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8 características da digitalização que melhoram o ambiente de trabalho médico

8 características da digitalização que melhoram o ambiente de trabalho médico

O ambiente de trabalho gera impacto na empatia, no foco e no desempenho geral de um médico. 

Com a evolução da assistência médica para a medicina, sobretudo nos últimos dois anos, as instituições e clínicas estão percebendo que precisam adaptar seu ambiente de trabalho com base nas necessidades em constante mudança. São exemplos: criação de salas e espaços dedicados para telemedicina ou descanso dos funcionários e restabelecimento da sua saúde mental. Além disso,  existem algumas tecnologias que podem reduzir a carga dos médicos e ajudar a reduzir o estresse.

Neste artigo, escrevi sobre oito características da construção de um ambiente de trabalho que prioriza o bem-estar do profissional da saúde, bem como as  necessidades para prestação de um atendimento de qualidade para os pacientes. Confira!


1. Otimização do local de trabalho

Cuidar de pacientes não é apenas um trabalho, é uma missão. É por isso que você suporta longas horas extras no hospital, encargos administrativos de queimar neurônios e o longo caminho para ascender a um nível de trabalho mais flexível. Embora seja geralmente aceito que o ambiente de trabalho influencia significativamente o nível de satisfação no trabalho de uma pessoa, é ainda mais importante para os médicos.

Com a vida e a saúde humanas em jogo, o trabalho de um médico requer atenção, renovação e foco indivisíveis, a capacidade de tomar decisões rapidamente ou, inversamente, a capacidade de medir.

É por isso que é tão  importante otimizar o ambiente de trabalho onde os médicos passam uma média de 40–60 horas por semana. A tecnologia é uma grande aliada nesta missão, já que existem soluções digitais que vão da telemedicina à saúde móvel, inteligência artificial ou aplicativos que servem  para criar um ambiente de trabalho médico melhor e mais adequado aos tempos modernos.

2. Compreensão das necessidades dos pacientes

Hoje, a alfabetização digital e o uso de ferramentas digitais são inevitáveis.

No paper Consumer Use of “Dr Google”: A Survey on Health Information-Seeking Behaviors and Navigational Needs, LEE, Kenneth et al (2015) relata que aproximadamente metade da população de consumidores de informações de saúde baseadas na internet com condições crônicas de saúde se beneficiaria de apoio para encontrar esse tipo de informação.

Em outro artigo nomeado como Health Information Obtained From the Internet and Changes in Medical Decision Making: Questionnaire Development and Cross-Sectional Survey, CHEN, Yen-Yuan et al (2018) também sugere que os profissionais de saúde devem auxiliar na tomada de decisões médicas dos pacientes, iniciando o máximo de diálogo possível com os pacientes, fornecendo informações de saúde confiáveis e convincentes e orientando os pacientes sobre onde procurar informações de saúde on-line precisas, abrangentes e compreensíveis.

Em situações de emergência, um telefonema é uma escolha óbvia. Mas e se você agendar uma visita ao paciente por e-mail ou aplicativos de mensagens instantâneas, como WhatsApp ou Facebook Messenger? Certamente, não será possível e definir um diagnóstico por meio de mensagens e é essencial   considerar as regras fundamentais de privacidade de dados para realizar esta modalidade de atendimento.

Leia também: A Lei Geral da Proteção de Dados e os impactos na área da Saúde

No entanto, em alguns casos, os pacientes podem enviar gravações de áudio de suas tosses ou fotos sobre suas erupções cutâneas, e os médicos podem aconselhá-los se vale a pena fazer um exame e/ou uma visita. No futuro, (acredito que ainda faltam uns 10 anos), esta será a tarefa dos chatbots de saúde.

Saiba mais: A Saúde em 10 anos

3. Uso dos dispositivos digitais

A pandemia de COVID-19 destruiu barreiras que presumíamos uma duração de mais de 10 anos, forçando as instituições de saúde a recorrer a formas alternativas de prestação de cuidados de saúde, limitando a exposição ao vírus.

A telemedicina é a solução ideal para esses problemas, limitando o deslocamento de pacientes para hospitais, alocando capacidade hospitalar para casos importantes, ao mesmo tempo em que reduz a propagação da doença.

Além disso, você pode usar o poder da telemedicina para alcançar pacientes que moram em áreas remotas ou em casos em que a consulta não demoraria tanto que valeria a pena para o paciente ir ao consultório do médico ou para uma revisão médica.

Existem soluções de telemedicina que oferecem aos pacientes visitas e consultas de vídeo sob demanda. Antes da pandemia, os serviços de telemedicina eram embrionários. Agora, transformou-se em um bebê sem o cordão umbilical.

Incentivar pacientes com doenças crônicas a usar aplicativos ou dispositivos digitais de saúde para medição diária de sinais vitais, como pressão arterial ou glicose no sangue, também pode resultar em gerenciamento de casos mais fácil e menos carga de trabalho.

Como intensivista, percebo que o número de pacientes usando esses dispositivos e solicitando liberação para uso dos mesmos durante sua convalescença hospitalar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) está crescendo muito, inclusive em hospitais públicos. Enquanto o paciente também pode ver as leituras, elas são transmitidas ao médico que o acompanha. A vantagem? Não há necessidade de pacientes crônicos irem ao médico, a menos que os alertas os aconselhem a fazê-lo. Além disso, a maioria dos idosos se acostumou ao uso de wearables para gerenciamento de cuidados crônicos, com apenas 16% dos idosos afirmando que a tecnologia é uma barreira ao uso da telemedicina (Advisory Board, 2020).

4. Espaços hospitalares dedicados à telemedicina

 O uso de espaços hospitalares dedicados à telemedicina veio para ficar. Por mais que  muitos profissionais (e pacientes) queiram voltar à velha norma agora que a pandemia está prestes a acabar, o fato é que é improvável que isso aconteça. Podemos retroceder um pouco no curto prazo. Aproveitando os enormes benefícios da telemedicina, acabaremos nos acostumando com essa nova norma de atendimento.

Pois será melhor. Sejamos honestos, uma vez acostumados a uma conveniência, não queremos voltar a fazer algo que exija mais esforço.

Quando se trata de assistência médica, a telemedicina é exatamente isso – uma solução conveniente e eficaz que veio para ficar e afetará a forma como a assistência médica será fornecida no futuro. Mais barata, mais conveniente, prontamente acessível e compatível com as diretrizes de distanciamento social, a telemedicina cresceu e se tornou a primeira parada para serviços de cuidados primários e especializados entre muitos consumidores de saúde da geração X e mais jovens.

Portanto, já temos que considerar como incorporar as necessidades desse tipo de cuidado, na prática, e no design cotidiano. Se você já fez uma chamada de zoom em uma sala lotada, sabe porque as instalações de telemedicina em clínicas devem ser consideradas ao planejar ou alocar espaços para atendimento remoto em um hospital. Alocar espaço para os médicos cuidarem de pacientes remotamente dentro de uma instituição ajuda a preservar o bem-estar e a motivação dos médicos.

Um espaço de telemedicina pode atender a outras funções, como:

• Consulta presencial;

• Sala de exames;

• Sala de conferências.

Essas salas também são consideradas “soft rooms”, ou espaço que é menos caro para construir inicialmente e pode ser realocado mais facilmente para expansão e crescimento de espaço correlacionado de custo mais alto, como um departamento de imagem.

Um paciente também pode experimentar a telemedicina enquanto visita uma clínica pessoalmente. Por exemplo: uma sala de exames pode ser fornecida com monitores adicionais, câmera e microfone e pode precisar ser grande o suficiente para permitir a avaliação da marcha. A iluminação deve controlar o brilho e permitir a iluminação frontal direta para apoiar a criação de imagens com iluminação uniforme e reprodução da cor da pele reproduzida com precisão.

5. Gerenciamento da saúde mental

Mesmo antes da pandemia, a consciência de que priorizar a saúde mental é  indispensável para evitar o burnout e ter uma satisfação geral positiva no trabalho já existia.

Os médicos experimentam níveis mais altos de estresse devido à responsabilidade de lidar com pacientes e salvar vidas. No entanto, há alguns métodos que podem ajudar e que vale a pena incluir na rotina como: prática de alguma atividade física e reserva de  algum momento para si mesmo nos dias mais movimentados. 

Certamente, você já deve ter ouvido este conselho por diversas vezes e achado entediante, mas saiba que  ele  é incrivelmente útil.

Em seu trabalho intitulado como Intraoperative "Micro Breaks" With Targeted Stretching Enhance Surgeon Physical Function and Mental Focus: A Multicenter Cohort Study, Adrian Park descobriu fazer micropausas durante as cirurgias pode aumentar o foco e o desempenho físico dos cirurgiões.

Além disso, a tecnologia oferece soluções à mão para quem precisa  aliviar a ansiedade com sessões de respiração, limpar a mente e os pensamentos. São exemplos de aplicativos: Calm, Headspace e Insight Timer.

O aplicativo gamificado Working Stress (desenvolvido em inglês, com conteúdo de Clinical Trial do Psychiatric Research) é uma solução exclusiva para médicos e  fornece informações específicas sobre estresse, luto e esgotamento. O App explora o impacto psicológico e físico de situações estressantes e oferece estratégias de enfrentamento para aplicar imediatamente.

Para finalizar as indicações, eu não poderia esquecer do wearable Muse. Em sua segunda geração, o dispositivo  é caracterizado por uma faixa de cabeça com sensor cerebral que usa biofeedback em tempo real para ajudar quem está usando-a na reorientação durante o dia e recuperação no período noturno.

6. Redução da burocracia administrativa

Como regra para tudo no Brasil (e sem muita surpresa), é concebível imaginar que um médico gasta praticamente um plantão em horas por semana resolvendo problemas administrativos no seu trabalho.  Médicos em grandes consultórios, aqueles em consultórios pertencentes a um hospital e aqueles com incentivos financeiros para reduzir serviços costumam gastar mais tempo nas burocracias.

A Inteligência Artificial (IA) tem um alto potencial para mudar a situação. O algoritmo da IBM, o Medical Sieve,  é um ambicioso projeto exploratório para construir um “assistente cognitivo” de próxima geração com capacidades analíticas, de raciocínio e uma ampla gama de conhecimento clínico.

Na prática,  a iniciativa tem como filosofia desenvolver assistentes cognitivos e fazer uma modelagem sistemática do processo de interpretação do radiologista, reunindo múltiplas facetas da inteligência artificial, desde imagens multimodais e análises de texto, aprendizado profundo, conhecimento clínico e tecnologias de raciocínio clínico.

Os assistentes de voz também têm o potencial de liberar o tempo dos médicos gastos na burocracia administrativa. Empresas como Nuance e M*Modal já fornecem serviços de ditado baseados em software para médicos, uma espécie de Alexa, da Amazon.

A Notable lançou um assistente de voz vestível em 2018 destinado a ajudar os médicos a capturar dados durante as interações com os pacientes, automatizando as consultas e fluxo de trabalho com o paciente, da recepção ao back office.

Além disso, já existem versões inteligentes de dispositivos clínicos comuns, como termômetros, medidores de pressão arterial, dados eletrocardiográficos e balanças que registram automaticamente as leituras no prontuário do paciente, para que você não precise digitá-las. É o caso do Smart Apple Watch (já bem estabelecido no mercado) e da balança Amazfit Smart Scale, da Zepp Health, que integra com os relógios inteligentes com diversos dados de saúde analisados e conectados com seus dados de movimentação diária, estabelecendo suas metas e estratégias de melhorias na saúde.

7. Cuidado com a hipocondria digital

Como médicos, lidamos com um excessivo número de hipocondríacos no dia a dia. Desse modo, a facilitação digital para esses pacientes também irá requintar suas ansiedades, ampliará o fenômeno da reação exagerada aos sintomas “realçados” pelos aplicativos e wearables, além de criar outro grupo de hipocondríacos exclusivamente digitais, os cibercondríacos.

As pessoas estão se tornando cada vez mais ativas quando se trata de rastrear e gerenciar seu bem-estar ou doença com a ajuda de ferramentas digitais, o exagero pode ser um “efeito colateral” inevitável. Estar à par do que os dispositivos fornecem e estabelecer exatamente onde se encontra suas limitações, mal uso e efeitos adversos terá um lugarzinho bem parecido como os livros de farmacologia nas escolas de medicina.

À medida que a tecnologia avança, teremos muito mais informações em nossas mãos sobre saúde e doença, incluindo sensores de ECG, sensores de alimentos, rastreadores de sono, tatuagens digitais, algoritmos online ou resultados de testes genéticos. Essas ferramentas são incrivelmente úteis para a prevenção. No entanto, se os pacientes nunca tiveram treinamento em como interpretar dados e como gerenciar suas próprias informações, eles podem tirar conclusões precipitadas muito cedo, interpretar erroneamente ou avaliar falsamente os dados.

Com base ema artigos publicados por  Susan Whitbourne  e  Doherty Torstrick , deixo um conselho: quando você perceber que seu paciente está reagindo exageradamente às informações encontradas na internet e/ ou usando tecnologia de saúde em excesso, faça as seguintes perguntas ao paciente:

1) Você gasta no mínimo 1 a 3 horas por dia verificando seus sintomas percebidos online ou por meio de um aplicativo?

2) Você tem medo de ter doenças diferentes ao mesmo tempo?

3) Você verifica seu estado médico por meio de um verificador de sintomas, um aplicativo ou um dispositivo vestível mais de 3 a 4 vezes por dia?

d) Ver informações on-line faz você se sentir mais ansioso?

Se o paciente responder sim a mais de 3 perguntas, recomende que ele reduza o uso de ferramentas digitais quando se trata de gerenciar sua saúde. Os aplicativos atuais ainda não consideraram lidar com indivíduos com altos níveis de ansiedade.

8. Melhorias na comunicação

Chame a atenção de seus pacientes para o fato de que eles devem sempre assegurar-se de enviar dados por canais seguros e que atenda à legislação (Lei Geral de Proteção de Dados).

Ainda, deve-se assegurar que o médico recebeu a informação e que se realmente for urgente, haja um mecanismo apropriado e previamente acordado de comunicação assertiva.

Os pacientes devem sempre se certificar de compartilhar apenas informações que não sejam muito pessoais. O uso de canais de mídia social, como Facebook, LinkedIn, Instagram ou plataformas de mensagens, como Messenger, WhatsApp ou Telegram, pode aproximar você da geração mais jovem. O TikTok seria para uma geração mais nova ainda, mas atualmente não encontra uma comunicação paciente-médico assertiva, apesar de a empresa estar trabalhando para isso no momento.

Uma pesquisa da Roche UK mostra que mais da metade das pessoas que fazem parte  Geração Z (indivíduos de 16 a 24 anos) preferem receber conselhos de seu médico conhecido ou farmacêutico clínico por meio de um aplicativo, ou site do que presencial.

Você também pode incorporar um chatbot no seu site ou canal de mídia social (como o Instagram, por exemplo) para usar para orientar seus jovens pacientes em sua jornada em direção à saúde.

Além das regras de comunicação — incluindo definir horários de expediente exatos, cumpri-los rigorosamente e deixar claro que não é uma plataforma para emergências  —também é benéfico indicar que as conversas por meio de plataformas de mensagens ou canais de mídia social não podem ser consideradas diagnósticos. É necessário pelo menos uma consulta presencial para tal.

Afinal, é possível melhorar o ambiente de trabalho médico?

Se você leu até aqui, deve ter percebido o quão  difícil  é transformar o ambiente de trabalho médico para melhor, certo? A notícia boa é que  estamos em constante evolução;

Este é um momento já não mais tão turbulento, talvez mais emocionante para o sistema de saúde. A mudança está sobre nós e acredito que alcançaremos maior eficiência e veremos novas inovações que não poderíamos imaginar há apenas alguns meses.

A necessidade de instalações físicas nunca desaparecerá, mas a incorporação da telemedicina pode ajudar no dimensionamento correto de futuros projetos de construção e na otimização do retorno dos investimentos de uma organização.

Juntos, acredito que podemos levar cuidados de saúde mais acessíveis e melhores para aqueles que atendemos!


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Referências

  1. CHEN, Yen-Yuan et al. Health information obtained from the internet and changes in medical decision making: questionnaire development and cross-sectional survey. J Med Internet Res, v. 20, n. 2, p. e47, 2018. Disponível em: https://www.jmir.org/2018/2/e47/PDF. Acesso em abril de 2022.
  2. DOHERTY-TORSTRICK, Emily R.; WALTON, Kate E.; FALLON, Brian A. Cyberchondria: parsing health anxiety from online behavior. Psychosomatics, v. 57, n. 4, p. 390-400, 2016. Disponível em: DOI: 10.1016/j.psym.2016.02.002. Acesso em abril de 2022.
  3. LEE, Kenneth et al. Consumer use of “Dr Google”: a survey on health information-seeking behaviors and navigational needs. Journal of medical Internet research, v. 17, n. 12, p. e4345, 2015. Disponível em: doi:10.2196/jmir.4345. Acesso em abril de 2022.
  4. PARK, Adrian E. et al. Intraoperative “micro breaks” with targeted stretching enhance surgeon physical function and mental focusAnnals of surgery, v. 265, n. 2, p. 340-346, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000001665. Acesso em abril de 2022.

 

Academia Médica
Albert Bacelar de Sousa
Albert Bacelar de Sousa Seguir

Médico Intensivista, Professor Universitário, Coordenador UTI, Instrutor Simulação Realística, Programador Python, Professor Health Design Thinking, MBA Gestão em Saúde, Educação, Empreendedorismo e em Tecnologias em Saúde, Ex-Mergulhador de Resgate

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