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Cultura corporativa: entre o funcionário eficiente, o colaborador explorado.

Cultura corporativa: entre o funcionário eficiente, o colaborador explorado.

Cultura corporativa são os aspectos que regem os hábitos, regras e convívio no ambiente de trabalho.

Uma cultura corporativa adequada às necessidades do funcionário hoje é tão importante que é notório que nossa geração às vezes prefere ganhar menos (com condições dignas de vida) com mais qualidade no ambiente de trabalho, que trabalhar horrores para ganhar bem e pensar na aposentadoria.

E isso não é necessariamente feito para o bem-estar funcionário. Sinto muito, mas nesse caso você não é muito especial.

O que acontece é que funcionários motivados, dispostos, um bom ambiente e ainda com um trabalho que a pessoa interpreta como significado de vida, rende mais, dá um marketing positivo para a empresa e, consequentemente, lucro.

Também alguém descobriu que um bom ambiente diminui a chance de adoecimento, logo diminui afastamento e incapacitações.

É fácil? Não, por isso a medicina do trabalho e a qualidade de vida tem pós-graduação.

É honesto?  Às vezes não, aliás até revela um contraste social em que o executivo tem sala de massagem e carga horaria móvel e o médico na primeira insatisfação ou o faxineiro com o primeiro sinal de hérnia de disco é demitido ou compelido a se demitir.

É frescura? Depende, o uso de uma cultura corporativa adequada não é dar “novidade de shopping” em troca de um ambiente ruim com metas absurdas. É a busca da adequação do trabalho com as necessidades de conforto do funcionário para maior rendimento.

Então é só dar equipamento de ergonomia aula de yoga, mindfullnes e mandar a pessoa parar de fumar? Depende, se você aplicar numa empresa que todo mundo é tratado mal e ainda ninguém fuma, isso é desperdício de dinheiro e uma piada de mau gosto com a cara do “colaborador”.

Quando vemos o ambiente de trabalho em saúde nos encontramos em uma situação paradoxal, tendo em vista que o profissional da saúde é treinado para identificar e corrigir, porém muitos encontram dificuldade de encontrar um serviço com uma cultura corporativa adequada.

Tanto que maioria dos colaboradores da saúde tem mais de 2 serviços de trabalho e em alguns serviços com a rotatividade alta.

Dica ao recém formado: Se em um grupo de plantão você vir que há muita oferta de vaga de plantão ou ambulância em um lugar por muito tempo, desconfie das condições de trabalho, não custa perguntar aos colegas as condições daquele serviço.

Qualquer tipo de serviço de saúde está propenso a um salário insustentável com o curriculum, a cargas de horário exaustivas, trabalho com falta de ergonomia, castração da autonomia e ainda um certo sentimento de permissividade na operacionalização de seus “colaboradores” que adoece os colaboradores.

Dizer sobre cultura corporativa em saúde não parece, porém é um assunto extremamente espinhoso no meio.

Primeiro porque nossa cultura sindical é polêmica: tem entidade que defende um contrato de trabalho da CLT, rígido com todas as “proteções” ao funcionário e tem entidade que defende autonomia plena dando mais “liberdade” de horário, porém o deixa à mercê de boicote e desamparo em intempéries como afastamentos por doença e incapacidade.

E essa falta de consenso prejudica ao colaborador que não tem para onde ir e ao mesmo tempo não tem proteção trabalhista alguma. Até hoje lembro da história do médico que foi esfaqueado no ambiente de trabalho e o hospital mandou a conta para ele depois. (está na lei que o empregador deve garantir a segurança de seu funcionário)

Segundo: como já disse no meu artigo sobre a indústria 4.0 na saúde e o motivo de eu ter desistido da residência, mudar paradigma no trabalho da saúde é praticamente questionar um status quo e o ego de alguns incompetentes.

Terceiro: O trabalho na saúde não parece, mas tem muitos riscos ocupacionais, que acrescentar ou alterar cultura corporativa não se torna lucrativo pelo ponto de vista de gente muito ignorante.

E um motivo talvez polêmico seja a falta de verdade dos dados sobre a cultura corporativa adequada.

É fácil mostrar massagem, serviço médico com neurocirurgião a um funcionário de escalão médio e ao mesmo tempo usar uma fábrica que a segurança do trabalho é questionável em alguns países pobres.

Colocar máquina de refrigerante grátis, vídeo game com TV de 75", mas paga muito mal, metas que você não teria tempo de usufruir de nada e um chefe que odeia trabalhar.

É bem mais complexo e tem um debate ético muito grande sobre isso.

O detalhe que o processo de trabalho do trabalhador da saúde passou por mudanças. A prevalência do nome “instituição” no lugar do “indivíduo” na saúde.

Hoje você não passa com “um médico famoso com uma equipe de saúde de cuidado integral”, você passa com “um médico famoso com uma equipe de saúde de cuidado integral DE UMA INSTITUIÇÃO OU CONVÊNIO OU GRITA 'VIVA O SUS'”

A facilidade de acesso à saúde e o aumento de formados, a atuação dos sindicatos e autarquias aumentou a oferta de serviço e logo tornou o médico, o enfermeiro, o fisioterapeuta e afins uma mão de obra de fácil substituição.

Seria até bom se houvesse mão de obra de qualidade e boa remuneração, mas infelizmente não é o que se vê. Principalmente em pandemia.

Aqueles velhos bordões que você só houve de chefe folgado:

“Não gostou vai para a rua, se você for médico melhor ainda porque te contratei sem ser CLT”

“Está achando ruim? Faz o seu próprio”

Existe algo de errado nisso? Em teoria não, isso se chama mercado.

Tanto que tem serviços de saúde tentando mudar esse branding pelos motivos acima e de bônus uma marca positiva.

O funcionário motivado é muito mais eficiente e lucrativo que o “colaborador” explorado até a última gota.

E estranhamente vendo relatos de colegas e serviços que passei muitos ainda não oferecem incentivos, bônus de desempenho, horários de repouso, pausa de trabalho e alguns nem almoço decente oferecem.

E juro que já vi PS que não oferecia nem lençol para o repouso dos médicos porque disseram que não existe “hotelaria”.

Tem lugares, sim que trabalham com metas em cima dos médicos, bônus, recompensas e incentivos para manter o ambiente de saúde impecável.

Porém, vi poucos serviços que oferecem ou estão dispostos a mudar isso lamentavelmente.

Espero que principalmente a pandemia ajude os "gestores" a enxergar que uma cultura corporativa adequada na saúde e parar de adoecer os médicos de forma mais rápida.

Mas a necessidade do médico do trabalho na empresa e a falta de um tratamento adequado aos funcionários comento em próximos artigos.

 


Academia Médica
Henri Hajime Sato
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Sou médico formado em uma faculdade que não gosto, passei pela pós USP, por Barretos e falhei. Não tenho grandes títulos, mestrados doutorados, livre docência, cargos ou Fellowships. Sou um andarilho que de vez em quando fala algumas coisas.

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