Um estudo de grande escala, publicado na Science em 4 de setembro de 2025, trouxe evidências robustas de que a exposição prolongada a poluentes atmosféricos finos (PM2.5) está associada ao aumento do risco de demência por corpos de Lewy, a terceira forma mais comum de demência, depois do Alzheimer e da demência vascular.
A demência por corpos de Lewy é um termo guarda-chuva que engloba duas condições:
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Demência com corpos de Lewy (DCL)
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Doença de Parkinson com demência (PDD)
Ambas são caracterizadas pelo acúmulo da proteína α-sinucleína (αSyn) em forma de agregados, chamados corpos de Lewy, nos neurônios. Esse processo leva à disfunção e morte celular, comprometendo memória, cognição e movimento.
O estudo em números
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População analisada: 56,5 milhões de pessoas, com dados hospitalares de 2000 a 2014.
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Achados principais:
- Exposição prolongada a PM2.5 esteve ligada a um aumento de 12% no risco de hospitalização por demência com corpos de Lewy grave.
- Pessoas em áreas com maior concentração de poluição apresentaram risco significativamente mais alto de desenvolver Demência com corpos de Lewy ou Doença de Parkinson com demência, em comparação com Parkinson sem demência.
Evidências em modelos animais
Para compreender os mecanismos biológicos, a equipe expôs camundongos a partículas PM2.5 por dez meses. Os resultados foram impressionantes:
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Déficits de memória e aprendizado em testes de labirinto e reconhecimento de objetos.
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Atrofia do lobo temporal medial, região crítica para memória.
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Aumento do acúmulo de α-sinucleína no cérebro.
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Presença de agregados de α-sinucleína também no intestino e nos pulmões, indicando que a via intestino–cérebro pode ser um caminho de propagação da doença.
Curiosamente, camundongos geneticamente modificados para não produzir α-sinucleína não apresentaram essas alterações, reforçando que a proteína é indispensável para o processo neurodegenerativo.
Como a poluição pode acelerar a demência?
O estudo sugere três mecanismos principais:
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Inflamação pulmonar: partículas de PM2.5 se acumulam nos pulmões, promovendo inflamação crônica.
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Entrada na circulação: essas partículas atravessam a barreira pulmonar e entram na corrente sanguínea.
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Invasão do cérebro: PM2.5 consegue cruzar a barreira hematoencefálica, estimulando a agregação de α-sinucleína e acelerando a neurodegeneração em pessoas predispostas.
Fonte: Fieldhouse, R.;2025 - Nature
Além disso, a comparação entre a expressão gênica em cérebros de camundongos expostos e em pacientes humanos com Demência com corpos de Lewy mostrou grande semelhança nos padrões moleculares, mas não nos casos de Parkinson sem demência. Isso reforça que a poluição não causa diretamente a doença, mas acelera seu desenvolvimento em indivíduos geneticamente vulneráveis.
Limitações e próximos passos
Os pesquisadores destacam que, em animais, a exposição foi feita em doses altas e em um período curto, diferente da exposição contínua e de baixa dose vivida por humanos. Para avançar, o grupo planeja:
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Simular exposições mais realistas em laboratório.
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Investigar quais moléculas específicas de PM2.5 têm maior potencial neurotóxico.
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Explorar estratégias de prevenção e mitigação.
Essa pesquisa amplia a compreensão da relação entre poluição do ar e doenças neurodegenerativas, destacando que a qualidade do ar é também um determinante neurológico de saúde. Políticas ambientais mais rigorosas podem reduzir não apenas doenças respiratórias e cardiovasculares, mas também o risco de demência em milhões de pessoas.
Referência:
Fieldhouse, R. (2025, September 4). Air pollution directly linked to increased dementia risk. Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-025-02844-9





