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Quando o hormônio do estresse impede lembrar: descobertas de Dominique de Quervain

Quando o hormônio do estresse impede lembrar: descobertas de Dominique de Quervain
Comunidade Academia Médica
fev. 7 - 4 min de leitura
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Situações de estresse são frequentemente acompanhadas por lapsos de memória, enquanto momentos marcantes de tensão emocional ficam gravados com nitidez por toda a vida.  Esse aparente paradoxo tem relação direta com o cortisol, hormônio liberado quando o organismo precisa mobilizar energia para enfrentar um desafio.  Quando a liberação desse hormônio coincide com o momento da evocação, a lembrança de informações aprendidas recentemente diminui de forma acentuada.  

Observações controladas com administração de cortisona que se converte em cortisol mostraram que, uma hora após a ingestão, o desempenho em provas de recuperação de palavras cai drasticamente, mas o reconhecimento e a atenção permanecem preservados .  Quando a mesma dose é administrada antes de estudar ou logo depois, não há prejuízo na recordação 24 horas depois .  Esses dados sugerem que o hormônio interfere seletivamente na fase de recuperação da memória declarativa, sem afetar a aquisição nem a consolidação das informações.

A influência do cortisol na memória pode ser vista como uma balança com dois pratos.  De um lado, níveis elevados dessa substância no momento da evocação dificultam a recuperação de informações armazenadas, levando aos “brancos” que muitos experimentam em provas ou entrevistas.  De outro, o mesmo estado fisiológico fortalece o registro da experiência estressante, gravando detalhes emocionais com intensidade.  No hipocampo, região cerebral crucial para a memória, os receptores de glicocorticoides modulam essa balança; quando ativados durante a recuperação, reduzem temporariamente a capacidade de acesso a memórias recentes, mas facilitam a consolidação de novas memórias emocionais .  Esse mecanismo dual pode explicar por que, após um episódio estressante, é difícil lembrar o conteúdo estudado, mas a sensação de ansiedade ou medo torna‑se inesquecível.  

Em situações de estresse induzido de forma natural, como no Trier Social Stress Test, níveis aumentados de cortisol também reduzem a recordação livre de palavras aprendidas no dia anterior, especialmente quando as palavras têm conteúdo emocional, sem alterar a memória de trabalho ou a atenção .  A diferença observada na proporção de palavras esquecidas reflete a magnitude desse efeito: indivíduos sob efeito de cortisona chegam a esquecer mais de 60 % do material aprendido, enquanto aqueles na condição de repouso esquecem cerca de 30 % .  Esses números reforçam a ideia de que a interferência do cortisol não se trata de mera distração, mas de um ajuste fisiológico que prioriza recursos para lidar com o estressor presente.

A compreensão do papel do cortisol na memória traz implicações práticas para a educação, a justiça e a clínica.  É preciso reconhecer que situações avaliativas ou depoimentos prestados sob pressão podem resultar em falhas de evocação não por falta de estudo, mas porque o organismo, inundado por hormônios do estresse, restringe temporariamente o acesso às informações.  Ao mesmo tempo, essa mesma resposta fortalece a memória do próprio evento estressante, um mecanismo que pode ter valor adaptativo ao ajudar a evitar perigos futuros.  Estratégias que reduzam a tensão no momento da recuperação, como ambientes acolhedores e treinamento em manejo de ansiedade, podem melhorar o desempenho e a precisão da lembrança.  

Em contextos clínicos, a dualidade do cortisol ajuda a explicar por que experiências traumáticas persistem como memórias intrusivas enquanto novos aprendizados são prejudicados.  Compreender que o hormônio do estresse apaga o que acabamos de aprender para gravar a própria tensão abre espaço para intervenções que respeitem essa biologia e otimizem o funcionamento cognitivo.

*Texto elaborado por Felipe Ricardo

Referências:

1. de Quervain DJ‑F, Roozendaal B, Nitsch RM, McGaugh JL, Hock C. Acute cortisone administration impairs retrieval of long‑term declarative memory in humans. Nature Neuroscience. 2000 Apr;3(4):313‑314. doi:10.1038/73873 .

2. de Quervain DJ‑F, Henke K, Aerni A, Treyer V, McGaugh JL, Berthold T, Nitsch RM, Buck A, Roozendaal B, Hock C. Glucocorticoid‑induced impairment of declarative memory retrieval is associated with reduced blood flow in the medial temporal lobe. European Journal of Neuroscience. 2003 Mar;17(6):1296‑1302. doi:10.1046/j.1460‑9568.2003.02542.x .

3. Kuhlmann S, Piel M, Wolf OT. Impaired memory retrieval after psychosocial stress in healthy young men. Journal of Neuroscience. 2005 Mar 16;25(11):2977‑2982. doi:10.1523/JNEUROSCI.5139‑04.2005 .

4. de Quervain DJ‑F, Roozendaal B, McGaugh JL. Stress and glucocorticoids impair retrieval of long‑term spatial memory. Nature. 1998 Aug 20;394(6695):787‑790. doi:10.1038/29542 

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