Cremesp estuda
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Cremesp estuda "vigiar" e capacitar os egressos que tiverem mau desempenho na prova

Cremesp estuda "vigiar" e capacitar os egressos que tiverem mau desempenho na prova.

Apesar de apresentar um viés avaliativo por não exigir aprovação no exame para exercer a profissão, os resultados chamam muito a atenção, principalmente quando consideramos os egressos das escolas particulares. Talvez o Cremesp finamente tenha achado uma ação a ser adotada após a aplicação de seu exame.

Nós já escrevemos várias vezes aqui sobre a precariedade do ensino médico no Brasil.  Mais um ano se passa, e nada mudou. Pelo contrário, a cada ano mais médicos são formados em universidades sem as mínimas condições de comportar um curso de medicina! Ou seja, sem hospital-escola, sem laboratórios adequados, sem um bom corpo docente,  e no caso das particulares, com mensalidades exorbitantes. Faculdades que tem  apenas um único fim: o dinheiro, daqueles que pagam, e muito, para realizar o sonho de ser médico. Muitas vezes, um sonho altruísta, movido pela vontade de ajudar o próximo.

Recentemente foi divulgado o resultado do Exame do Cremesp, realizado em outubro de 2014. E o resultado foi alarmante.

Dos 3.359 médicos recém-formados que realizaram o exame, 2.981 eram de São Paulo e desses, 55% obtiveram notas abaixo dos 60% (média mínima estabelecida pelo Conselho), ou seja, foram reprovados no exame. Dos 468 estudantes de outros estados que também participaram do exame, esse índice foi ainda maior, 63% foram reprovados.

O pior de tudo, é que de acordo com os critérios da Fundação Carlos Chagas, que elabora a prova, as questões formuladas eram de nível fácil e médio, ou seja, os novos médicos erraram questões básicas, como a abordagem inicial ao paciente com pneumonia ou o tratamento para cálculo biliar. Esperava-se um resultado muito melhor, diante de uma avaliação que abordava as bases do conhecimento em medicina.

Além disso, o resultado do exame chama atenção também para a precariedade do ensino nas universidades privadas, já que o número de alunos reprovados nas escolas particulares é o dobro das escolas públicas. Dentre as escolas de medicina públicas, o índice de reprovação foi de 33% e dentre as privadas, esse índice chegou a absurdamente 65,1%. O que deveria ser o contrário, visto que as mensalidades para o curso de medicina em universidades particulares são caríssimas, o mínimo que deveriam oferecer eram cursos de qualidade. Mas em muitas, infelizmente não é o que acontece.

A abertura de cursos de medicina continua sendo autorizada indiscriminadamente, em locais precários, sem as condições mínimas, e não só em universidades privadas, mas públicas também. Além é claro, da falta de investimento nas universidades públicas já existentes, e de qualidade, mas que sem verba suficiente, também encontram dificuldade em manter o nível do curso.

De acordo com o presidente do Cremesp, Bráulio Luna Filho, durante a coletiva de imprensa:

"Esse resultado demonstra a má qualidade do ensino médico no País. Toda vez que um indivíduo despreparado entra para atender no sistema de saúde, propicia o mau uso dos recursos, tais como exames etc, além de representar um risco para os pacientes assistidos.”

Essa já é a 10ª edição do Exame do Cremesp, e o que se verifica é a manutenção dos índices de reprovação acima de 50%, evidenciando a persistência da má qualidade do ensino médico.

São Paulo é o único estado do país em que existe esse tipo de exame promovido pelo Conselho Regional de Medicina. O estudante egresso, precisa passar por essa prova, para obter o CRM e atuar como médico no estado. Porém, a prova não tem o objetivo de impedir o recém-formado de exercer a medicina, ou seja, mesmo que tenha sido reprovado no exame, o jovem médico pode obter o CRM e atuar. Isso, porque no Brasil não existe uma lei federal que condiciona a obtenção do registro médico à realização da prova, como o da OAB, por exemplo, para os advogados.

Diante dos lamentáveis resultados do Exame, o Cremesp estuda a possibilidade de fiscalizar os novos médicos que foram reprovados. Eles terão de apresentar relatórios e realizar cursos de capacitação, dentre outras atividades.

De acordo com o Presidente, Bráulio Luna Filho:

“Estamos tentando mudar essa situação. Temos trabalhado com todas as escolas, por meio de uma Câmara Temática, para discutir a formação e a maneira como o Conselho pode interferir para mudar esse cenário. Como não conseguimos colocar uma ferramenta obrigatória que impeça o aluno com mau desempenho de exercer a profissão, temos tentado acompanhar a formação dos alunos, por meio de comissões”, concluiu.

Mais uma vez o Brasil parece caminhar na contramão. Ano passado, 27 novos cursos de medicina foram criados, sendo 18 particulares e 9 públicos. Ao invés de se preocuparem em exigir a qualidade da formação dos novos médicos nos cursos já existentes, os nossos governantes pensam apenas em abrir novos cursos, sem se preocupar com a qualidade de atendimento que será prestado à população futuramente.

Como bem escreveu o Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Dr. Antonio Carlos Lopes, em artigo para a Folha:

"O governo deve agir, assim como o parlamento. Afinal, são nossos impostos que sustentam esses senhores, cuja obrigação é nos representar e ao nosso pensamento. Assim, devemos exigir que cumpram o dever que lhes cabe na busca de sistemas educacional e de saúde proporcionais ao tamanho deste país. É nosso direito como cidadãos." 

Mais sobre exames de avaliação do médico, clique AQUI

Fontes:

http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=3501

http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1--1106-20150211

http://academiamedica.com.br/medicina-a-venda-de-um-sonho/

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