Por muitos anos, acreditou-se que os primeiros sinais clínicos da esclerose múltipla (EM) surgiam somente com o primeiro evento desmielinizante, como neurite óptica ou alterações motoras. No entanto, um estudo pioneiro da Universidade de British Columbia publicado na JAMA Network Open em 01 de agosto de 2025, revela que o aumento no uso de serviços médicos por pessoas que futuramente desenvolverão EM pode ser detectado até 15 anos antes do aparecimento dos sintomas neurológicos clássicos.
A pesquisa avaliou os dados clínicos e administrativos de mais de 12 mil pessoas residentes na Colúmbia Britânica, Canadá. Utilizando registros de saúde vinculados, os pesquisadores analisaram visitas médicas ocorridas nos 25 anos anteriores à data em que os sintomas da EM foram determinados por neurologistas com base em histórico clínico detalhado e avaliações específicas.
Essa é a primeira vez que se investiga o histórico de uso de serviços de saúde por um período tão extenso antes da manifestação clínica da EM. Estudos anteriores restringiam-se geralmente aos 5 a 10 anos que antecedem o primeiro evento desmielinizante, o que pode representar um estágio já tardio no desenvolvimento da doença.
Principais descobertas:
O estudo detectou um aumento progressivo nas consultas médicas entre pacientes que posteriormente foram diagnosticados com EM, evidenciando um período prodrômico complexo e subestimado:
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15 anos antes do início dos sintomas neurológicos: Aumento nas visitas a clínicos gerais e a médicos de diversas especialidades por sintomas inespecíficos como fadiga, dor crônica, tonturas, cefaleias e queixas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
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12 anos antes: Aumento das consultas psiquiátricas, sugerindo que os transtornos de humor e ansiedade podem ser manifestações muito precoces do processo da doença.
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8 a 9 anos antes: Crescimento nas consultas com neurologistas e oftalmologistas, possivelmente refletindo queixas como visão embaçada ou dor ocular, que ainda não se configuravam como eventos desmielinizantes típicos.
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3 a 5 anos antes: Aumento no uso de serviços de emergência e radiologia, indicando a intensificação dos sintomas inespecíficos e busca por explicações diagnósticas.
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1 ano antes: Ponto de pico de visitas médicas em múltiplas especialidades, incluindo neurologia, emergência e radiologia, momento imediatamente anterior ao diagnóstico clínico da EM.
De acordo com a neurologista e autora sênior do estudo, Dra. Helen Tremlett, os achados “mudam drasticamente o entendimento do início da EM, abrindo possibilidades para estratégias de identificação precoce, monitoramento e intervenções preventivas”.
A autora principal do estudo, Dra. Marta Ruiz-Algueró, complementa que a fase prodrômica da EM pode se estender por mais de uma década, sendo marcada por sintomas vagos e múltiplas consultas médicas, o que reflete a complexidade do processo patológico antes do envolvimento neurológico clássico.
Essa descoberta alinha a esclerose múltipla a outras doenças neurológicas que já reconhecem longos períodos prodrômicos, como o Parkinson, onde alterações no sono, humor e trânsito intestinal precedem os sintomas motores em vários anos.
Embora os achados ofereçam um novo paradigma sobre a cronologia da EM, os autores alertam que a maioria das pessoas com fadiga ou ansiedade não desenvolverá esclerose múltipla. Por isso, é essencial cautela ao utilizar essas informações na prática clínica. No entanto, para indivíduos com maior risco (como familiares de pessoas com EM), essas descobertas podem guiar pesquisas futuras de biomarcadores e estratégias de prevenção.
Referência:
University of British Columbia. "Fatigue, anxiety, pain? They might be MS in disguise." ScienceDaily. ScienceDaily, 2 August 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/08/250802022920.htm>.






