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O SUS e a humanização da saúde na perspectiva de uma médica

O SUS e a humanização da saúde na  perspectiva de uma médica

Como pensar na relação entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a humanização da saúde? É possível fazer isso em tempos nos quais o profissional de saúde se reconhece ainda mais esgotado e pressionado em meio às incertezas? Para refletir sobre esse assunto, nada melhor do que recorrer à experiência de quem atua na linha de frente e tem mais de uma década de experiência no SUS.

Por isso, selecionamos um episódio do Ted Talks de Julia Rocha, médica com ampla vivência enquanto profissional da saúde de família em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro e autora do livro Pacientes que Curam.

O título da palestra deu nome ao título deste texto: O SUS e a humanização da saúde. Foram necessários apenas 15 minutos para ficarmos admirados com tanta lucidez e sensibilidade de uma médica que aprendeu, na prática, o que a faculdade muitas vezes deixa de ensinar: olhar para o paciente e enxergá-lo, primeiro, como ser humano.

A seguir, confira os principais insights que o relato de Júlia trouxe e que, com certeza, podem inspirar o seu caminho!

1.O SUS e humanização da saúde como direito

Júlia resumiu, de forma cirúrgica, a importância do SUS para a vida das pessoas. Nas palavras dela:

“Antes do SUS, saúde era caridade. Com o SUS, a saúde virou um direito. Não é à toa que o SUS é o maior sistema público de saúde do mundo”. 

Ao resgatarmos um pouquinho da história, é importante destacarmos o seguinte: a universalização do SUS de forma coerente em relação às perspectivas progressistas, partindo do entendimento que a saúde é um direito que deve ser assegurado pelo Estado para qualquer pessoa (sem qualquer discriminação de gênero, classe social, etnia e condições econômicas) nasceu com a Constituição de 1988 e assinatura da Lei nº8080/1990. Esse marco histórico é simbólico, considerando que as conquistas são frutos de lutas sociais intensas e viraram lei após 21 anos da Ditadura Militar.

Entendo a saúde como um direito humano, como os médicos podem tratar seus pacientes fazendo jus aos princípios do SUS e da humanização? Mais uma vez, Júlia é professora e dá a dica:

“Eu não cuido da doença. Eu cuido da pessoa que leva a doença e isso faz toda a diferença”

2. Além do conhecimento técnico: médicos lidam com pessoas

Existe uma frase famosa de Carl Jung, psiquiatra suíço que diz o seguinte: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.  

Teoricamente, este pensamento é muito bonito, mas diante da rotina, do cansaço, da exaustão e da carga horária intensa de trabalho e de estudos exigida do profissional de saúde (desde a graduação), é preciso inspirar-se em bons exemplos para colocar essas coisas em prática.

O erro faz parte. Mas, para cada equívoco, existe uma nova chance e, em determinado momento do seu relato, Júlia mostra o poder da vulnerabilidade e comenta sobre sua própria trajetória:

“Eu achava que o conhecimento técnico puramente científico estava acima de tudo (inclusive das pessoas). Eu falhei inúmeras vezes tentando impor aos meus pacientes aquilo que eu achava que era o certo e que era o melhor pra eles. Mas eu fazia isso sem ouvi-los, sem considerá-los e sem entender quais eram suas expectativas diante de um diagnóstico e de um tratamento”.

A médica ainda ressalta que não há uma receita de bolo e uma resposta pronta para tornar-se um profissional melhor, mas reconhecer diversos fatores que afastam médicos dos seus pacientes é o primeiro passo para se colocar no lugar deles e praticar a empatia.

3. Além da romantização: a realidade e as possibilidades do SUS 

Certamente, você, profissional de saúde, pode estar se questionando sobre como é possível fazer mudanças diante da realidade complexa do SUS, já que nem tudo são flores. De fato, há muitos desafios, mas desenvolver a capacidade de se conectar e ouvir o seu paciente e usar os recursos disponíveis é algo que já pode fazer muita diferença. 

Isso pode parecer difícil em um primeiro momento… Porém, novamente, Julia nos dá uma aula sobre o assunto:

“Se a gente tem porta dentro do nosso consultório, dá pra gente fechar a porta e garantir a privacidade do nosso paciente… então por que a gente insiste em atender o paciente com a porta aberta? [....] Se a gente tem lençol, por que ainda não cobrimos o corpo da mulher nua que será examinada? [...] Dá pra gente chamar o nome, o nome que a pessoa deseja ser chamada. Dá para respeitar a autonomia da pessoa. Dá pra gente entender que o caminho da pessoa é só dela e ela tem uma capacidade incrível de ressignificar sua história, sua existência”.

Inspire-se

Sem mais delongas, convidamos você para assistir a palestra na íntegra. Temos certeza que seus minutos valerão muito a pena. Aperte o play:

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Referências

  1. TEDxLaçador. O SUS e a humanização da saúde. Disponível em Youtube. Acesso em 24/02/2022

  2. COSTA, Ana Maria; NORONHA, José Carvalho de; NORONHA, Gustavo Souto de Noronha Barreiras ao universalismo do sistema de saúde brasileiro. In: HENRION, Carolina Tetelboin; LAURELL, Asa Cristina. Por el derecho universal a la salud: una agenda latinoamericana de análisis y lucha. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2015.

 

Academia Médica
Bruna Martins Oliveira
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Jornalista graduada pela PUCPR e Mestranda em Informação e Comunicação em Saúde pelo PPGICS da Fiocruz. Atualmente, pesquiso sobre saúde mental, mulheres e redes de apoio e comunicação.

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