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Parar ou não uma luta? Saiba qual o papel do médico nos esportes de combate

Parar ou não uma luta? Saiba qual o papel do médico nos esportes de combate

O papel dos médicos nos esportes de combate – como Boxe, MMA, Judô, Taekwondo, Jiu-Jitsu, Karatê, entre outros – foi tema de uma reportagem publicada pelo New York Times no último dia 29 de julho. No texto, o jornal aborda o dilema ético dos profissionais de saúde diante da decisão de parar ou não uma luta em função das condições físicas de um ou de ambos os lutadores e do desejo dos mesmos de levar um combate até o final, manifesto após longos períodos de treinos e preparações.

“Os esportes de combate são movidos pela excitação de um equilíbrio instável. Em uma luta perfeitamente pareada, os combatentes trocam golpes até o gongo final, trazendo seus corpos o mais próximo possível de seus limites... Árbitros, muitas vezes ex-lutadores ou treinadores, podem parar uma luta se acharem que um lutador está muito ferido para se defender. Assim como os médicos do ringue, que determinam se os lutadores estão aptos a entrar no ringue e permanecer lá. Nos esportes de combate, os médicos têm que contar com a ética precária de seu papel”, diz a reportagem.

Para falar sobre o assunto e explicar o papel do médico nas competições de luta, a Academia Médica convidou o ortopedista Daniel Carvalho, que é Médico do Esporte e atua na área de traumatologia. Ele também é um dos fundadores da Comissão Atlética Brasileira de MMA e integrante do comitê médico da entidade desde o seu início, há dez anos.

Segundo Daniel, todo esporte de combate deveria ter um médico de prontidão durante as competições. Porém, não existe regulamentação nacional ou internacional para isso, sendo que cada país tem uma legislação e regras próprias para a realização de eventos esportivos.

Quando o médico se faz presente na vida dos atletas, ele geralmente é um ortopedista. Porém, o ideal é que os lutadores sejam atendidos por uma equipe multidisciplinar que inclua neurologista, cirurgião plástico, clínico geral e médicos do esporte.

“Eventos maiores - como UFC, Federação Internacional de Boxe e Aiba (Associação Internacional de Boxe) - possuem critérios rigorosos para liberação dos atletas para lutar. Nos Estados Unidos, quem chancela são as comissões atléticas de cada estado, já que a lei lá exige isso. Aqui no Brasil, no MMA, a comissão atlética usa os mesmo protocolos e critérios rigorosos do UFC nos eventos em que é procurada para chancelar”, explica.

Antes de liberar um atleta para o ringue, os integrantes da comissão seguem um protocolo extenso de solicitação de exames, que incluem desde ressonância magnética de crânio até testes sorológicos, como de HIV e hepatites. Após liberado para lutar, o atleta passa, no dia anterior à competição, por exame clínico para avaliação de suas condições.

“No dia da luta, acompanhamos todos os combates, realizando os atendimentos necessários no ringue ou octógono, seguindo protocolos já preestabelecidos. Após o término do combate, realizamos uma avaliação criteriosa para orientar tratamentos necessários e também por quanto tempo aquele atleta deve ficar afastado de combates e de treinos para recuperação”, comenta Daniel.

Sobre interrupções de combates devido às condições de saúde dos atletas, o ortopedista explica que elas geralmente acontecem por solicitações dos árbitros, quando os mesmos identificam necessidade de avaliação do bem-estar dos lutadores. Em análise ao conteúdo da reportagem publicada pelo New York Times, Daniel diz que a interrupção não deve gerar conflito ao profissional médico em atividade nos ringues quando o mesmo é bem orientado. “Eu e os demais médicos que integram a Comissão Atlética Brasileira não enfrentamos conflitos, pois somos respaldados pela entidade da qual fazemos parte e seguimos todos os protocolos”.

Os cortes e contusões fazem parte da rotina dos atletas de combate e ocorrem principalmente em função de treinamento. Os ferimentos mais preocupantes geralmente são os que atingem a região da cabeça, causando lesões de face. Muitas vezes, eles podem deixar sequelas estéticas e irreversíveis. O risco de morte entre os combatentes existe, mas mais uma vez Daniel cita a necessidade de protocolos rigorosos para que ele seja minimizado.

“Os protocolos não devem envolver apenas a equipe médica, mas fundamentalmente a equipe de arbitragem, também treinada para identificar o sinal vermelho durante os combates”, afirma. “O esporte sempre será benéfico desde que bem planejado e orientado. O esporte de rendimento, de uma forma geral, é sofrido para o atleta, já que exige muita dedicação, foco e abdicação de outras coisas boas da vida. São escolhas de cada um”.

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Dilemas éticos na Medicina Esportiva

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