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O grande gerúndio: o que é saúde?

O grande gerúndio: o que é saúde?

Na atualidade, entende-se por saúde, o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência de doenças, conceito esse que é reconhecido tanto pela Organização das Nações Unidas e pela Organização Mundial da Saúde.

Para chegar ao atual consenso sobre saúde, é de suma importância salientar que ele reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas; dependerá da época, do lugar, da classe social, de valores individuais, concepções científicas, religiosas e filosóficas. O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças.

 

Historicidade filosófica do conceito de saúde

Antiguidade

Nos primórdios da humanidade, os cuidados com a saúde tinham como objetivo a sobrevivência e se desenvolviam na estrutura social de convivência e socialização dentro da tribo e no espaço comunitário. A observação dos animais e o caráter instintivo foram importantes para desenvolver noções sobre saúde e sobrevivência.

Os egípcios consideravam a saúde como o estado natural do ser humano e mantinham relação com as alterações ocorridas com o Rio Nilo, razão de sua subsistência. Na vida da sociedade egípcia, a preocupação com a limpeza do corpo e a aparência física era um fator primordial: praticavam hábitos de higiene, fazendo uso de banhos e acreditavam que alimentos bem ou mal combinados podiam manter a saúde ou causar doenças.

O conceito de saúde encontra sua gênese na íntima relação entre filosofia e medicina, na influência mútua entre ambos desde suas origens. Assim, o surgimento da medicina foi oriundo do conceito de "phisis", da natureza do cosmos e pelo sentido de totalidade, provenientes da filosofia pré-socrática jônica.

Na Grécia Antiga, o interesse pela saúde tinha um conceito elevado entre os pensadores gregos, a ponto de Hipócrates e Platão tomarem a medicina como modelo para definir os objetivos e métodos da verdadeira retórica. Esse conceito se torna mais valioso ao levar em conta que o grande expoente da civilização grega foi a filosofia, difundida por vários homens através da homilia. A medicina grega, baseada na mitologia, associava a cura a diversos deuses. Não apenas a Apolo, Ártemis, Atenas e Afrodite, mas também às divindades do mundo inferior, que eram capazes de curar ou evitar doenças.

O pai da medicina ocidental, Hipócrates, identificou a saúde como fruto do equilíbrio dos humores sendo a doença, por oposição, resultante do seu desequilíbrio. Hipócrates postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. O método proposto por ele consistia no conhecimento da natureza humana e na distinção da individualidade.  A saúde era baseada no equilíbrio desses elementos (elementos da natureza, da região, da organização social e dos hábitos). Ele via o homem como uma unidade organizada e entendia a doença como uma desorganização desse estado, e o seu equilíbrio total resultaria na saúde.

A saúde, segundo Platão, consistia na descoberta da estrutura do corpo (pelo médico) e da estrutura da alma (pelo filósofo), onde retiravam seus conhecimentos para restituir ao doente o seu estado são. Assim como ao corpo deve-se dar remédios e alimentos para restaurar-lhe a saúde e a força, à alma é preciso infundir convicção, tornando-a virtuosa por meio de discursos e argumentos legítimos.

Galeno também teve destaque como grande divulgador da medicina hipocrática, permanecendo a ideia de desequilíbrio no corpo. Ele estabeleceu também a teoria das latitudes de saúde, que se divide em saúde, estado neutro e má saúde. A ideia central de sua visão da fisiologia repousa no fluxo permanente dos humores, o que estaria na dependência das influências ambientais, do calor inato e da ingesta alimentar e sua justa proporção. Assim, o seu diagnóstico era baseado no estado sadio do doente, seu temperamento, regime de vida, alimentação, condições ambientais e a época do ano.

 

 

Idade Média

Período marcado pelas Cruzadas, aumentando-se o número de pessoas acometidas por doenças como a lepra, peste bubônica e outras doenças contagiosas. Isto, aliado ao fato de que a medicina era realizada pelos padres e monges, a igreja incutiu na sociedade: o pensamento de que a razão das doenças era o pecado, as quais eram vistas como possessão demoníaca, feitiçaria ou mesmo uma forma de purificação dos pecados. Desta forma, o único meio de alcançar a cura era a súplica por perdão. Apesar de considerar que as doenças demonstravam uma alteração dos humores, a causa da alteração era o pecado.

Ao final do século XII e início do século XIII foram criadas as primeiras universidades, onde mestres e alunos buscavam conhecer a origem dos fenômenos, como a saúde e a doença, pois havia grande preocupação com o corpo neste período. Nesta época, se destaca Pedro Hispano, um físico português, que no século XII escreveu o livro "Sobre a Conservação da Saúde" ("Liber de conservanda sanitate") após muitos estudos acerca da interação do homem com a natureza e leituras sobre medicina realizada na antiguidade, com forte influência dos filósofos do Oriente.

Os primeiros hospitais do Ocidente foram construídos por organizações ou Ordens Religiosas durante a Idade Média, e sobretudo, os médicos, frequentemente, eram membros do clero.

 

 

Modernidade

Do fim do século XVIII ao início do século XX, a medicina social foi capaz de criar as condições de salubridade adequadas à nova sociedade, e de abrir espaço para que a prática médica individual viesse gradativamente a ocupar o lugar central nas práticas de saúde. No século XIX, aparece a bacteriologia e a concepção de que para cada doença há um agente etiológico que poderia ser combatido com produtos químicos ou vacinas. O empirismo influenciou e ainda influencia a medicina. No entanto, no século XIX se fortalece a biologia científica, sem influência externa da filosofia. Assim, aflora a patologia celular, a fisiologia, a bacteriologia e o desenvolvimento de pesquisas. Passa, dessa forma, a medicina de ciência empírica para ciência experimental.

A medicina moderna direciona sua atuação para o corpo, a doença, na busca de um estado biológico normal, exigindo, desse modo, alta tecnologia e custos elevados. Vale ressaltar que a saúde e a doença na cultura ocidental apresentam diferentes realidades. O conhecimento sobre o corpo é fragmentado, com perspectivas teóricas redutoras do conhecimento biológico, psíquico e social. Nesse sentido, o conceito moderno de doença compreende a análise estrutural da matéria (corpo), fundamentada na anatomopatologia.

O conceito saúde se apresenta pensado e estudado em dois pólos: negativo e positivo. Para os autores que refletem a perspectiva do ponto de vista negativo, o argumento para sustentar o entendimento da saúde negativa estaria associado com morbidade e, no seu extremo, com a mortalidade prematura, sendo que a saúde positiva seria caracterizada como a capacidade de se ter uma vida satisfatória e proveitosa, confirmada geralmente pela percepção do bem-estar geral.

Para os autores que visualizam a saúde em sua positividade, percebe-se que o pensar e o repensar sobre saúde, sem agregar a doença, é uma característica pouco frequente que, timidamente, vem ganhando espaço, tanto no pensar individual quanto no coletivo. O que se percebe é uma evolução contínua nas políticas públicas de saúde, bem como na atitude da população. Por outro lado, a preocupação é em tecer um novo paradigma que envolva a promoção da saúde em todos os seus aspectos biopsicossociais.

A saúde positivista está voltada para o futuro. Nessa perspectiva passa a ser construída e vivida pelas pessoas no seu cotidiano, pautada no autocuidado e permeada pela atitude transformadora. A definição negativa de saúde é centrada no modelo biomédico e nas medidas hospitalocêntricas, onde a saúde vista e entendida como ausência de doença, sendo que nenhum fator psicossocial é agregado ao tratamento. Nesse sentido, infelizmente, o foco de atenção, estudo e tratamento é a doença em si. Todas as ações são realizadas com a intenção de controlar a evolução da doença fazendo com que o indivíduo retorne ao estado de não doença. Em nossa percepção, esse aspecto negligencia a dignidade do ser que adoece, pois passa a ser visto a partir de sua patologia e não como um ser humano com fragilidades e potencialidades e, sobretudo, com responsabilidades e direitos sociais.

A multicausalidade aparece no século XX. Os fatores causadores das doenças eram relacionados ao agente etiológico, ao hospedeiro e ao meio ambiente. Entretanto, as causas agiam separadamente. Ainda nesse século, passa-se a considerar os fatores psíquicos como causadores de doenças. O homem então começa a ser visto como ser biopsicossocial. Em suma, o pensamento científico na Idade Moderna tende à redução, à objetividade e à fragmentação do conhecimento, traduzindo os acontecimentos por meio de formas abstratas, demonstráveis e calculáveis.

 

 

Idade Contemporânea

Os conceitos médicos atuais representam o resultado da práxis de cuidado de saúde. Isto é, os conceitos simplesmente se concretizam pelo modo de vida e pela comunicação sobre a vida. Entretanto, existe mais de um conceito sobre saúde e doença que os estudos atuais apresentam, e esses conceitos resultam da práxis normal. 

Para definir saúde e a sua própria normalidade, alguns fatores têm merecido destaque na atualidade. A princípio, quando se pensa em o normal, pensa-se na frequência de um determinado fenômeno como sendo o estado mais comum. Assim, determinando o estado mais frequente, determina-se o mais saudável. Esse princípio de definição é utilizado nas diversas áreas da ciência. No entanto, a saúde e a doença envolvem dimensões subjetivas e não apenas biologicamente científicas e objetivas, e a normatividade que define o normal e o patológico varia.

As variações das doenças podem ser verificadas historicamente, em relação ao seu aparecimento e desaparecimento, aumento ou diminuição de sua frequência, da menor ou maior importância que adquirem em variadas formas de organização social. Torna-se necessário o redimensionamento dos limites da ciência, ampliando a sua interação com outras formas de se apreender a realidade, e é preciso inovar na forma de se utilizar a racionalidade científica para explicar a realidade, e principalmente para agir. Dessa maneira, a atenção à saúde, hoje, requer uma mudança na concepção de mundo e na forma de utilizar o conhecimento em relação às práticas de saúde, voltando o seu enfoque especialmente para a promoção da saúde.

É muito mais do que uma aplicação técnica e normativa, ou seja, a promoção da saúde está relacionada à potencialização da capacidade individual e coletiva das pessoas para conduzirem suas vidas frente aos múltiplos condicionantes da saúde. Isso significa que é preciso estar atento aos acontecimentos da realidade, os quais nos mobilizam para intervir de forma mais efetiva, especialmente nos contextos vulneráveis. A promoção da saúde envolve escolhas relacionadas a valores e processos que não se expressam por conceitos precisos e mensuráveis.

Nesse sentido, termos novos vem sendo desenvolvidos atualmente, como "vulnerabilidade", permitindo abordagens transdiciplinares, envolvendo outras áreas do conhecimento e muitos significados que se originam da consideração da diferença, da subjetividade e da singularidade do que acontece na esfera individual e coletiva.

 

 

Saúde para a OMS: utopia?

Questiona-se a atual definição de saúde da Organização Mundial da Saúde: "situação de perfeito bem-estar físico, mental e social" da pessoa,  considerada ultrapassada, principalmente, por visar a uma perfeição inatingível, atentando-se às próprias características da personalidade. 

Mergulhando ao conceito proferido pela OMS, a saúde pode ser definida sob o contexto histórico da sociedade e em seu processo de desenvolvimento, englobando as condições de alimentação, habitação, educação, renda, ambiente, trabalho, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde, ou seja, é o conjunto de condições integrais e coletivas de existência, influenciado pelo contexto político, socioeconômico, cultural e ambiental.

Além disso, considera-se o corpo humano uma máquina e a saúde o que gerava o bom funcionamento dessa máquina. A saúde passa a ser de responsabilidade coletiva e não individual, ou seja, o direito a saúde é também obrigação do Estado. Desse modo, a amplitude do conceito da OMS acarretou muitas críticas, de natureza técnica, política e libertária, alegando que tal ideal permitiria abusos por parte do Estado, que interviria na vida dos cidadãos sob o pretexto de promover a saúde

Associar a saúde a condições sociais e ambientais é um importante elemento reflexivo. Entretanto, neste caso, a articulação de condições particulares e concretas ao todo social não está bem explicitada, recaindo na qualificação do lema mais do que do conceito, pois adere a uma perspectiva renovadora de saúde – como aderindo a um movimento de pensar mais crítico –, porém, faltando o apontamento público da tradução dessa vontade política em pensamento articulador da dimensão empírica com a teórica. Recaem, assim, às características gerais (concreto-factuais) do ser humano, mas com certa visão do social que o fragmenta em dimensões mais empíricas, práticas, o que dificulta a articulação com o social explicando esses mesmos fragmentos que compõem a vida.

Se trabalhar-se com um referencial "objetivista", isto é, com uma avaliação do grau de perfeição, bem-estar ou felicidade de um sujeito externa a ele próprio, estará-se, automaticamente, elevando os termos perfeição, bem-estar ou felicidade a categorias que existem por si mesmas e não estão sujeitas a uma descrição dentro de um contexto que lhes empreste sentido, a partir da linguagem e da experiência íntima do sujeito. Só poderia, assim, falar de bem-estar, felicidade ou perfeição para um sujeito que, dentro de suas crenças e valores, desse sentido de tal uso semântico e, portanto, o legitimasse.

Por outro lado, a angústia (com oscilações), tendo essa angústia repercussão somática maior ou menor (por exemplo, um cólon irritativo ou uma gastrite), configura-se uma situação habitual, inerente às próprias condições do ser humano. Divergir de posturas da sociedade, e até marginalizar-se ou ser marginalizado frente a essa mesma sociedade, não obstante o sofrimento que essas situações trazem, é comum e até desejável para o homem sintonizado com o ambiente em que vive.

Com relação a esse aspecto, Freud, em mais de uma oportunidade, procurou mostrar como a perfeita felicidade de um indivíduo dentro da civilização constitui algo impossível. Para ele, a civilização passou a existir quando os homens fizeram um pacto entre si, pelo qual trocaram uma parcela de sua liberdade pulsional por um pouco de segurança. Desta forma, a própria organização social e a condição mesma da existência do homem em grupos baseiam-se em uma renúncia que, ainda que assegure ao indivíduo certos benefícios, gera um constante sentimento de "mal-estar". Desta condição não se pode fugir, donde resulta que entre indivíduo e civilização sempre haverá uma zona de tensão. Pode-se, inclusive, situar o mal-estar em um momento anterior ao da constituição dessa "civilização" de que se fala Freud.

Em resposta às críticas referentes ao conceito de saúde proposto pela OMS, foi realizado, em Alma Ata em 1978, a Conferência Internacional de Assistência Primária a Saúde, onde expressa a necessidade de ação urgente de todos os governos, profissionais e comunidade para promover a saúde de todos os povos, reafirmando o significado da saúde como um direito humano fundamental, sendo uma das mais importantes metas sociais mundiais.

A Conferência enfatizou as enormes desigualdades na situação de saúde entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, destacou a responsabilidade governamental na provisão da saúde e a importância da participação das pessoas e comunidades no planejamento e implantação dos cuidados a saúde. Na VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília no ano de 1986, surgiu o conceito ampliado de saúde, produto de intensa mobilização, que surgiu em diversos países da América Latina durante as décadas de 1970 e 1980, como resposta aos vinte e sete regimes  autoritários e à crise dos sistemas públicos de saúde. Assim, a saúde seria a resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde, resultado das formas de organização social, de produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida.

Com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a saúde passa a ser reconhecida como um direito de cidadania e dever do Estado. Baseado nos princípios da universalidade, equidade e integralidade e nas diretrizes de descentralização, regionalização e participação da comunidade, o SUS reafirma a saúde como um valor e um direito humano fundamental, legitimado pela justiça social.

Posteriormente, houve a realização de diversas Conferências Internacionais e Regionais de Promoção da Saúde com intuito de dar voz as discussões que permeiam a saúde e a vida dos povos, sensibilizando para a adequação das diretrizes de acordo com as características locais.  As cartas da Promoção da Saúde reúnem os documentos de referência resultantes do processo de discussão e construção coletiva dos conceitos fundamentais sobre o tema. A proposta de Promoção da Saúde concebe a saúde como produção social e, desta forma, engloba um espaço de atuação que extrapola o setor saúde, apontando para uma articulação com o conjunto dos outros setores da gestão municipal.

Deve-se, portanto, entender que na atual conjuntura faz-se necessário agregar princípios que reconheçam e melhor conceituem saúde tendo como um dos pilares a dignidade do indivíduo. O atual conceito de saúde, por ser positivista, possui nuances subjetivas e contempla reduzida parcela de indivíduos, uma vez que não esclarece fatores relativos ao indivíduo e ao meio em que o mesmo vive. A concepção da saúde vista somente através da relação biológica há tempos não pode ser considerada, visto que sua relação histórica é essencial frente à influência social e cultura em que está inserida.

 

Obsessão por saúde perfeita pode virar doença

Nos países desenvolvidos, aqueles que tem condições de autonomia alimentar, por exemplo, a obsessão pela saúde perfeita tornou-se um fator patogênico predominante. 

Alimentação "exageradamente saudável"

Cru, vegano, sem lactose, sem açúcar, sem glúten. Não faz muito tempo que as redes sociais foram tomadas por pessoas que exibem, orgulhosas, pratos extremamente seletivos. Em alguns casos, no entanto, o desejo de adotar uma alimentação saudável pode virar obsessão e prejudicar a saúde, em vez beneficiá-la. Caracterizada pela necessidade do indivíduo de seguir uma dieta restritiva, rigorosa e considerada correta, a ortorexia é um tipo de transtorno do comportamento alimentar que pode levar, por exemplo, à desnutrição e ao isolamento social.

Por acreditar que determinados alimentos fazem mal, o ortoréxico corta nutrientes importantes do cardápio, como carboidratos e proteína animal, sem fazer substituições de qualidade. Outras atitudes típicas são querer tomar vários suplementos vitamínicos e se negar a ir a festas ou sair para comer fora com a família ou os amigos, por medo de cometer deslizes na dieta.

Corpo "perfeito"

Academia todos os dias, inclusive aos domingos. Exercícios aeróbicos cada vez mais puxados para eliminar aquela gordurinha que ninguém vê. Musculação, crossfit ou qualquer atividade que propicie o aumento da massa muscular e aquela sensação de força, de corpo malhado igual aos estampados nas capas de revista e redes sociais por celebridades. Para garantir bons resultados, os esforços físicos são acompanhados de dietas exageradas, uso de anabolizantes ou outras substâncias e, mesmo assim, ao olhar para o espelho, a imagem que se vê é a de um corpo fraco, frágil e pouco definido. Conhecida como vigorexia, o transtorno dismórfico muscular é a incompatibilidade entre o corpo de uma pessoa e a imagem que ela tem de si própria.

"Por mais musculoso que esteja, o indivíduo sempre vai se achar fraco e franzino, e então inicia uma busca obcecada pela perfeição física", explica o psicólogo do Hospital Israelita Albert Einstein Thiago Amaro.

 

O conceito "saúde" no futuro

É notório que o sistema de saúde, num mundo repleto do ideal instrumental da ciência, cria constantemente novas necessidades de cuidado. Contudo, quanto maior for a oferta de cuidados de saúde, mais as pessoas dizem que têm problemas, necessidades, doenças. Cada um requer que o progresso ponha fim aos sofrimentos do corpo, mantenha o maior tempo possível o frescor da juventude e prolongue a vida indefinidamente. Nem velhice, nem dor, nem morte. Esquece-se assim que tal desgosto pela arte do sofrimento é a própria negação da condição humana.

"Essa obsessão pela saúde me faz imaginar um mundo futuro, em que um dia, quem sabe, as pessoas vão querer morrer e não vão conseguir. Porque você vai ter tanto tratamento, tanto remédio, que as pessoas poderão chegar, por exemplo, a cento e cinquenta anos. As pessoas terão tanta saúde e viverão tantos anos, que muita gente talvez se deprima, não saiba muito o que fazer. O mercado para divertir as pessoas com banalidades vai aumentar. Acredito que esse patrulhamento que se tem com a saúde responde a uma ansiedade que as pessoas tem, não só com relação a elas, mas com relação as pessoas que estão ao redor delas. A humanidade parece disposta a ter uma vida bem medíocre, contanto que seja uma vida saudável", pontua o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé em suas redes sociais. 

 

Portanto, é factual que o conceito de "saúde" transcende os espectros médicos e científicos, e compreende-se como um grande e eterno gerúndio metafísico.

 

Referências Bibliográficas

1- O conceito de saúde - Marco Segre e Flávio Carvalho Ferraz
Departamento de medicina Legal, Ética Médica e Medicina Social e do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP – Brasil : https://www.scielosp.org/article/rsp/1997.v31n5/538-542/pt/

2- CONCEITOS DE SAÚDE E DOENÇA AO LONGO DA HISTÓRIA SOB O OLHAR EPIDEMIOLÓGICO E ANTROPOLÓGICO: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/conceitos-saude-doenca.pdf

3- O conceito de saúde na Saúde Coletiva: contribuições a partir da crítica social e histórica da produção científica: https://scielosp.org/pdf/physis/2019.v29n1/e290102/pt

4- Psicologia da Saúde: Conceitos de Saúde e Doença: https://www.sanarsaude.com/blog/psicologia-saude-conceitos-saude-doenca

5-  A Historicidade filosófica do Conceito Saúde: http://www.here.abennacional.org.br/here/vol3num1artigo2.pdf

6- Como o conceito de saúde mudou ao longo dos anos: https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2015/05/como-o-conceito-de-saude-mudou-ao-longo-dos-anos-4751605.html

7- Quando a obsessão pelo corpo perfeito vira doença https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/01/10/quando-a-obsessao-pelo-corpo-perfeito-vira-doenca.htm

Academia Médica
Bárbara Figueiredo
Bárbara Figueiredo Seguir

19 anos. Acadêmica de Medicina na Fundação Educacional de Patos de Minas. Curto nerdices, Sócrates e tripartição de poderes (rs). Instagram: @figueiredobabi

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