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O papel do componente C5a do sistema complemento nas coagulopatias associadas à COVID-19

O papel do componente C5a do sistema complemento nas coagulopatias associadas à COVID-19

O surto de COVID-19 é, de fato, o grande responsável, a nível global, pelo surgimento de enormes prejuízos para os diversos setores organizacionais dos países. Todos esses danos interferiram e interferem diretamente na qualidade de vida das sociedades mundiais. Na esfera da saúde e da ciência, apesar dos obstáculos políticos/econômicos e, da extrema urgência do quadro pandêmico, pesquisadores da área em questão, obtiveram informações essenciais na tentativa de diminuir e abrandar o impacto da doença causada pelo vírus SARS-CoV2 na população. Pode-se destacar, entre essas descobertas, o importante papel da COVID-19 no surgimento e aumento exponencial de alterações da hemostasia (estado hipercoagulável) nos pacientes infectados pelo patógeno, ampliando as taxas de mortalidade e de prognósticos ruins decorrentes da doença.  

No decorrer do aumento de casos da COVID-19, foi possível observar um padrão bastante frequente de complicações relacionadas ao desequilíbrio da coagulação sanguínea em indivíduos com COVID-19. O vírus SARS-CoV2, por meio da sua proteína spike, consegue adentrar a célula humana, ligando-se aos receptores de angiotensina 2 (ACE2) e, desta forma, ativar o sistema complemento. Este sistema é formado por 52 proteínas solúveis, responsáveis por sinalizar e estimular uma resposta inflamatória volumosa contra corpos estranhos, através da produção abundante de diferentes substâncias citotóxicas.

Estudos realizados por diferentes órgãos de referência em pesquisa científica, mostram que a proteína spike do vírus possui alta interação com as proteínas envolvidas no complemento e na cascata de coagulação, resultando na proteólise do componente regulatório do complemento C3 em C3a e C3b, e posterior clivagem de C3b, originando C5a e C5b.  A geração de C5a, em especial, será o alvo da explicação no processo de coagulação observado na COVID-19.

O elemento C5a estimula a produção exorbitante de NETs (armadilhas extracelulares de neutrófilos), responsável por desencadear lesão epitelial e alveolar; aumenta a permeabilidade da barreira alvéolo-capilar; libera citocinas como a TNF (fator de necrose tumoral), e também potentes interleucinas (IL-1ß, IL-6 e IL-8). Importante salientar que as NETs são alvos de ligação de glicoproteínas de grande importância na coagulação, como por exemplo a fibronectina, o fibrinogênio, e o fator de Willebrand.

A propagação descontrolada de todos esses produtos de C5a, acarretam na chamada “tempestade de citocinas” e, posteriormente, em danos inflamatórios grandiosos nos diversos órgãos, sobretudo nos pulmões, os quais são alvos de uma lesão tissular pulmonar grave. É bastante provável que esta lesão justifique o desenvolvimento do quadro clínico grave de dispneia exacerbada observado nos pacientes COVID, sendo este equivalente à Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA).

Adicionalmente, verificou-se que C5a leva à uma atividade pró-coagulante generalizada, e ao desenvolvimento de trombose microvascular, sendo estes fatos respaldados pela constatação prévia de que este componente do complemento participa intensamente da cascata de coagulação e, consequentemente, da produção final de suas estruturas constituintes: trombina e fibrina. Ademais, C5a evita a conversão do plasminogênio em plasmina (enzima fibrinolítica ativa), componente imprescindível para o processo de fibrinólise (degradação de trombos). 

Em suma, os mecanismos de C5a (formação do complexo NET-glicoproteínas, em conjunto com os produtos da cascata de coagulação, e a inibição da fibrinólise), dão origem à uma rede fibrinosa sofisticada, promotora de agregação plaquetária, de um estado pró-coagulante, e finalmente, da trombogênese generalizada. Todos esses recursos são, provavelmente, os grandes encarregados da consolidação de múltiplas coagulopatias desenvolvidas nos infectados, tais como trombose microvascular (tromboembolia pulmonar), inflamação sistêmica exacerbada, e diferentes patologias pelo excesso da ativação da coagulação .

Estes dados tornam-se bastante relevantes, já que facilitaram uma melhor abordagem e avaliação da evolução e gravidade da doença dos pacientes pela equipe médica. Cita-se como exemplo o uso da dosagem de D-dímero, um produto da degradação da fibrina, o qual apresenta-se aumentado nestes indivíduos. Da mesma forma, essas descobertas facilitam o desenvolvimento e o emprego de tratamentos mais efetivos e adequados nos pacientes com COVID-19. 

 

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Referências 

  1. Chauhan, AJ , Wiffen, LJ , Brown, TP . COVID-19: Uma colisão de complemento, coagulação e vias inflamatórias . J Thromb Haemost . 2020 ; 18 : 2110 - 2117 . https://doi.org/10.1111/jth.14981
     
  2.  Pompermaier, C., Massolla, P. ., & Tomazelli, J. T. (2021). ANÁLISE DAS PRINCIPAIS COAGULOPATIAS QUE ACOMETEM OS PACIENTES COM COVID-19: UMA REVISÃO INTEGRATIVA. Anuário Pesquisa E Extensão Unoesc Xanxerê, 6, e28024. Recuperado de https://portalperiodicos.unoesc.edu.br/apeux/article/view/28024

Academia Médica
Danielle Granja Serpa
Danielle Granja Serpa Seguir

Acadêmica de Medicina do 7° período da Universidade Nove de Julho - São Paulo

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