Um estudo publicado no JAMA Network Open acompanhou, ao longo de 30 anos (1992–2022), a evolução da composição corporal e dos fatores de risco cardiometabólico em crianças espanholas de 8 a 11 anos da cidade de Cuenca. O objetivo foi entender como o peso, o perfil lipídico, a glicemia e a pressão arterial têm se comportado nas últimas décadas e o que isso significa para a prevenção das doenças cardiovasculares do futuro.
🧠 Aterosclerose: uma doença que começa cedo
A aterosclerose cardiovascular continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. Embora seus sintomas apareçam apenas na vida adulta, as bases fisiológicas da doença são frequentemente lançadas na infância, quando surgem alterações metabólicas relacionadas a excesso de peso, má alimentação e sedentarismo.
O estudo reforça que os fatores de risco cardiometabólico (como colesterol elevado, resistência à insulina e hipertensão) são fortemente influenciados por comportamentos modificáveis e, portanto, preveníveis desde cedo.
📈 O que mudou em 30 anos
Os dados revelam uma mudança de tendência importante:
🔹 Aumento do peso normal: pela primeira vez desde os anos 2000, o percentual de crianças com peso normal voltou a crescer.
🔹 Estabilização da obesidade: após décadas de alta, as taxas de sobrepeso e obesidade parecem ter atingido um platô em torno de 30%.
🔹 Queda do baixo peso: a prevalência de baixo peso diminuiu após um pico em 2018.
Esses achados indicam que as ações de promoção da alimentação saudável e atividade física implementadas na Espanha e na União Europeia podem estar produzindo efeitos positivos.
❤️ Padrões cardiometabólicos mais saudáveis
Apesar das taxas elevadas de sobrepeso, o estudo observou melhoras consistentes nos níveis de colesterol e pressão arterial das crianças ao longo do tempo.
Em especial:
- Triglicerídeos (TG) e colesterol remanescente retornaram a valores próximos aos do início da década de 1990, após piorarem no período da crise econômica de 2008 — associada a piora da alimentação e aumento das desigualdades sociais.
- Pressão arterial média apresentou redução sustentada.
Esses resultados são coerentes com tendências observadas em países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, onde melhorias nos perfis lipídicos foram relatadas mesmo diante do aumento da adiposidade.
⚠️ O sinal de alerta: aumento da insulina
O dado mais preocupante é o aumento progressivo dos níveis de insulina plasmática, indicador sensível de resistência à insulina mesmo em crianças com glicemia normal.
Essa tendência sugere que, embora a pressão e o colesterol estejam sob controle, os riscos metabólicos relacionados ao estilo de vida moderno persistem, exigindo atenção especial ao consumo de ultraprocessados, ao sedentarismo e ao sono infantil.
🌍 Contexto europeu e implicações em saúde pública
Os resultados da pesquisa espanhola se alinham aos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que mostram estabilização das taxas de obesidade em crianças do sul da Europa (Espanha, Portugal, Itália, Grécia e Eslovênia).
A comparação com o estudo ALADINO 2023 (referência nacional espanhola) confirma que as taxas de sobrepeso e obesidade vêm caindo desde 2019, embora ainda em níveis preocupantes.
A combinação de ambos os estudos fornece uma mensagem positiva: as políticas de nutrição e atividade física infantil estão funcionando mas precisam ser mantidas e ampliadas.
🩺O estudo conclui que, embora o excesso de peso continue sendo um problema de saúde pública, os perfis lipídico e pressórico das crianças estão melhorando, o que pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares futuras.
Entretanto, o aumento da insulina serve como alerta precoce para resistência à insulina e diabetes tipo 2, reforçando a necessidade de maiores intervenções quanto alimentação equilibrada, sono de qualidade e atividade física regular desde os primeiros anos de vida.
Referência:
Sequí-Domínguez I, Sánchez-López M, Garrido-Miguel M, et al. Body Composition and Cardiometabolic Risk in Children. JAMA Netw Open. 2025;8(10):e2535004. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.35004






