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Sistema Ganha-Ganha, só que não!

Sistema Ganha-Ganha, só que não!

Em mais de 20 anos trabalhando em gestão de saúde, atuei com muitos gestores de planos de saúde, auditores, profissionais de RH, corretores, fornecedores e prestadores de serviços.

Em conversa com esses profissionais, percebo sempre que há uma busca incessante por redução de custos e por estratégias que minimizem desperdícios.

Muitas estratégias já foram implementadas nas últimas décadas, como criação de auditorias especializadas, glosas contratuais, cobrança eletrônica de prestadores (médicos e hospitais), co-pagamento, homecare, programas de gerenciamento de pacientes crônicos, serviços de Primary Care, serviços de atendimento pré-hospitalar, accountable care, rede própria de assistência, orientação médica 24h, medicina baseada em evidências etc.

Na verdade, tudo o que se espera, independente do player dessa cadeia do setor, é que os gastos em Saúde sejam bem utilizados e sem desperdícios.

E sempre vem à cabeça o motivo de alguém usar seu plano de saúde sem precisar. Por que algum paciente faria um procedimento ou cirurgia sem necessitar? Por que algum médico prescreveria algo sem necessidade? Por que um hospital seguraria um paciente mais tempo que o necessário internado? Por que não autorizariam uma terapia para um paciente que precise?

Não seria interessante um plano de saúde no qual tudo fosse liberado automaticamente, sem burocracias, sem pedidos especiais e relatórios? E nesse mesmo plano, que tivessem médicos com bons conhecimentos e interessados em ouvir seus pacientes e apenas atendê-los com o necessário, sem interesses financeiros? E se os beneficiários se cuidassem, preocupados com sua saúde e longevidade, tivessem uma boa alimentação, realizassem atividades físicas regulares, não fumassem, tivessem uma vida equilibrada? E se os hospitais fossem utilizados apenas para casos de urgência com tratamentos mais complexos e eficazes e encaminhassem para clínicas especializadas, os seus pacientes crônicos para acompanhamento e educação em saúde?

Podem dizer que estou sonhando, mas estas são as condições básicas para que o sistema de saúde privado funcione bem e sem preocupações com o seu financiamento e custeio.

As empresas não se preocupariam com afastamentos de seus funcionários, absenteísmos e custos elevadíssimos do benefício à saúde. Poderiam até pensar em outros benefícios acessórios para seus empregados aumentando assim sua retenção.

As operadoras de planos de saúde teriam estruturas de funcionários e de controles bem menores, conseguiriam pagar bem melhor seus prestadores da rede assistencial, pois conseguiriam fechar suas contas e devolver aos seus acionistas valores desejáveis. Poderiam oferecer tecnologias melhores e planos internacionais sem custos adicionais.

Os profissionais de saúde receberiam valores adequados pelos seus serviços, poderiam ter tempo para uma formação continuada adequada e melhores resultados com seus pacientes. Esses mesmos pacientes seriam bem assistidos e todos viveriam mais felizes.

"Mas, só que não". Como cada player tem que garantir o seu, continuamos a viver nossas vidas profissionais de caças às bruxas. Criamos estratégias de resistência a todos os momentos e formas de nos proteger de novidades ruins, processos judiciais, aumentos de mensalidades, glosas indevidas, negativas de procedimentos que nem deveriam ter sido solicitados, por uso de tecnologias experimentais e inseguras com custos estratosféricos que engordam bolsos de profissionais e hospitais inidôneos.

Acredito que as tecnologias futuras terão este papel na sociedade, de entregar o valor das coisas a um custo muito menor e com muito mais praticidade. Tecnologias essas que simplificarão processos, deixarão mais claros onde se concentram os custos, apresentarão de forma transparente os resultados aos pacientes e construirão relações entre prestadores e pagadores mais honestas e justas.

As novas tecnologias de gestão de saúde que envolvem e engajam o paciente em seus cuidados, mostrando o que podem fazer pela sua saúde são uma saída transparente para eliminar custos desnecessários. Tecnologias baseadas em evidências para comparação de resultados podem facilitar as escolhas de procedimentos e tratamentos melhores.

Tecnologias que evitem hospitalização de pacientes e diminuam exacerbações clínicas também são soluções de economia. Evitar deslocamentos desnecessários, evitar exames invasivos, realizar diagnósticos mais precoces dentre tantas outras soluções já estão disponíveis no arsenal de gadgetsappsdevices e sistemas de gestão pelo mundo afora.

Já dizia Michael E. Porter há uma década, em seu livro Repensando a Saúde: "esse sistema onde todos perdem precisa mudar". 

Talvez a TRANSPARÊNCIA seja a melhor ferramenta para limpar e corrigir as falhas do sistema de saúde no país.

Fernando Fernandes

Médico, Empreendedor de saúde, atuante no setor há mais de 20 anos.

Academia Médica
Fernando Fernandes
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Médico cirurgião geral, administrador de serviços de saúde. Atuo há 20 anos em gestão de planos de saúde, programas preventivos, homecare e consultorias. Fundador de 4 negócios de saúde e experiências de fusões, aquisições e investimentos na saúde.

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