Em 2023, mais de 41 mil pessoas com 65 anos ou mais morreram em decorrência de quedas nos Estados Unidos. O número é alarmante: supera as mortes por câncer de mama ou de próstata e também ultrapassa o total de óbitos causados por acidentes de trânsito, overdoses de drogas e todas as demais lesões não intencionais somadas. Ainda mais preocupante é que a taxa de mortalidade por quedas triplicou nos últimos 30 anos nos EUA, enquanto em outros países de alta renda essa taxa diminuiu no mesmo período.
Por que os idosos estão morrendo mais de quedas?
Historicamente, fatores como fragilidade física, problemas de equilíbrio, visão, declínio cognitivo, consumo de álcool, viver sozinho e ambientes domésticos inseguros sempre estiveram associados às quedas. Porém, esses fatores não se alteraram significativamente nas últimas décadas a ponto de justificar a escalada atual de mortes.
O estudo aponta outro responsável: a medicalização excessiva e o uso de fármacos que aumentam o risco de quedas, os chamados FRIDs (Fall Risk–Increasing Drugs).
FRIDs: medicamentos que aumentam o risco de quedas
Entre 2017 e 2020, 90% dos adultos acima de 65 anos nos EUA tomavam medicamentos prescritos. Desses, 43% usavam múltiplas prescrições e 45% faziam uso de fármacos potencialmente inapropriados para a idade.
Os FRIDs incluem uma lista extensa de medicamentos, desde betabloqueadores até anticolinérgicos e inibidores da bomba de prótons. No entanto, quatro classes do sistema nervoso central são particularmente preocupantes:
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Opioides – cuja prescrição aumentou desde os anos 1990, em paralelo à escalada de mortes por quedas.
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Benzodiazepínicos – amplamente usados a partir dos anos 2000; em 2009-2010, quase 20% dos maiores de 85 anos receberam prescrição.
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Gabapentinoides – ganharam espaço após a queda da prescrição de opioides, frequentemente utilizados off-label para dor crônica. Entre 2006 e 2018, o uso quadruplicou.
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Antidepressivos – o consumo entre idosos acima de 65 anos passou de 8% em 1999 para 20% pouco antes da pandemia de COVID-19.
Uma revisão sistemática citada no estudo mostrou que entre 65% e 93% dos idosos que sofreram quedas estavam usando ao menos um desta classe de medicamentos no momento do acidente. Muitos deles, inclusive, em combinação de dois ou mais fármacos.
O paradoxo da prescrição
A American Geriatrics Society alerta há anos para os riscos desses medicamentos em idosos e recomenda fortemente evitar benzodiazepínicos, muitos antidepressivos e, principalmente, as combinações entre opioides, benzodiazepínicos e gabapentinoides. Apesar disso, a prática clínica mostra o contrário: as taxas de prescrição seguem elevadas.
Vale ressaltar que:
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Opioides não são mais eficazes que outros medicamentos mais seguros para dor crônica.
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Benzodiazepínicos não são recomendados em idosos, mas ainda assim chegam a quase 20% de prescrição em pessoas muito idosas.
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Antidepressivos são úteis em depressões graves, mas dificilmente justificam o uso em 1 a cada 5 idosos.
O estudo reforça que não é preciso esperar novos ensaios clínicos para agir. Revisar prescrições em idosos e interromper medicamentos desnecessários é urgente. No entanto, até hoje, as revisões médicas isoladas não reduziram quedas, possivelmente pela resistência dos próprios prescritores em suspender os fármacos.
A solução, segundo os autores, passa por medidas sistêmicas e organizadas, aproveitando o uso de prontuários eletrônicos e grandes redes de saúde:
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Monitorar automaticamente os pacientes idosos em uso de medicamentos de risco.
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Enviar feedback aos prescritores com alertas e alternativas terapêuticas mais seguras.
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Inserir indicadores de redução destes medicamentos como métricas de qualidade assistencial incentivadas.
O aumento das mortes por quedas em idosos nos EUA não pode ser visto apenas como um reflexo do envelhecimento populacional. Pelo menos dois terços desses óbitos (mais de 25 mil por ano) poderiam ser prevenidos. O estudo é um chamado à ação: a medicina organizada precisa enfrentar a epidemia de prescrições de risco e proteger os idosos de quedas fatais.
Referência:
Farley TA. Risky Prescribing and the Epidemic of Deaths From Falls. JAMA Health Forum. 2025;6(8):e253031. doi:10.1001/jamahealthforum.2025.3031






