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Relaxa aí! Seu sistema imune agradece

Relaxa aí! Seu sistema imune agradece

O que não faltam são matérias dizendo o que você pode tomar para "melhorar" seu sistema imune. E precauções com o seu estilo de vida e nível de estresse, você está tomando também?

O mal invisível

Quando comecei a me especializar em modelos computacionais, nunca pensei que aprenderia tanto sobre estresse. Não apenas por trabalhar sob estresse constante, mas porque eu estudava justamente a relação deste com a origem do comportamento depressivo. Com o avançar das leituras, fui tendo uma melhor noção de como o cortisol, o hormônio do estresse, atua em diversos sistemas do nosso corpo e se relaciona com distúrbios psiquiátricos, doenças cardíacas, diabetes, câncer, dentre outros.

Atualmente, estamos vivenciando uma pandemia de SARS-CoV-2 em uma proporção até então nunca presenciada por nossa geração ou pela de nossos pais (estou falando o óbvio apenas para contextualizar o leitor do futuro). Mais do que nunca estamos preocupados em como nosso sistema imune vai responder ao vírus, se seremos assintomáticos, se os sintomas vão se agravar, se nós ou nossos entes queridos estamos mais propensos a... morrer.

Ao mesmo tempo que acompanhamos as notícias com certo frenesi, aprendemos o abecedário das vitaminas, tentamos tomar um pouco de sol, usamos álcool gel, máscaras (aliás, não basta apenas desfilar com elas por aí, aprenda a suar direito!), enfim, tomamos todas as precauções possíveis para garantir que não seremos infectados pelo vírus ou que, caso sejamos, nosso sistema imune responda da melhor forma possível.

Mas… e o estresse? Já parou para pensar em como ele afeta seu sistema imune?

Se o leitor já estudou imunologia, pode até não se recordar que a resposta imune a vírus é mediada por células CD8 citotóxicas e natural killers, mas certamente se lembra que os mecanismos de ativação e regulação são bastante complexos e não muito triviais. Agora, se você não faz ideia do que estou falando ou nunca vai precisar estudar a famosa "imuno", vou te poupar desse trauma e ir direto ao ponto: estresse em excesso debilita seu sistema imune.

Estresse faz parte da vida

Antes de mais nada, creio que seja ponto pacífico que estamos todos submetidos a pequenos estresses cotidianos, os chamados estresses agudos. Mesmo que seja curta, essa resposta mobiliza os recursos do nosso corpo para lidar com o estímulo estressor. Mais do que apenas liberar cortisol e adrenalina e lhe preparar para lutar ou fugir, as células do sistema imune também são mobilizadas, bem como o nível de citocinas pró-inflamatórias, para conter possíveis danos decorrentes desse estresse [1, 2].

Isso mesmo que você entendeu: existe uma resposta inflamatória quando você se estressa. Seu corpo "não sabe a diferença" entre estar infectado com uma bactéria ou um vírus e estar sob estresse psicológico (claro que os processos são diferentes, mas o fato é que ambas desencadeiam quadros inflamatórios).

Antes de continuar, gostaria de pontuar que há quem discorde de mim quando uso o termo "estresse psicológico". Rebatem dizendo que todo estresse é biológico e que isso de "psicológico" não existe. Concordo que toda resposta ao estresse terá um efeito biológico, mas o gatilho é diferente entre diferentes pessoas. Afinal, a maneira com que seus neurônios formaram sinapses ao longo da sua vida é diferente da dos meus. As coisas ou situações em si não possuem necessariamente um sentido bom ou ruim, a gente é que vai fazendo atribuições de significado a elas conforme nossas experiências. Justamente por isso que você pode ter fobia de lugares fechados enquanto isso não é uma questão para mim.

Dito isso, voltemos…

Essa resposta inflamatória devido ao estresse agudo é curta, pois entre gastar energia para combater um (possível) patógeno ou capacitar você a fugir de um tigre, é claro que a segunda opção faz mais sentido em termos evolutivos. De acordo com a médica Alka Gupta [3]:

"Quando a resposta de luta ou fuga é evocada, seu corpo redireciona os recursos das funções que não são cruciais em situações de ameaça à vida. [...] As citocinas inflamatórias fazem o que têm que fazer e 'desaparecem'."

Seja para combater uma infecção, seja em virtude de uma situação de estresse pontual, uma inflamação relativamente curta é aceitável e fisiológica. Entretanto, quando o estresse é constante (já falei do impacto dele na concentração e produtividade neste texto), a coisa muda de figura.

Estresse crônico não deveria fazer parte da sua vida

Quando a exposição ao estresse é frequente, o sistema de controle do cortisol (feedback negativo do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal) vai perdendo a capacidade de suprimir a secreção desse hormônio. Como consequência, apesar do cortisol ser classicamente descrito como anti-inflamatório, algumas células vão perdendo a sensibilidade a ele e o nível de citocinas inflamatórias tende a aumentar, causando efeitos danosos ao organismo [1].

Os mecanismos biológicos exatos de muitas condições inflamatórias relacionadas ao estresse ainda são desconhecidas, mas muitas delas têm em comum um nível basal e crônico de inflamação [3].

Em se tratando de COVID-19, sabemos que os grupos de risco para um prognóstico ruim incluem idosos, obesos, hipertensos e diabéticos. Curiosamente, é descrito na literatura que indivíduos desses grupos apresentam processos inflamatórios crônicos e, em alguns casos, descompensados [1]. Coincidência?

Fato é que com um sistema imune "exausto" ou desregulado ficamos mais suscetíveis a diversas doenças. E, neste texto, reforço que o estresse também contribui para isso. Aliás, há estudos que mostram que os altos níveis de cortisol contribuem tanto para a queda de linfócitos circulantes quanto para uma diminuição na produção de anticorpos devido à vacinação [4, 5].

Mesmo que nossos gatilhos psicológicos sejam diferentes para algumas situações, todos apresentamos um comportamento chamado viés de negatividade, ou seja, somos mais afetados por notícias negativas ou críticas do que por estímulos agradáveis [6].

A principal estrutura cerebral responsável por esse efeito é a amígdala cerebral, uma região primitiva associada às emoções e ativada sempre que você está diante de uma situação de medo e ameaça. E ela fica ali "coladinha" com o hipocampo, estrutura responsável pelo registro das memórias de longo prazo (falei dele neste texto aqui). É por isso que somos mais propensos a registrar eventos traumáticos em detrimento de momentos felizes. E isso é instintivo. Evolutivamente, faz todo o sentido: o cérebro tem que se focar mais nos potenciais riscos à nossa sobrevivência do que com a borboleta pousando sobre uma flor.

Sendo assim, ficar exposto a quantos morreram hoje, quantos podem morrer amanhã ou daqui a um mês, se você vai ou não se infectar, o que vai acontecer com a economia, guerras político-ideológicas tendo a pandemia como pano de fundo… Honestamente, ficar "ligado" nisso tudo em um estado de alerta constante só atrapalha e deixa seu sistema imune mais vulnerável.

Do jeito que eu falo, parece que o cérebro tem vontade própria, não é? Por mais que algumas de nossas ações ocorram segundo mecanismos involuntários e inconscientes, o que nos difere como seres humanos é nossa capacidade de racionalizar e de tomar decisões em direção a um novo estado mental.

Não tem fórmula mágica

Se você ainda é dos que acreditam que os impactos psicológicos na sua saúde não são relevantes e que são apenas bobagem ou "frescura", o efeito placebo em estudo clínicos está aí pra te mostrar que seus conceitos precisam ser revistos.

Falando em estudos clínicos, embora existam estratégias medicamentosas para aliviar o estresse, não há pílula mágica que nos exima de situações de estresse. (In)felizmente evitar a exposição crônica ao estresse ou aprender a lidar adequadamente com ele, ressignificá-lo, é uma decisão! É sempre bom lembrar que nosso cérebro é plástico e que se adapta às mais diversas situações, mesmo às adversas. É um exercício que requer constância. Claro que nem sempre é possível fugir de situações de estresse: o programa que você vai ver na sua TV ou o jornal que você vai ler são escolhas suas, mas, às vezes, sair do ambiente de trabalho tóxico (ainda) pode não ser uma opção.

Pareço estar falando obviedades, não é? Quem nunca ouviu que precisa controlar o estresse?

Entretanto, por ser um mal dito invisível e com efeitos de longo prazo, vamos nos atendo ao que é mais urgente e que, objetivamente, traz resultados mais rápidos e visíveis. Não dormimos direito para dar conta da rotina de produtividade que a faculdade ou o trabalho exigem (afinal, enquanto você dorme seu concorrente está estudando), não praticamos exercícios pela falta de tempo, não separamos um momento adequado para as refeições (e quando o fazemos, podem não ser das mais saudáveis), enchemos a agenda com infinitas reuniões infinitas, e por aí vai. 

Quando menos esperamos, os danos aparecem e podem ser irreversíveis.

Não pretendo ser repetitivo quanto ao que pode ser feito para aliviar o estresse. Todo mundo já sabe que meditação, exercícios e sono adequado são o básico.

Não sabe meditar, não tem tempo ou se acha muito agitado(a) para isso? Desculpe, mas é conversa fiada. Meditar passa por não ficar se julgando e se punindo por não conseguir se concentrar. Sua associação de meditação com se tornar um monge zen-budista também está equivocada. Há técnicas de meditação que focam na respiração, podem ser feitas em qualquer lugar e duram menos de 10 min.

Não tem tempo pra ir à academia? A quarentena permitiu uma grande popularização de personal trainers e aplicativos com séries de exercícios online aos montes, para todos os gostos e idades, e que podem ser feitos em casa em até 10 min.

Não consegue dormir? Sair da tela do computador ou do celular e simplesmente fechar o olho não basta para seu cérebro "desligar".

Espero que tenha ficado claro ao longo do texto que nem a ausência de resposta imune e nem uma resposta imune exacerbada ou desregulada são desejáveis, vide os casos de tempestade de citocinas [7]. Como praticamente tudo no nosso organismo, é preciso haver equilíbrio e autocontrole. Essa é a filosofia do nosso corpo.

E o coronavírus? Em se tratando de imunidade, ainda não temos muitas respostas, mas elas estão vindo à medida que as pesquisas avançam. Bem ou mal nossa espécie sobreviverá a esse vírus e a grande maioria de nós passará ileso, em algum grau, por tudo isso. A quarentena está nos dando um certo tempo para fazermos a pergunta correta:

"Seu estilo de vida se preocupa só em não morrer agora ou em viver melhor a cada dia?"

 

Referências

  1. MOREY, Jennifer N. et al. Current directions in stress and human immune function. Current opinion in psychology, v. 5, p. 13-17, 2015.
  2. LIU, Yun-Zi; WANG, Yun-Xia; JIANG, Chun-Lei. Inflammation: the common pathway of stress-related diseases. Frontiers in human neuroscience, v. 11, p. 316, 2017.
  3. SCHIPANI, Denise. Here’s How Stress and Inflammation Are Linked. Disponível em: https://www.everydayhealth.com/wellness/united-states-of-stress/link-between-stress-inflammation/. Acesso em: 20 de abril de 2020.
  4. MCGREGOR, Bonnie A. et al. Stress, cortisol, and B lymphocytes: a novel approach to understanding academic stress and immune function. Stress, v. 19, n. 2, p. 185-191, 2016.
  5. CLEVELAND Clinic. What Happens When Your Immune System Gets Stressed Out? Disponível em: https://health.clevelandclinic.org/what-happens-when-your-immune-system-gets-stressed-out/. Acesso em: 21 de abril de 2020.
  6. CHERRY, Kendra. What Is the Negativity Bias? Disponível em: https://www.verywellmind.com/negative-bias-4589618. Acesso em: 21 de abril de 2020.
  7. PEDMED. A Tempestade Imunológica da COVID-19. Disponível em: https://pebmed.com.br/a-tempestade-imunologica-da-covid-19/. Acesso em: 21 de abril de 2020.

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Felipe Dalvi
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Engenheiro biomédico, doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Sou colunista do Alpha Squad e entusiasta da visão integrada entre mente e corpo.

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