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Demissão da residência: A hora de jogar a toalha.

Demissão da residência: A hora de jogar a toalha.
Henri Hajime Sato
set. 1 - 26 min de leitura
010

Disclaimer: Este post contém temas delicados como automutilação, suicídio e spoiler da série Rocky.

Jogar a toalha não é uma decisão fácil no boxe, como visto na série Rocky e recentemente na série Creed, um dos maiores arrependimentos do Rocky mesmo vencendo o Ivan Drago, foi nunca ter jogado a toalha na hora certa para ter salvo a vida do amigo/rival Apollo Creed. 

E como visto em Creed II, Ivan Drago preferiu jogar a toalha porque o amor que ele tinha pelo filho valia muito mais que uma honra vazia que ele pensava que era tudo na vida.

Existem alguns sinais de que você deve desistir da residência e elas se resumem a algumas perguntas:

  • Estou aprendendo ou tocando serviço?
  • Gosto do que eu faço?
  • Aqui tem estrutura de aprendizado condizente com as  minhas necessidades, da medicina e da sociedade?
  • Estou aqui por que é bom ou por que é um serviço grande?
  • Eu sou feliz naquilo que eu faço?

Bem, se isso não te ajuda ou ainda deixa alguma dúvida, vou contar a história de porque eu desisti da residência.

Como todo médico formado, em um senso de curiosidade em me aprofundar na medicina e mais algumas desilusões amorosas que reforçaram o fato que sou melhor estudante que um romântico, resolvi fazer residência e evoluir academicamente. 

Nem era pelo dinheiro, já tinha boas oportunidades com ambulatório e medicina do trabalho em empregos muito mais tranquilos que o inferno que é pronto socorro ou até mesmo trabalhar em alguns tipos de unidade de saúde da família. 

Comprei o tal "sonho da residência médica" que os cursinhos vendem a torto e a direito aos recém-formados inocentes e resolvi ralar com um cursinho a distância com uma proposta de aulas pontuais e a hora que eu quiser.

Era mais barato porque antes já fiz um que me fez gastar mais de mil reais por mês em um cursinho de horas que a aula é um telão sem interatividade, gastar com gasolina e estacionamento, cruzando a cidade de SP uma vez por semana não era uma coisa que eu tinha paciência.

O mesmo vale para alguns cursos a distância que as apostilas eram uma porrada de livros teóricos sem fim com aulas on-line maçantes e que seriam boas até para a prática clínica, mas que para cursinho era muito prolixo.

Espero que tenham mudado porque fiz isso em 2017-2019. 

De objetivo inicial tive a mesma linha de pensamento que a maioria dos médicos, acabar a residência, trabalhar em um serviço grande que em teoria teria mais autonomia com nome e talvez até mesmo continuar com o meu conhecimento a mais e complementar aquilo que eu já atuava.

E principalmente escolheria uma residência que o foco era aprender e não ficar tocando serviço como mão de obra barata. 

Resolvi escolher a patologia. Talvez por um senso meu de querer me proteger dos aspectos ruins das relações humanas ao mesmo tempo que afinaria meu senso diagnóstico e não acharia que fosse tocação de serviço.

Uma crítica a quem defende modelo de tocação de serviço: se você acha um modelo desumano e que torna o residente operário de hospital em troca de um RQE é um modelo educacional válido em pleno 2021, não venha reclamar na internet que “a medicina anda desvalorizada”, você provavelmente é uma das causas. 

Ser patologista para mim era aprimorar o conhecimento clínico de como entender a doença. Se a doença era uma arte, a patologia era a perícia do artista (pensava assim).

Um grupo de médicos que tinham um pensamento diferente do que via na faculdade, intelectualizados e sapientes. 

Tentei uma vez em um serviço e não passei porque achei que não sairia bem e comi bola no edital, teria feito em um serviço que eu sempre cobiçava pela fama de ser o melhor centro de oncologia do país( e explico depois porque foi bom não ter ocorrido) e no ano seguinte com a mesma nota com a minha família me estimulando(me acordando e puxando pela gola) para acompanhar o edital passei em um serviço longe de casa, mas que era referência internacional na área. 

Me pegou de surpresa e felicidade, um hospital grande que tinha fama nacional de tratar bem os pacientes na minha mente seria o melhor lugar do país para aprender patologia com acolhimento e pedagogia. 

Eu não vou deixar de fazer um mea culpa: tinha questões mais antigas que somente a residência que o ambiente claramente piorou o quadro psicopatológico, sou extremamente teimoso e como podem observar tenho uma soberba de me sentir único e também pedir batendo o pé o que eu via como uma educação acolhedora e de qualidade.

Porém, acho que a situação dita "boa" termina aqui. No primeiro momento já era imposto que os residentes deveriam ir uniformizados(camisa social de cor certa, calça social preta ou branca e sapato, briguei para usar sapatênis pois ficava com os pés cheios de bolhas e ainda tenho entorse de calcanhar com 3 tendões rompidos). 

Para alguns médicos parece normal ser aquele estilo capa de revista com avental de serviço chique, mas acho que colocar uniforme em médicos além de usar o jaleco quando não EPI, era pseudomilitarizar de forma desnecessária o equipamento de proteção individual. 

Isso sem contar muitas vezes a perda de individualidade de uma profissão de alto uso intelectual que tem que pensar muito antes de fazer é um motivo para que ela entre em descrédito. 

Querem me tratar como militar, me pagassem o soldo de médico oficial militar do exército(que é bem maior que uma bolsa de residente), autonomia que esse cargo permitia, aposentadoria especial e porte de arma. 

E temos aquela máxima:  “Se todo mundo pensa igual, ninguém está pensando.” 

No início a residência médica do setor de patologia não parecia ruim, até ouvi de um R+ "olha, nós residentes somos muito unidos" ou seja, pareciam ser uma grande família. 

A chefe dos residentes da época era dura, mas simpática(gosto dela  e recomendo paciente até hoje) os R+ tinham os mais sérios e os mais tranquilos sempre dispostos a ajudar. 

E todo mundo sempre sai de vez em quando para amenizar a vida em uma cidade do interior de São Paulo. 

Brincávamos entre nós, fazíamos piadinhas e até pegadinha ao estilo The office para ver como era um ambiente divertido. 

Trouxe uma cadeira de massagem que estava encalhada em casa, enchemos a dispensa com doces, café de alta qualidade, bolo caseiro e refrigerantes para aguentar com cargas de açúcar e cafeína uma rotina dura, mas que ao mesmo tempo até que era divertida. 

Em um certo momento no meu ver tudo começou a mudar com fatores que alguns R+ disseram que começaram antes de eu entrar e foram piorados com a pandemia. 

O primeiro fator foi a piora do ambiente de trabalho.

Por exemplo, havia uma política bem pesada de não poder postar em redes sociais momentos de alegria no setor como um aniversário ou confraternização. Tudo em nome de “evitar vazamento de dados e preservar o hospital”.

Acho até válido, visto que em mundo corporativo alguns têm essa política bem pesada devido ao conceito de inteligência empresarial com preservação de dados, mas acho que com atitude de bom senso, mostrar o lado positivo como se importar com o próximo e humanizar o funcionário como comemorar um aniversário é até bom ao branding da empresa. 

E como todo serviço de saúde do mundo, o Covid começou a exacerbar deficiências e até mesmo o verdadeiro caráter de muitos ali presentes.

Os R1 como eu com 2 meses sem saber o mínimo de patologia estávamos em casa, porque todos estavam confusos com o distanciamento social de uma doença contagiosa por secreções e nova no mundo, encontros entre residentes foram abolidos já que o estado de São Paulo entrou em um “lockdown”(apesar de fofocas dizerem que alguns se reuniam escondidos).

E no máximo tivemos aulas por plataformas on-line que, como a maioria dos encontros médicos por esses meios, na minha opinião, eram sacais e ainda por cima havia uma qualidade de som e uma pedagogia que era fácil dormir, acordar, responder e dormir novamente.

E como no Brasil “quando se pega o cônjuge traindo no sofá, para resolver a pessoa joga o sofá fora” ao invés de pensarem em técnicas novas de ensino, pensavam em colocar câmera ligada com lista de presença.

Até mesmo professores sumiram porque estavam em casa cuidando dos filhos ou porque como algumas fofocas diziam, preferiam laudar que ficar aguentando residente. 

Ficamos quase 2 meses com todo mundo perdido, afinal pandemia na era da Internet era novidade e com desafios que como vistos acima foram muito mal lidados. 

Poderíamos ser convocados a atuar na linha de frente da pandemia a qualquer momento, ou seja, vivíamos mesmo que inconscientemente um estado de tensão perante a uma crise mundial.

Os residentes da patologia como em teoria não havia compatibilidade com o atendimento ao Covid e com o medo de defasar o serviço (Covid esta ai, mas câncer não tira férias) estavam em um ponto de incertezas e no meio de uma briga entre os “preceptores” por motivos que não sabia e até hoje não entendi direito.

O serviço de svo foi suspenso, somente com o ritmo de peças cirúrgicas para análise e biópsia caíram drasticamente, mas continuavam em um nível alto e como alguns chefes disseram “como tem menos peças para analisar vocês têm que entregar laudo e checar antes de 48h”.

Alguns preceptores entraram em home office, revezavam horários ao entrar no hospital, ou aplicavam o distanciamento social ao máximo(justificável) ou foram realocados em outros setores com distanciamento social em escala.

Como se isso não fosse um problema (ou uma oportunidade de aprendizado mais focado) o setor começou a ter hábitos típicos do chamado ambiente tóxico:

  • Panelinhas de patologistas e residentes.

  • Brigas mal resolvidas por escalas e serviços.

  • Residentes cobrando um ensino melhor batendo de frente com os preceptores.

  • O clima claro de um certo assédio moral por todos os lados.

  • A revelação do que há de pior nas pessoas, isso inclui a mim e a minha personalidade difícil e rebelde.

  • Pequenos defeitos outrora suportáveis viraram motivo de briga e discussão. 

  • E ameaças como "tá achando fácil ou tá reclamando que tem dia cheio? Depois da pandemia vai piorar, aguarde". 

Eu até fiz a célebre frase do Jacquin no pesadelo na cozinha quando um restaurante de baixa qualidade dizia que "o principal ingrediente é o amor”:

Cadê o amor aqui? 

Teve um dia que eu disse que o ambiente de lá estava péssimo sob vários aspectos qualitativos e um R+ com a carteirada na mão para defender a chefia já perguntava quem eu era para dizer "o que é bom ou ruim a um ambiente de trabalho?" 

Respondi:"Henri Sato, pós-graduando em med do trabalho pela USP, e o senhor?" 

Para ver o nível que vigorava o início de um assédio moral que viria a piorar à medida que as semanas passavam. 

Nesse mesmo período começaram a rolar aquelas famosas fofocas de escritório, nada foi feito para melhorar o ambiente e ao meu ver até piorou. 

Os residentes da patologia foram convocados para ajudarem sob obrigação a comunicar-se com os acompanhantes via telefone  no covidário (visto tudo isso acima não me perguntem como conseguiam uma boa comunicação)

Era todo mundo contra todo mundo. 

Tinha tabela de qual residente tinha caso atrasado comparado entre eles sem nenhum parâmetro que tipo de peça era, quantidade e nem dificuldade, quantos entregavam no dia para todo mundo ver. 

É lógico que o que fazia tudo certinho e ficasse no topo de casos em dia ganhava o incrível prêmio de incentivo de absolutamente nada.

Trabalhei em uma empresa de venda de telemarketing em medicina do trabalho, pelo menos lá os primeiros lugares ganham uma viagem, eletrodomésticos, etc.

Eu dizia minha experiência e quando reclamavam de rank eu respondia ao estilo Dr. House: "Já que eu não ganhar uma viagem a Cancún ou uma air fryer, eu ganho pontos se eu fingir que me importo?"

Um dos pontos mais absurdos ao meu ver foi um patologista que deu uma bandeja de lâmina na mesa da chefe dos residentes e disse que não iria ver minhas lâminas "porque não confiava em mim nas macroscopias", que é o preparo da peça cirúrgica para ser avaliado em lâminas (detalhe: em 45 dias passando com ele, esse autointitulado “preceptor” nunca se queixou de nada). 

Me senti constrangido pela chefe dos residentes por quem tinha muito carinho e totalmente humilhado por ter errado por semanas e ninguém ter me avisado. E de acordo com parentes meus que são advogados isso pode ser até caracterizado como assédio moral.

E entre os funcionários rolava temor de perder emprego, de que R+ ia ser babá de alguns R- por ter macroscopia errada (R+ NÃO É PRECEPTOR E NÃO TEM CAPACITAÇÃO PARA TAL)

Tinha um preceptor que aplicava 2 pesos e 2 medidas com os amiguinhos residentes. Se era meu amigo poderia fazer o que quiser, se você não fosse do meu clubinho, poderia tomar até advertência. 

Por exemplo: com o distanciamento social eu acabava terminando peças mais cedo e chegava mais tarde, pois os horários em teoria estavam mais flexíveis, tomei bronca por atraso. Até aí seria compreensível se por acaso uma R+ tivesse chegado depois na nossa frente e o preceptor disse exatamente o que seria justo e correto de acordo com um R3: nada, passou pano.

Todos achando que o ensino dos R1 estava atrasado, que uma parte dos R1 (incluindo eu) estavam muito a desejar, mas esquecendo que tudo foi desfavorecido pela pandemia. 

Obs: no caso eram 3 residentes de 5, ou seja 60%, de acordo com um amigo meu professor universitário com mestrado em educação e psicologia, isso é mais institucional que incompetência de aluno

Uma situação tão absurda que parece até fanfic para alguns, porém acredita quem quer.

Eu já estava me sentindo mal quando tomei bronca de um R+ com razão, pois fiz um laudo errado, mas fiquei chateado e nervoso porque disse que iria falar comigo às 6:30 da manhã e ele apareceu atrasado uma hora depois. 

Mas algo estranho aconteceu comigo, comecei a  ficar depressivo, todo julgamento eu achava um ataque pessoal, me envolvia em brigas com R= e R+ por motivos que até mesmo não ligava antes, o trabalho parou de ser divertido, comecei a me cortar e o pior comecei a ter prazer nisso como uma punição devidamente aplicada.

Eu acordava de manhã,  me olhava no espelho chorando e dizia “o que diabos tô fazendo com a minha vida?” 

Um trabalho divertido que era relativamente tranquilo começou a ficar insuportável, começou haver atrasos meus e erros de comunicação.

Noutra situação com erro de comunicação acabei tendo que fazer uma aula complexa em pouco tempo, pedi mais uns dias porque era um caso parecido com o que aconteceu com o meu padrasto e eu queria estudar.

O preceptor mandou um R2 fazer e os R+ foram tirar satisfação comigo. E não foi do estilo "nós te entendemos e podemos ajudar''

Acabei me cortando com a navalha limpa da macroscopia, tinha ideação suicida de querer “acabar com esse sofrimento de ser um residente ruim”, me sentia punido e ao mesmo tempo aliviado. 

Era agressivo com linguagem, jogando na cara de residente e preceptor que faziam esses tipos de coisas porque eram inseguros, não sabiam lidar com a gente, racionalizam e ainda por cima brigavam porque ninguém era honesto de verdade com ninguém.

O que preceptor e médico sem noção chama de "frescura" e que qualquer livro de psiquiatria básica e esse mesmo médico sem noção que aparece em rede social e nas mídias de "Síndrome de burnout".

O coreme ficou extremamente preocupado, fui encaminhado ao psiquiatra, pois já tinha suspeita de ter uma psicopatologia (aliás muito comum entre residentes, só que ninguém diz  ou parece ligar a cada estatística preocupante que é publicada) e minha medicação foi ajustada. 

Eles foram legais e agradeço a eles. Não ouço relatos de algum residente que o coreme intervenha. Já vi relatos de 2020 que residente psiquiatria havia cometido suicídio

E como médico sabemos que, na esmagadora maioria dos casos, suicidas deixam rastro e se você não acha um absurdo um ser humano que comete suicídio, bem, acho que você deveria repensar sua carreira de médico.

A filosofia da panelinha se estendeu aos residentes, como disse acima o R+ "NÓS residentes somos muito unidos", eles eram unidos. 

Tão unidos que só saiam entre eles e um dos 5 R= meus porque eu e os outros éramos meio indesejáveis ou porque simplesmente o nível estava tão ruim de relacionamento que acabavam se fechando no próprio mundo. 

Tinha um preceptor que me mandava calar a boca e batia palma para me expulsar da sala. Atos dignos de alguém com mestrado ou curso de preceptor? Não sei, esse preceptor não tinha mestrado e nem curso de preceptoria e foi o mesmo que passou pano. 

E aí veio o motivo número 2 de ter pedido demissão:

Meu padrasto, aquele que gosto como um parente, me ajudou minha vida toda mesmo não tendo laço sanguíneo nenhum, teve a recidiva de um linfoma grave e fiquei em cima do muro acompanhando. 

O legal que os residentes descobriram e me deram tapinha  nas costas com "sinto muito", mas na hora de me chamar para sair, tomar cerveja e ouvir o desabafo de alguém que estava muito triste, peraí…  você não é nosso amigo nesse nível. 

E como disse, entre escolher quem a gente ama e nossa carreira, eu escolho o mais sensato, o primeiro. 

E o fator número 3:

Após isso, e o clima horrível que estava lá, eu resolvi tentar transferência para São Paulo e havia dito isso publicamente por causa do clima e de casa. 

Chorava na sala dos residentes, histericamente porque me sentia um fracassado, sentia que ninguém gostava de mim de verdade e que no final estava com um monte de pessoas agressivas e cruéis. 

Uma boa parte concordou com meus sentimentos de transferência, mas aparentemente não por amor ou empatia, uma residente mesmo disse "Se não tá gostando cai fora, ninguém gosta de gente infeliz". 

Outro disse: "Acha que lá fora vai ser melhor? Pode ir, é mais competitivo."

Nem piada podia fazer mais porque eu ouvi após rebater uma:

"escuta, quem é você para dizer esse tipo de piada? Você não é nosso amigo". 

Lembro bem daquele dia porque tentei cometer suicídio e falhei por motivos que até hoje não sei. (Não entrarei em detalhes para adequação do guia da OMS de como noticiar sobre o assunto)

Um amigo meu de fora, um médico paliativista(experiente com o assunto) que eu contei caçou o contato da chefe, que me mandou ao psiquiatra e me deram 45 dias de afastamento. 

Ela e o segundo em responsabilidade aos residentes ficaram muito preocupados, me ligavam todos os dias e perguntavam como eu estava, sou grato a eles e gosto deles demais.

Nesse meio período, ela e  30% dos patologistas não coniventes com essa guerrinha e ambiente horroroso de quase perseguição por parte de seus colegas pediram demissão. 

O novo chefe dos residentes, que por moral e obrigação é responsável por todos os residentes(inclusive os afastados) nem se apresentou a mim como tal, era a mesma que passou pano para o residente amiguinho,  parece que era conveniente no momento, o melhor era eu me demitir. Nem veio conversar comigo, dizendo que a vida continua e que iria me ajudar a me formar um bom médico. 

Empatia é uma mercadoria rara junto com a capacidade moral e intelectual de ser um médico e um preceptor.

E visto isso tudo essa talvez seja a decisão mais sensata e difícil a se fazer. 

Dizem que na medicina você nunca deve escolher entre a família e saúde mental em detrimento da carreira e fiz minha escolha.

Como eu teria aprendido em um ambiente tóxico com boa parte dos patologistas  de bom coração se demitindo justamente por acharem as intriguinhas insuportáveis? 

Decisões difíceis na medicina, às vezes, não se resumem aos pacientes, se resumem a nós mesmos, largar uma residência que era de nome, escolher cuidar de quem amamos e nos criou e priorizar a saúde mental é mais difícil do que se imagina. 

Queria que a maioria dos médicos pensassem assim, acho que muitos problemas médicos seriam resolvidos do que fingir "resiliência" para conseguir um RQE que detalhe (e eu disse isso a um patologista) eu ganharia bem mais como médico do trabalho(que não acabei a pós por ter ido a fazer a residência e não ter achado o tempo e saúde mental de entregar as pendências) ou generalista. Estava lá pelo conhecimento. 

Saber jogar a toalha é tão importante quanto saber lutar.

E quanto ao serviço que eu sonhava antes , eles tiveram um ano que não formou residente de patologia porque de acordo com o que dizem, um residente se demitiu, sobrou para o resto que não aguentou a carga, outros se demitiram até que a tocação de serviço era tanta em detrimento de aprender que o único que sobrou preferiu pedir as contas. 

Epílogo da minha residência :

Houve intervenção do ambiente, o médico da família, após meu afastamento(ele gostaria que fosse antes), tentou intervir com apoio da chefe e do segundo encarregado dos residentes com o coreme.

Pelo que me contaram a situação não melhorou.

Fizeram uma reunião após eu tentar suicídio, um R+ disse que teve uma reunião e teve Residente MÉDICO FORMADO que disse "um colega que se corta e tenta cometer suicídio, nós temíamos pela integridade nossa".

Sei que dá medo, assusta e já passei por isso na med do trabalho(mas essa é uma outra história) com um paciente, mas isso não é motivo para desprezo e tratar como um pária, mas dando a medicação e assistência correta é tudo normal. 

O médico da família interveio, disse:

"É uma pessoa que nem vocês, que passa por problemas que nem vocês e pedia ajuda até dele mesmo"

Depois daquele dia, fiz amizade com os demitidos, funcionários, alguns patologistas que ainda estão lá me apoiaram muito diziam que era muito triste o ocorrido(inclusive converso até hoje, discuto caso e recomendaria facilmente aos meus pacientes) e somente com um residente.

E até hoje sou grato demais ao coreme e até deixo o relato bem positivo deles para que outros serviços olhem os residentes em momentos de crise.

Enquanto ao setor : deixo a vocês questionar a capacidade moral e intelectual dos outros ditos escritores de capítulo de livro, preceptores, 4 steps, mestres e doutores.

Aprendi da pior maneira que médico com título, usa jaleco de serviço topo de linha, às vezes não significa que ele seja um profissional adequado e muito menos um ser humano decente.

Guardo mágoa do que aconteceu, é natural, tem alguns lá que eu prefiro pagar do meu bolso a revisão de anatomopatológico, porque se tratou um residente assim, imagino o que não faria com um paciente. Mas não significa que eu às vezes não me preocupe com eles, é meio complexo, mas eu penso assim.

Ganhei um conhecimento em patologia que me ajuda a resolver casos clínicos e fiquei com o jaleco grátis do serviço.

Hoje eu trabalho como generalista, gosto do que eu faço, ganho por hora até mais que muito chefe lá, ainda ganho incentivo, presente de páscoa e até mesmo autonomia de trabalho.

Penso em fazer residência de clínica médica, mas de forma diferente, fazer por fazer não leva a nada ao meu ver.

Fazer residência para ter RQE ou achar que vai fugir da bolha da medicina sendo especialista. Sinto muito, mas no final com esse pensamento vamos acabar virando subempregados nos EUA.

Eu gosto do que eu faço, procurarei um serviço que buscará atender às minhas necessidades como pessoa e aluno (já que escolher serviço grande como podemos ver não é sinal absoluto de qualidade), preparo financeiro e moral (já que residência hoje infelizmente é uma guerra e como diria sun tzu há mais de 3 mil anos, toda guerra exige isso).

 

Mas esses e outros assuntos vou deixar nas próximas sessões.


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