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Micobactéria causadora da hanseníase pode ser usada para regeneração hepática

Micobactéria causadora da hanseníase pode ser usada para regeneração hepática
Academia Médica
jan. 17 - 3 min de leitura
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A Mycobacterium leprae, responsável pela hanseníase, possui capacidade natural de reprogramação celular, que reativa os genes progenitores do fígado e regula positivamente os marcadores associados ao crescimento, metabolismo e antienvelhecimento.

A descoberta, publicada no final de 2022 pela revista Cells, abre novos caminhos para a regeneração do fígado e alternativas para o transplante hepático. Em  tatus-galinha (Dasypus novemcinctus) infectados durante o estudo, a micobactéria reprogramou todo o fígado e aumentou significativamente a relação fígado total/peso corporal, aumentando os lóbulos hepáticos saudáveis, incluindo proliferação de hepatócitos e expansão proporcional da vasculatura e sistemas biliares. Os fígados infectados possuíam arquitetura e funcionamento normais, sem danos, fibrose ou tumorigênese. 

Na doença hepática crônica humana há lesões inflamatórias repetidas e morte de células parenquimatosas, que estimulam a regeneração da massa de células hepáticas em paralelo com uma resposta de cicatrização das feridas causadas pelas lesões e morte. Mesmo com a agressão contínua ao órgão, alguma capacidade regenerativa permanece na cirrose, embora a recuperação completa seja impossível e o transplante continue sendo o único tratamento.

Segundo o estudo da interação da micobactéria com o hospedeiro, o microorganismo tem a capacidade de sequestrar a plasticidade e as propriedades regenerativas das células de Schwann adultas, reprogramando-as parcialmente em um estado de célula progenitora/célula-tronco benéfica para as bactérias. No nível do hospedeiro, a reprogramação induzida pela micobactéria promove o crescimento de tecidos infectados, permitindo a propagação bacteriana.

Essas características dependentes do hospedeiro do microorganismo, sem efeitos citopáticos ou adversos durante a fase de estabelecimento da infecção, permitem o uso da micobactéria como um modelo adaptado evolutivamente para dissecar as vias endógenas indefinidas do hospedeiro.

Os tatus-galinha utilizados na pesquisa são mamíferos placentários e hospedeiros naturais de Mycobacterium leprae. A manutenção de um fígado funcional permite a propagação bacteriana intracelular dependente da célula hospedeira durante a fase de estabelecimento da infecção. Dada a presença variável de células imunes, mas ausência de morte celular histológica ou fibrose, pode-se dizer que parte da adaptação da resposta do hospedeiro à micobactéria envolve a modulação da atividade celular imune inata, prevenindo danos teciduais.

Para a professora Anura Rambukkana, principal autora do Centro de Medicina Regenerativa da Universidade de Edimburgo, caso a equipe consiga identificar como as bactérias desenvolvem o fígado como um órgão funcional sem causar efeitos adversos em animais vivos, será possível traduzir o conhecimento para desenvolvimento de intervenções terapêuticas para rejuvenescer fígados envelhecidos e regenerar tecidos danificados.

Referência:

Anura Rambukkana, In vivo Partial Reprogramming by Bacteria Promotes Adult Liver Organ Growth without Fibrosis and Tumorigenesis, Cell Reports Medicine (2022). DOI: 10.1016/j.xcrm.2022.100820. www.cell.com/cell-reports-medi … 2666-3791(22)00379-2

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