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Eu, Cristiane B., médica cética e frustrada. E a jornada pelo sentido na carreira médica

Eu, Cristiane B., médica cética e frustrada. E a jornada pelo sentido na carreira médica

Na coordenação da Pós-Graduação em Medicina Integrativa do Hospital Albert Einstein, acompanhei muitos médicos na busca por um novo significado para seu trabalho. Nas andanças pelo mundo dos negócios, vi colegas frustrados por viverem um sistema que não lembra em nada o que sonharam na faculdade. Como empreendedora, ouço outros empreendedores que estão desesperados por terem se aventurado em um universo para o qual não estavam preparados.

Não está fácil ser médico e ao mesmo tempo nunca houve tanta oportunidade na Medicina. Médicos são acusados de causar a falência do sistema de saúde, arrogância e ganância. A impressão é de que, se não se mexer, o médico vai ser engolido.

Eu mesma tive umas quatro crises ao longo da minha carreira, começando por abandonar a faculdade por um ano ao tomar um choque com a competitividade e a arrogância que encontrei. Foi bom. Tive tempo de amadurecer mais um pouco, estudar comunicação, uma paixão que sempre tive, e voltar.

Cada crise é a chance de criar algo novo, um novo destino ou uma nova forma de ver a velha casa.

Quantas pessoas a gente vê arrastando as dúvidas, o tédio e o medo pela vida? Odiando segundas-feiras, irritados com os pacientes, odiando os chefes, achando que a vida é assim mesmo e que o melhor é seguir arrastando até o próximo alvo – a residência, o mestrado, o doutorado, a promoção, o concurso, o casamento...

Para sacodir a poeira surgem as carreiras administrativas, os empreendedores em tecnologia, os marqueteiros, os blogueiros comunicadores e os médicos-MBAs à procura de um sentido. Mas mesmo assim, você já sentiu que parece que sempre tem algo que não se encaixa? A gente faz o que dizem por aí que faz sentido (o blog, o MBA, a startup), mas algo está sempre faltando.

Na prática, não basta apenas adquirir novos conhecimentos e receber mais títulos, ou criar um blog e virar pop. Enquanto buscamos novas formações ou experiências do mundo lá fora, precisamos questionar pensamentos que ainda carregamos, que um dia foram importantes, mas hoje se tornaram limitantes.

Você deixou de ser chefe, mas pode exercer a liderança na sua equipe. Quem disse que é necessário (e até uma honra) deixar de se alimentar ou dormir bem ao exercer sua profissão? Tem certeza de que não entende nada de vendas, ou na verdade acha feio entender? E o marketing? O que tem de errado em divulgar o belo trabalho que faz? Será que a pesquisa pode ser feita de uma forma diferente? A lista é longa, mas cada um desses padrões que não nos servem podem ser quebrados e dar lugar a uma nova forma de ver a profissão.

Com a vida corrida de um médico, há pouco tempo para reflexão e boa tomada de decisão. Assim seguimos caminhando sem rumo, frustrados e na contramão da história. Você sente isso? Se sente, é um ótimo começo. Vou dar aqui algumas sugestões de como ajustar o rumo.

Eu mesma demorei para entender que a carreira médica-especialista-mestre-doutora-professora-livre-docente não fazia sentido para mim do jeito que estava desenhada. Fui perceber quando já era doutora e pude fazer os ajustes que precisava para continuar saboreando a medicina.

E por onde começar? Depende do estilo pessoal, mas são poucos os que têm o luxo de largar tudo pra focar na mudança. Você pode passar um ano sabático refletindo pelo mundo? Eu não quis. Passei duas semanas meditando na Índia e depois segui com a prática da meditação. Foi minha opção, mas existem outras.

 É preciso encontrar tempo para olhar para si enquanto a vida segue lá fora, sem pressa, mas com determinação, realizando cada uma das etapas abaixo:

– Perceber os padrões de pensamento limitantes que regem nossas decisões – Será que os outros têm mesmo inveja de você? Você precisa ser heroico em tudo o que faz? Será que quem ganha dinheiro é sempre mal caráter? O sucesso exige mesmo sacrifício constante?

Nossa vida está cheia dessas afirmações. Talvez algumas continuem nos servindo e façam sentido, mas o ponto aqui é questionar, perceber como reagimos ao ambiente de forma automática. Uma das frases que mais me intriga é “quem espera sempre alcança”. Aham...

– Criar rotina de autocuidado – Estou respeitando meu corpo, minha mente e meus valores? O que posso fazer para melhorar isso? Uma mente privada de sono não pode tomar boas decisões.

Eu já puxei rotinas de 48 horas de trabalho, mas arrebenta o corpo se não vem um período real de descanso depois. Como você equilibra períodos de estresse com períodos de recuperação? Isso não é balela de autoajuda, é Medicina Baseada em Evidências.

– Mudar a visão de “tiros curtos” para a noção de “maratona” nas metas da vida (os corredores vão entender :). Não vale a pena destruir o presente, levar o corpo ao limite, quando nossa vida produtiva se torna cada vez mais longa. Há muito tempo pra viver, construir e reconstruir nossos sonhos, com resiliência.

(Nunca me esqueço do senhor que me disse aos 80 anos que se tivesse feito uma nova faculdade aos 40, já teria quase 40 anos de experiência na nova profissão. Mas infelizmente aos 40 ele decidiu que não valia mais a pena mudar...)

 – Revisar o conceito de sucesso em vários momentos da vida – O que vai te fazer sentir que chegou onde queria? Teu caminho está sendo definido por você ou por outras pessoas? Se você seguir no caminho que outros escolheram para você (a sociedade, universidade, a família), vai acabar sendo a pessoa mais bem-sucedida em algo que não escolheu e não deseja, um presente meio amargo.

– Adotar novos hábitos – Cada novo hábito pode ter o poder de gerar uma cascata de transformações na nossa vida. Pessoas que começam a correr, tendem a se alimentar melhor. Comece por UM hábito novo, alinhado com a pessoa que você está buscando ser, e veja o resultado ir aparecendo.

(Pode ser algo simples como tomar um copo de água todas as manhãs ao acordar, ou escrever todas as noites, mas precisa fazer parte da decisão maior de evoluir como ser humano e profissional. Há um livro maravilhoso sobre esse assunto chamado “O Poder do Hábito”, do Charles Duhigg).

–  Cultivar relacionamentos pessoais – a gente sempre acha tempo para o chefe, para o trabalho, para o WhatsApp..., mas e os velhos amigos? E os novos amigos que a gente pensou em encontrar? Ligou para teus pais essa semana? Mostrou aquele lugar que sempre quis para os filhos? A medicina já provou que nossa rede pessoal pode alongar nossa vida depois de um infarto. Ela é poderosa.

–  Abrir a cabeça para novas fontes de informação. Eu sei que são vários artigos para ler e que talvez você esteja sempre se atualizando. Mas a gente tende a se manter no conforto das nossas áreas de interesse. Qual foi o último livro não-técnico, não autoajuda, não-médico que você leu?

(Experimente os vídeos e aplicativos que os parentes adolescentes estão curtindo, escute músicas de outros países, descubra como é a rotina (tecnológica) de um chinês que vive em Beijing. Torne isso um experimento antropológico, um hábito. Isso vai ampliar os limites da sua empatia e vai te ajudar a entender melhor o mundo novo que está querendo te atropelar).

– Entender que felicidade não é um direito e não exige a vida perfeita pra existir. Felicidade vem das boas escolhas diárias, alinhadas com nossos valores e objetivos. Portanto é preciso que a gente se conheça para ser feliz, incluindo aí nossas sombras e medos. E também que exerça autocompaixão para apostar nas nossas habilidades, respeitar nossos limites e impor limites ao mundo que nos cerca.   

A caminhada pode ser gradual, desde que haja determinação. Lembra da maratona? Eu adoro o exemplo da maratona porque são poucos os que vão lá para pegar pódio. A galera vai para se superar, conhecer lugares novos, socializar – assim é a vida!.

Ao longo do tempo, e da medida que vamos avançando em cada um dos pontos acima, nossas escolhas vão melhorando, vão ficando mais conscientes, nossos padrões limitantes vão sendo quebrados e nosso rumo vai se alinhando aos nossos objetivos de vida e o ao mundo ao nosso redor. 

Pode ser que a gente resolva, então, fechar o consultório para buscar uma nova forma de fazer a medicina. Ou talvez encontre formas mais interessantes de continuar a crescer o consultório. A frustração, o cansaço (sem uma causa clínica clara) e a falta de rumo são chamados para a reflexão. Eles são oportunidades.

Para seguir em frente de forma plena, íntegra e consciente, não é necessário sofrer para tomar uma grande decisão imediatamente, basta se preparar para fazer uma sequência de pequenas boas decisões ao longo dos próximos anos da vida.

Estamos criando aqui na Academia Médica um canal para discutir tudo isso com os colegas da saúde, incluindo os médicos, estudantes, enfermeiros, psicólogos, educadores.... Não temos todas as verdades, mas queremos apontar os caminhos que conhecemos para que cada um faça sua escolha. Contribuições são muito bem-vindas.

A faculdade não falou sobre autocuidado, sucesso, escolhas e felicidade, mas eles são essenciais para quem quer viver do cuidado com a saúde dos outros. Afinal, quem não consegue nadar, não pode salvar quem está se afogando...

 


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Academia Médica
Cristiane Benvenuto Andrade
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Médica Dermatologista, Doutora em Medicina, com muita experiência em gestão, empreendedorismo e tecnologia. Ser humano que usa empatia e criatividade para gerar impacto positivo na sociedade.

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