Nos últimos anos, a ideia de transformar a casa do paciente em extensão do hospital deixou de ser utopia para se tornar uma tendência sólida em diversas partes do mundo. De Paris, onde a iniciativa surgiu na década de 1950, até centros médicos de Austrália, Espanha, Reino Unido, Irlanda, Israel, Canadá e Estados Unidos, o modelo de hospital-at‑home vem se impondo como resposta à sobrecarga de leitos, às infecções associadas à internação e à necessidade de adaptar o sistema de saúde a uma população que envelhece rapidamente.
O princípio é simples e ao mesmo tempo revolucionário: em vez de concentrar todos os recursos dentro de quatro paredes, leva‑se ao domicílio do paciente a infraestrutura necessária para administrar antibióticos intravenosos, oxigenoterapia, monitoramento de doenças crônicas e até cuidados pós‑cirúrgicos. Essa mudança de paradigma exige logística robusta, equipes multidisciplinares disponíveis 24 horas e integração tecnológica que permita acompanhar sinais vitais em tempo real. Ao mesmo tempo, coloca o paciente no centro do processo, permitindo‑lhe manter sua rotina, sua alimentação e a companhia dos familiares, fatores que têm impacto direto na recuperação e no bem-estar.
Observa-se que, onde o hospital-at-home foi implementado de maneira consistente, os resultados são encorajadores. Países que apostaram na estratégia relatam redução de internações prolongadas, diminuição de infecções hospitalares e alívio da pressão sobre hospitais superlotados. Leitos virtuais se multiplicam: no Reino Unido há dezenas de milhares deles, enquanto na Irlanda a soma de dias de cuidado domiciliar já equivale a liberar milhares de leitos físicos. Em lugares como Israel, a aceitação por parte dos pacientes é surpreendentemente alta, revelando que a resistência cultural a ser tratado em casa pode ser menor do que se imaginava.
Esse avanço, no entanto, não está livre de obstáculos. Sem financiamento permanente e políticas públicas claras, muitos hospitais hesitam em investir na infraestrutura necessária. Pequenas instituições, em especial, temem os custos iniciais de equipamentos de monitoramento e treinamento, e a falta de integração entre sistemas de prontuário eletrônico dificulta a continuidade do cuidado. Também é preciso lembrar que nem todo lar oferece condições adequadas para terapias complexas; há que considerar questões de espaço, higiene e apoio familiar. O êxito da hospitalização domiciliar depende tanto de tecnologia quanto de suporte social, e essa equação ainda é um desafio em realidades socioeconômicas díspares.
Do ponto de vista do profissional de saúde, o modelo implica reconfigurar rotinas e desenvolver competências novas. Médicos e enfermeiros precisam estar preparados para avaliar riscos à distância, interpretar alertas de plataformas digitais e agir rapidamente em caso de instabilidade clínica. Países nórdicos já oferecem cursos de telemedicina para capacitar equipes, e outros seguem o exemplo. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades para novas carreiras, como coordenadores de logística e especialistas em monitorização remota, evidenciando que a inovação em saúde cria demandas além da medicina assistencial.
É importante destacar que a expansão do hospital-at-home não significa o fim dos hospitais tradicionais. Internações complexas, cirurgias e tratamentos intensivos continuarão a exigir a segurança e os recursos de um ambiente hospitalar. Contudo, ao transferir para o domicílio até mesmo uma fração dos pacientes – calcula‑se que entre 5 % e 25 % poderiam se beneficiar desse modelo –, ganha-se fôlego para atender os casos mais graves com mais qualidade. Ademais, os sistemas de saúde se tornam mais resilientes em crises, como se viu durante a pandemia de COVID-19, quando a hospitalização domiciliar funcionou como válvula de escape para leitos lotados.
Para a comunidade médica, a lição que fica é a de que resistir à inovação não é uma opção. O cuidado domiciliar de alta complexidade veio para ficar e tende a se tornar ainda mais sofisticado com o avanço da inteligência artificial, da internet das coisas e de plataformas integradas de saúde. Cabe a gestores, legisladores e profissionais de saúde encontrar meios de financiar, regulamentar e operacionalizar essa mudança com responsabilidade, sem delegar ao domicílio a totalidade dos cuidados e sem sobrecarregar pacientes e familiares. Afinal, se o hospital pode ir à casa das pessoas, as pessoas também têm o direito de exigir que esse serviço seja seguro, acessível e humanizado.
*Texto elaborado por Felipe Ricardo
Referências:
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3. Pandit JA, Pawelek JB, Leff B, Topol EJ. The hospital at home in the USA: current status and future prospects. NPJ Digit Med. 27 fev 2024;7(1):48. doi:10.1038/s41746-024-01040-9 .
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