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O Paradoxo da geriatria como profissão

O Paradoxo da geriatria como profissão
Academia Médica
ago. 7 - 4 min de leitura
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A geriatria, que se tornou oficialmente uma especialidade médica há 35 anos, enfrenta uma situação paradoxal. Apesar de sua relevância inegável na sociedade contemporânea, especialmente com o envelhecimento da população, a profissão passa por um declínio acentuado. O Dr. Jerry H. Gurwitz, em um artigo recentemente publicado no JAMA, aborda essa questão preocupante e suas implicações para o futuro.

Gurwitz ressalta que a geriatria sempre foi uma especialidade atraente para certos médicos por sua abordagem abrangente e centrada no paciente idoso. A geriatria não se concentra apenas em uma única condição médica, mas em uma gama de questões complexas, como multimorbidade, polifarmácia, função e cognição.

No entanto, apesar de sua importância, a geriatria está em declínio nos Estados Unidos. A quantidade de geriatras certificados caiu de 10.270 em 2000 para 7.413 em 2022. Este declínio pode ser atribuído a uma série de fatores, incluindo o envelhecimento e aposentadoria da primeira onda de geriatras e o déficit de novos profissionais na área.

Mesmo com investimentos substanciais em pesquisa e educação em geriatria, a especialidade parece não ter conseguido se consolidar. Por exemplo, embora o Instituto Nacional do Envelhecimento (NIA), com um orçamento anual superior a $4 bilhões, financie pesquisas e prêmios de treinamento em geriatria, poucos geriatras seguem carreiras de pesquisa.

De acordo com Gurwitz, as organizações de acreditação, como o Comitê de Ligação em Educação Médica (LCME) e o Conselho de Acreditação para Educação Médica de Graduação (ACGME), negligenciaram a necessidade de ensinar princípios geriátricos aos estudantes de medicina e residentes. Além disso, mesmo um quadro financeiro favorável relacionado aos cuidados de idosos no âmbito do Medicare Advantage não beneficiou a profissão.

Um aspecto crucial é que a geriatria é uma das poucas especialidades onde a formação de fellowship e a certificação resultam em salário menor do que se os médicos tivessem optado por outras especialidades. Esta diferença salarial, juntamente com percepções negativas sobre o envelhecimento e a falta de prestígio da especialidade, pode desencorajar os estudantes de medicina de seguir carreira na geriatria.

Por fim, Gurwitz adverte que a nação está começando a experimentar o impacto completo do envelhecimento da população e que nosso sistema de saúde e sua força de trabalho não estão preparados para lidar com um iminente aumento de multimorbidade, incapacidade funcional, demência e fragilidade.

Em uma reflexão concisa sobre o cenário brasileiro, observa-se que no país, onde 14,7% da população - mais de 31 milhões de pessoas - tem 60 anos ou mais, a média é de um geriatra para cada 12 mil idosos, uma taxa muito abaixo da recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), tornando-se  motivo de angústia para muitas famílias, que enfrentam dificuldades de acesso a geriatras na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e mesmo na rede particular. 

Portanto, a análise sugere que a geriatria, seja no Brasil ou nos Estados Unidos, enfrenta desafios significativos, apesar de sua relevância inquestionável em uma sociedade que está envelhecendo rapidamente. O panorama, caracterizado pela redução no número de geriatras e uma distribuição geográfica desequilibrada desses especialistas, exige uma reflexão profunda e uma reavaliação das políticas atuais.

Em ambos os contextos, a demanda por profissionais qualificados em geriatria é evidente e só se tornará mais urgente com o passar do tempo. Encarar e superar esses desafios é fundamental para preparar ambos os países para as necessidades de uma população que está envelhecendo rapidamente.

Leia também: 


Referências: 

  • Gurwitz, J. H. (2023). The paradox of geriatrics. JAMA, 329(6), 509-510. doi:10.1001/jama.2023.242
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