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O que é uma morte saudável?

O que é uma morte saudável?
Emerson Wolaniuk
jan. 5 - 5 min de leitura
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O que é uma morte saudável?

por Emerson Wolaniuk

Recentemente, um emérito médico com visibilidade internacional, o Dr. Richard Smith que, dentre outros grandes feitos em sua carreira científica foi o editor de um dos periódicos médicos mais importantes da nossa era, o British Medical Journal, causou certa reflexão ao expor a seguinte frase no título de seu artigo: “Morrer de câncer é a melhor morte”.

Contra todas as crenças humanas comuns que envolvem a saúde, o câncer é freqüentemente tido como o grande mal, o grande vilão, aquele cujo nome não deve sequer ser pronunciado. “Aquela doença”, alguns preferem dizer. A maioria das pessoas, quando questionadas, prefere ser acometida de uma morte rápida e repentina, como um ataque cardíaco durante o sono, ou qualquer outra maneira de morrer que evite o confronto e o diálogo diário com a morte. Querem ser vencidos de uma vez.

Smith, ao endossar sua assertiva, faz citações a Luis Buñuel - cineasta surrealista e revolucionário que faleceu em 1983, vítima de um câncer de pâncreas. “Prefiro uma morte lenta, a que é esperada, que me deixará revisitar minha vida para um último adeus.” Ainda em suas reflexões sobre a morte, escreveu: “Há ainda uma morte mais horrível, aquela que é mantida pelos milagres da medicina moderna, uma morte que nunca acaba. Em nome de Hipócrates, os médicos inventaram a forma mais requintada de tortura já conhecida pelos homens: a sobrevivência.”

Pessoalmente, como médico que atua em unidades de terapia intensiva, presencio muitas vezes a angústia humana a ser mantida, dia-a-dia, por respiradores artificiais e drogas vasoativas, antibióticos de largo espectro que se substituem sucessivamente na ânsia de tratar as infecções hospitalares decorrentes dos longos internamentos e das várias intervenções invasivas. As famílias não estão preparadas para dizer chega. Para dar adeus. É angustiante para nós, como médicos, termos que aceitar o desejo dos familiares de “fazer tudo que é possível”, e de continuar reanimando um coração vazio a cada parada cardíaca. É frustrante. Há pacientes com lesão neurológica irreversível, com órgãos permanentemente dependentes de aparelhos e drogas, que sabidamente não sobreviverão fora do coma profundo que se encontram dentro da UTI.

Assim, para evitar que as pessoas possam ser vítimas dessa armadilha, o Conselho Federal de Medicina – CFM, em 2012, publicou a Resolução 1.995, que dá aos pacientes a liberdade de registrar sua vontade em não se submeterem a medidas fúteis de prolongamento à vida, em caso de doença terminal. Desse modo, o registro da Diretiva Antecipada de Vontade - feito em prontuário ou em documento registrado em cartório - deve ser obedecido pelo médico e pela família. No "testamento vital", como também é chamada a diretiva, constará a quais procedimentos o paciente aceita ser submetido e a quais ele não deseja. Essa resolução do CFM busca a manutenção do ciclo natural da vida e a manutenção da dignidade do ser humano ao subtrair sofrimentos desnecessários em casos de doença terminal e em casos nos quais a reversão do quadro clínico seja impossível.

É indiscutível que a angústia da separação iminente nos é dolorosa quando falamos dos nossos entes queridos. Mas vejo que muitas vezes a esperança no retorno à saúde é inexistente tanto na equipe assistencial quanto na família. Da mesma forma, “tudo deve ser feito”, relata o familiar. E, assim, permanece na UTI a lembrança do ser humano que trabalhou, amou, viajou, viveu. Permanece indefeso, em novas descompensações do quadro clínico, com aumento progressivo das drogas vasoativas, resistência aos antibióticos mais potentes, coletando gasometria e exames todos os dias, dialisando, transfundindo hemácias ou plasma, corrigindo distúrbios da coagulação, acido-básicos e hidroeletrolíticos, piorando a encefalopatia a cada parada cardíaca.

- Vocês sabem que o quadro dela é irreversível, já está internada na UTI há mais de um mês, e que a cada dia presenciamos a falência de mais um órgão. Caso ela venha a ter uma nova parada cardíaca, é do desejo da família que realizemos manobras de reanimação?

- Sim, doutor, quero que façam tudo o que puderem por ela.

E o ciclo de sofrimento se reinicia por mais um dia, uma semana, um mês, talvez. Em vez de proporcionar saúde, proporcionamos – contra nossa vontade - uma morte lenta e distante de tudo aquilo que o paciente amava. Uma hora de visita por dia. Uma pessoa por vez. Um processo tão distante daquele tipo de morte rápida e sem sofrimento que muitos desejam e muito mais distante ainda daquela em que se pode visitar os lugares e as pessoas que amamos, em que podemos nos despedir com um ar de romantismo da vida que vivemos.

Sobre o assunto no Academia Médica:

Até quando devemos brigar com a morte?
A Visitante
Vale a pena brigar com a morte?
Pelo direito de uma morte digna

FONTE:

http://blogs.bmj.com/bmj/2014/12/31/richard-smith-dying-of-cancer-is-the-best-death/

 

www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2012/1995_2012.pdf

 


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