sintomáticos confirmados de dengue. O Brasil está conduzindo seu próprio ensaio clínico randomizado, que poderá embasar uma recomendação formal da OMS, abrindo caminho para adoção global.

A estratégia combinada: vacina + Wolbachia

Especialistas da Organização Mundial da Saúde defendem uma abordagem integrada: vacinação em massa associada ao controle vetorial biológico. Essa combinação oferece proteção de curto prazo (redução imediata da transmissão) e de longo prazo (imunidade populacional).

A experiência brasileira pode se tornar um modelo para o mundo, mostrando que ciência local, produção nacional e inovação em saúde pública são ferramentas poderosas contra epidemias.


Referência:

Pinto, L. (2025, September 16). How billions of hacked mosquitoes and a vaccine could beat the deadly dengue virus. Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-025-02918-8


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