O que é
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O que é "Spaced Repetition" e por que ela é importante para os meus estudos?

“No man ever steps in the same river twice” (Heráclito)

Se Heráclito estava certo e alguém realmente não entra no mesmo rio duas vezes, pois esse alguém já não é mais o mesmo e o rio também não, como seria possível alguém esquecer as vias nervosas ascendentes e descendentes que já estudara cinco vezes, ou pior, errar uma questão que já fizera?

Parte dessa pergunta foi respondida por Hermann Ebbinghaus, em 1885, no livro “Memory: A contribution to experimental psychology”[1] (edição traduzida do alemão) ainda no primeiro capítulo em trechos como:

“Very great is the dependence of retention and reproduction upon the intensity of the attention and interest which were attached to the mental states the first time they were present.”

(“Muito grande é a dependência da retenção e da reprodução sobre a intensidade da atenção e do interesse que estavam ligados ao estado mental a primeira vez que foram apresentados.”)

 

“Under ordinary circumstances, indeed, frequent repetitions are indispensable in order to make possible the reproduction of a given content. Vocabularies, discourses, and poems of any length cannot be learned by a single repetition even with the greatest concentration of attention on the part of an individual of very great ability. By a sufficient number of repetitions their final mastery is ensured, and by additional later reproductions gain in assurance and ease is secured.”

(“Sob circunstancias habituais, repetições frequentes são indispensáveis para que seja possível a reprodução de um dado conteúdo. Vocabulários, discursos, e poemas de qualquer extensão não podem ser aprendidos por uma simples repetição mesmo com a maior concentração de atenção em um indivíduo com grande habilidade. Com um número suficiente de repetições a sua maestria final é assegurada, e por reproduções adicionais subsequentes ganhos em segurança e facilidade são garantidos.”)

Após leitura desses trechos, podemos ver que a falha da retenção da nossa memória a longo prazo pode vir pela falta de atenção ou de interesse, pela concentração inadequada, mas o mais importante desses fatores, pelo menos para este artigo, é a falta de repetição. E por que a teoria de Ebbinghaus é importante ainda hoje enquanto você lê este artigo? Vejamos o gráfico abaixo de retenção sobre um assunto x tempo em dias:

A teoria de Ebbinghaus diz que logo após você ter estudado um assunto “X” sua retenção pode ser de 100%, porém caso você não resgate essa informação, tudo ou quase tudo que estudou será esquecido após alguns dias.

E agora? O que pode ser feito para impedir esse trágico fim? É neste momento que a técnica de “repetição espaçada” (RE; em inglês “spaced repetition”) entra em jogo. Note que um dia após o seu estudo inicial, uma revisão foi capaz de trazer sua retenção de volta para os 100%, mas a curva ainda tende à queda. Então, dois dias depois você faz a segunda revisão e voltou a manter o conhecimento que apreendeu no início do processo. Observe que a cada revisão o ângulo da curva tende a se modificar de forma que o esquecimento tende a ser mais lento. É importante frisar que essa curva tem ângulos diferentes para cada pessoa e, em um mesmo indivíduo, para assuntos diferentes. Portanto, não é por acaso que você lembra mais de Ginecologia e menos de Pneumologia, ou o contrário.

Portanto, a teoria de Ebbinghaus e o seu “antídoto” são importantes pelo simples fato de serem efetivos, além de essa técnica de estudo ser adaptável para uso com outras abordagens de aprendizado (active recall, flashcards, mapa mental, questões, pomodoro).

As evidências que suportam o uso da RE são muitas e foram adquiridas de diversas formas. Para dar a mínima dimensão do que já foi publicado a respeito, podemos ver intervenções que utilizaram e-mails com questões e explicações[2,3], aulas[4] (4 horas de aula em um dia vs 1 hora de aula/semana por 4 semanas), flashcards[5]. Hoje, graças a estudos realizados com ressonância magnética funcional, sabemos que a RE desativa circuitos inibitórios, permitindo que as informações sejam direcionadas à memória de longo prazo[9].

As populações testadas incluem crianças do ensino fundamental[6], estudantes universitários de diversas áreas[2,6], médicos residentes[3, 4], abelhas[7]. Sim, abelhas! Até as abelhas aprendem melhor com exposição espaçada.

Em relação aos temas utilizados, a técnica mostrou-se efetiva no aprendizado de línguas, de música[8], realização de testes[2,4], melhora da prática clínica sobre screening para densidade óssea e uso de bisfosfonados[3].

Agora que você já sabe o que é a repetição espaçada e conhece comprovação científica do método, deve estar se perguntando como aplicar isso nos seus estudos. Caso você seja bastante organizado, pode utilizar um calendário e anotar o dia em que um assunto foi estudado e as datas pré-determinadas para as revisões. Devo alertar que essa é uma forma bem difícil de aplicar o método. Talvez a forma mais simples seja utilizar sites ou aplicativos que organizam suas revisões com métodos ativos de estudo como active recall, questões ou flashcards (por exemplo Anki, ankiapp) e praticar todos os dias. Reler as apostilas e/ou suas anotações não é uma técnica efetiva, portanto utilize melhor seu tempo!

Lembre-se: todos os dias você irá aprender algo novo e revisar assuntos que foram estudados ontem, três dias atrás, cinco dias atrás e assim por diante, portanto, comece devagar e não desanime. Dessa forma você precisará estudar por menos tempo em cada dia, lembrará melhor os assuntos e terá mais tempo para ser uma pessoa normal, divertir-se e descansar.

 

Referências:

  1. Ebbinghaus, H. Memory: A contribution to experimental psychology. Bussenius, HRC., translator. New York: Dover Publications; 1964. (Original work published 1885)
  2. Kerfoot et al. Spaced education improves the retention of clinical knowledge by medical students: a randomised controlled trial. Medical Education: 2007; 41: 23–31
  3. Dolan BM, Yialamas MA, McMahon GT. A Randomized Educational Intervention Trial to Determine the Effect of Online Education on the Quality of Resident-Delivered Care. J Grad Med Educ. 2015; 7(3):376–381
  4. Raman et al. Teaching in small portions dispersed over time enhances long-term knowledge retention. Medical Teacher. 2010; 32: 250–255
  5. Kornell, N. Optimising Learning Using Flashcards: Spacing Is More Effective Than Cramming. Appl. Cognit. Psychol. 2009; 23: 1297–1317
  6. Toppino et al. The Effect of Spacing Repetitions on the Recognition Memory of Young Children and Adults. Journal of Experimental Child Psychology. 1991; 51: 123-138
  7. Menzel et al. Massed and Spaced Learning in Honeybees: The Role of CS, US, the Intertrial Interval, and the Test Interval. Learn Mem. 2001;8(4):198-208.
  8. Simmons, AL. Distributed Practice and Procedural Memory Consolidation in Musicians’ Skill Learning. Journal of Research in Music Education. 2011; 59(4): 357–368
  9. Xue et al. Spaced Learning Enhances Subsequent Recognition Memory by Reducing Neural Repetition Suppression. J Cogn Neurosci. 2011; 23(7): 1624–1633.

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Rodrigo Cardoso Cavalcante
Rodrigo Cardoso Cavalcante Seguir

Médico e revisor de algumas das principais revistas internacionais de Educação Médica e Clínica Médica

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