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Consolado por um padre

Consolado por um padre

-Secretaria Municipal de Saúde, boa noite, meu nome é Leonardo, com quem eu falo?

-Boa noite, aqui é o padre Alberto*.

-E no que eu posso ajudar o senhor padre?

-Bem, eu estou com febre há uns 3 dias. Hoje ela está mais baixa. Eu tive também dor de cabeça, dores pelo corpo... Hoje acordei melhor, mas gostaria de saber assim quais as orientações, se precisa de algum isolamento, pelo trabalho que eu faço né.

-Certo, eu vou perguntar alguns dados para o senhor para que eu possa registrar seu atendimento e logo conversamos sobre sua queixa, certo?

-Tudo bem.

Pergunto os dados de identificação na ordem que aos poucos vai ficando gravada em minha memória. Olho o relógio. Quase 18h30. Perto desse horário, no dia anterior, eu estava conversando com Hortência* (escrevi sobre ela aqui na história “Hortência e a ligação”). Lembro do momento em que ela chorou. Lembro de quando desliguei o telefone e questionei internamente o que eu estava fazendo. Estamos vivendo um momento único. Momento de mudanças, de dúvidas e incertezas. Termino de pegar os dados. Faço um resumo da história contada.

-Certo padre. Vou pedir para o senhor permanecer na linha então. A ligação vai ficar muda, pois vou conversar com a equipe médica, mas logo volto para te orientar.

-Tudo bem meu filho.

Ligação muda. Ergo a mão para sinalizar para a equipe médica meu chamado. Olho ao meu redor e vejo todos os telefones ocupados e os médicos realizando os respectivos atendimentos. As ligações de hoje já superaram as de ontem. Olho para a janela e vejo pessoas passeando na rua. Fico triste.

-Padre?

-Sim meu filho.

-Os médicos que nos dão o suporte estão todos atendendo, mas logo eles vêm aqui para ver o caso do senhor. Vou pedir pro senhor esperar só mais um pouquinho.

-Não se preocupe meu filho. Tenho todo o tempo do mundo para vocês que fazem esse trabalho tão importante.

Ligação muda. Por um momento esqueço as pessoas que estavam na rua e penso apenas no senhor que me escuta do outro lado da linha. Sua paciência, tranquilidade e calma no jeito de falar mexem comigo. Não entendo o motivo, mas sinto que precisava receber essa ligação. A médica vem ao meu lado. Converso com ela sobre o caso. Tomo notas das orientações a serem dadas.

-Padre?

-Sim meu filho.

-Bom, eu estava conversando com a médica aqui e o caso do senhor ainda está no início. Porém, ele se comporta como a maioria dos casos suspeitos do coronavírus e por isso a gente precisa tomar alguns cuidados, como forma de proteger o senhor e as demais pessoas.

Explico sobre o comportamento da febre e o surgimento dos outros sintomas, as medidas de precaução, a importância do isolamento respiratório, as medidas de higiene necessárias...

-Padre, o isolamento é muito importante. Eu sei o quanto isso é difícil. Especialmente pra gente que trabalha de forma direta com as pessoas. O senhor aí na paróquia com os seus afazeres, eu com os meus pacientes... Sei como a falta desse contato direto com o outro mexe com a gente. Mas, nesse momento a gente precisa fazer esse esforço para que possamos passar por isso o quanto antes.

-Sim meu filho. É difícil né. Mas, é algo necessário como você disse. E olha, como foi bom ligar aí. Eu já tinha outra visão, outro entendimento. Você me esclareceu muito. Muito obrigado mesmo!

-Padre, eu que agradeço pelo senhor ter ligado. E estamos à disposição para qualquer dúvida que surgir.

-Muito obrigado mesmo meu filho! Eu vou fazer tudo o que você me orientou bem certinho. Ficar em isolamento pelos 14 dias. Posso fazer uma última pergunta?

-Claro padre.

Penso que ele vai me questionar algo acerca dos sintomas.

-Como é seu nome mesmo?

-Leonardo.

-E eu posso colocar seu nome nas minhas intenções?

Sua pergunta toca minha alma e mexe em meu coração. Sua pergunta realizada de forma paciente e humana me acolhe. Sua pergunta me leva de volta para o momento em que no dia anterior me questionei sobre o que eu estava fazendo.

-Ah, padre... pode sim!

-Então eu vou rezar por você. E por todos os que estão atuando nesse momento. Eu não posso fazer muita coisa né. Mas, eu posso rezar por vocês. E vocês fazem a parte de vocês aí. Vocês estão realizando um trabalho muito bonito. Nós vamos passar por isso!

Nesse momento não sou mais o profissional, mas apenas o menino que um dia viu na medicina uma forma de ajudar o próximo. Sou apenas eu. Em minha versão humana.

-Padre, muito obrigado mesmo! Conversar com o senhor foi um renovo para minha alma. E eu agradeço muito por o senhor ter ligado.

Nos despedimos. Desligo o telefone. Olho para a janela e lembro da frase de Madre Teresa:

“Não podemos fazer grandes coisas no mundo. O que podemos fazer são pequenas coisas com amor.”

*Por questões éticas os nomes utilizados não correspondem aos personagens reais. 

 


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Leonardo Cardoso
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Sou acadêmico de medicina, cursando o 9º período pelas Faculdades Pequeno Príncipe. Sonho com uma Saúde mais humanizada, equitativa e de qualidade, além de gostar muito de ler e escrever.

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