Embora o tabagismo siga como o principal fator de risco para câncer de pulmão, 15%–20% dos casos ocorrem em pessoas que nunca fumaram (isto é, fumaram <100 cigarros na vida). Uma revisão publicada em Jama Network Open, traz um panorama atualizado sobre epidemiologia, fatores de risco ambientais e genéticos, rastreamento, apresentação clínica, diagnóstico, tratamento e prognóstico desse grupo, com implicações diretas para a prática clínica.
Quem são os “não fumantes”
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A maioria dos tumores nesse grupo é adenocarcinoma (60%–80%), e a idade mediana ao diagnóstico é ~67 anos (vs ~70 anos em pessoas com histórico de tabagismo).
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A incidência absoluta em nunca fumantes vem aumentando em diversas regiões e é mais alta em mulheres em vários países; há marcantes diferenças étnicas e geográficas (p.ex., mulheres asiáticas nos EUA).
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O mito de que câncer de pulmão “quase sempre” é causado por tabaco pode atrasar investigação e diagnóstico. Esses pontos reforçam: sintomas respiratórios persistentes não devem ser minimizados com base apenas no status de tabagismo.
Fatores ambientais:
A revisão enfatiza três frentes ambientais com impacto consistente: radônio domiciliar, poluição atmosférica por material particulado fino (PM2,5) e exposição à fumaça passiva, além de citar asbesto, sílica e radioterapia torácica prévia como fatores adicionais.
Radônio (gás radioativo natural)
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Carcinógeno Grupo 1 (IARC) e importante causa ambiental de câncer de pulmão em não fumantes, com estimativa de ≈21.000 mortes/ano atribuídas ao radônio nos EUA.
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Risco incremental: excesso de risco relativo 0,15 (IC 95% 0,06–0,25) a cada 100 Bq/m³.
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Testagem domiciliar: recomendada em âmbito populacional (CDC).
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Mitigação: a EPA recomenda intervir a partir de 4 pCi/L (≈150 Bq/m³) e considerar ação entre 2–4 pCi/L (≈75–150 Bq/m³), pois não há nível seguro de exposição.
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Medidas eficazes: depressurização ativa do subsolo e melhoria de ventilação.
Poluição do ar (PM2,5)
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Em 2022, cerca de 200.000 casos de adenocarcinoma de pulmão foram atribuídos à poluição atmosférica (modelo de fração atribuível populacional).
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Carga global: ~99% da população mundial vive acima da diretriz anual da OMS para PM2,5 (<5 µg/m³).
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Associação molecular: estudo multicêntrico (6.799 casos; 3.615 em nunca fumantes; 26.807 controles) mostrou relação entre PM2,5 e câncer EGFR-dirigido; a incidência aumentou 0,63 a 1,82 por 100.000 habitantes para cada 1 µg/m³ adicional de PM2,5.
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Mecanismo proposto: influxo de macrófagos e liberação de IL-1β, promovendo tumorigênese.
Fumaça passiva
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Aumento de risco em nunca fumantes: HR 1,28 (IC 95% 1,10–1,48) em meta-análises/coortes.
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Impacto global: estimadas ≈100.000 mortes em 2021 atribuídas à exposição passiva (análise secundária do Global Burden of Disease).
Outros agentes e exposições
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Asbesto e sílica: carcinógenos Grupo 1 (IARC) associados a câncer de pulmão, também relevantes em nunca fumantes.
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Radioterapia torácica prévia: em coorte retrospectiva de 613.746 mulheres tratadas com radioterapia para câncer de mama, 1,74% desenvolveram câncer de pulmão posteriormente (status tabágico não disponível).
Risco familiar e base genética: alta taxa de alvos terapêuticos
Ter parente de primeiro grau com câncer de pulmão confere OR ≈1,5. Estudos genômicos identificam variantes germinativas de baixa penetrância (p.ex., 5p15.33, 3q28).
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Em comparação com fumantes, tumores de não fumantes exibem mais alterações acionáveis e menor carga mutacional tumoral, um perfil que favorece terapia-alvo e menor responsividade isolada à imunoterapia.
Rastreamento: onde estamos e para onde vamos
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A USPSTF recomenda TC de tórax apenas para pessoas de 50–80 anos com ≥20 maços-ano e que fumem ou tenham parado há ≤15 anos; não há recomendação para não fumantes. USPSTF
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Em contraste, Taiwan lançou (2022) um programa nacional de TC de tórax bienal que inclui não fumantes com história familiar, concentrando diagnósticos em estágios iniciais (≈77% em estágio I em coortes estudadas).
Mensagem prática: em países sem programa específico, considerar história familiar, exposições ambientais e contextos de risco ao decidir sobre investigação, sempre alinhando com diretrizes locais.
Apresentação clínica e avaliação inicial
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Sinais e sintomas não diferem de quem tem histórico de tabagismo: tosse, dispneia, dor torácica, perda de peso ou achados incidentais.
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TC de tórax com contraste é o exame de escolha para lesão suspeita e estadiamento regional; PET-CT é indicado quando se planeja terapia com intenção curativa (cirurgia/radioterapia).
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Ressonância de crânio é recomendada no diagnóstico, 10%–25% têm metástases cerebrais.
Diagnóstico tecidual e biomarcadores
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Confirmar com biópsia (percutânea/broncoscopia com EBUS) e, para todos os não fumantes, solicitar painéis NGS DNA/RNA cobrindo EGFR, ALK, ROS1, RET etc.
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Biópsia líquida (ctDNA) é útil quando o tecido é escasso e para monitorar resistência (p.ex., vias PI3K/AKT/mTOR, RAS). Status ctDNA-negativo no pré-operatório associou-se a sobrevida global de 5 anos melhor em coorte estudada.
Estadiamento
Sem rastreamento sistemático, muitos não fumantes são diagnosticados em estádios III–IV; onde há programas de TC de tórax direcionados, há deslocamento para estágios iniciais (IA/IB) e maior chance de cura.
Prognóstico
O desfecho depende de estágio, performance e presença de drivers acionáveis. A sobrevida específica de câncer em nível populacional melhorou nas últimas duas décadas, em grande parte pela adoção de terapias-alvo (p.ex., SG mediana ~38,6 meses em EGFR mutado; >5 anos em ALK+). Em análises por status tabágico, não fumantes tendem a apresentar sobrevida global mediana maior do que ex-fumantes e fumantes atuais, também influenciada por distribuição de estágios e alvos tratáveis.
Para levar ao consultório: checklist rápido
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Não subestime sintomas respiratórios em NÃ fumantes (tosse persistente, dispneia, dor torácica, perda de peso, hemoptise).
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Solicite TC de tórax com contraste para avaliação inicial adequada; use PET-CT para planejamento curativo.
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Considere biópsia líquida quando o tecido for limitado ou para mecanismos de resistência.
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Eduque sobre radônio e poluição do ar; oriente teste domiciliar de radônio conforme a realidade local.
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Alinhe expectativas sobre rastreamento: siga USPSTF para fumantes/ex-fumantes; discuta particularidades (p.ex., histórico familiar) e a ausência de recomendação para nunca fumantes em muitas diretrizes, reconhecendo experiências como a de Taiwan.
Referência:
Murphy C, Pandya T, Swanton C, Solomon BJ. Lung Cancer in Nonsmoking Individuals: A Review. JAMA. Published online October 20, 2025. doi:10.1001/jama.2025.17695






