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Soube que mais um médico tentou...

Soube que mais um médico tentou...

Atenção: esse artigo contém assuntos sensíveis sobre saúde mental, procure ajuda se necessário 

Dentre as coisas mais difíceis de se lidar na medicina o suicídio é uma das mais complicadas. Seja como pessoa, seja como médico.

Nesse post trarei sobre o médico como pessoa, porque como eu sempre digo a acompanhantes de pacientes dependentes como pais, mães e irmãos.

"Como cuidar de quem amamos se nem cuidamos de nós?"

Eu me recuso terminantemente a falar aquela história de "médico é uma profissão de categoria de risco" e mostrar 3 mil artigos científicos. Isso é informação já sabida de artigos requentados pelo tempo. 

A medicina baseada em evidência como aplicada nesse assunto está falhando no ponto humano.

Isso é tão batido que conseguiu a proeza de virar "assunto de gabinete", ou seja, aquele assunto que com palestras e tentativas moralistas de conscientizar são muito bonitas em teoria, porém na prática é um desastre observado. 

Não sou eu dizendo isso, é a estatística, a única parte que a MBE acertou nessa.

E pode até embasar uma opinião: Médicos se matam e o senso coletivo parece não se importar. Um argumento muito válido para  isso talvez sejam os números que não estão melhorando. Existem vários motivos para isso; por esse manejo pouco efetivo, mas isso vale um próprio post. 

Ouço relatos de colegas de trabalho que se suicidaram, que abusam de drogas até o limite, auto mutilação, ideação Suicida e planejamento. Mas não vejo grandes mudanças, acolhimento e a cultura corporativa para o médico mudando para melhor. Ao contrário, estamos indo para o caminho de um artista que tem sua criatividade cortada para servir uma verdadeira "indústria da saúde" como um subempregado. 

E não digo isso no sentido CLT/PJ/Residente/funcionário público do baixo clero, digo isso no trato ao dia a dia, da valorização de seu serviço, da compreensão de seus acertos e erros. 

O suicídio de um médico é mais vista como narrativa do que uma tragédia. 

Eu me vejo nessas pessoas e dói muito ver e sentir tudo isso. 

Para a minha sorte, eu tenho pessoas que dependem e gostam de mim e eu dependo é gosto delas. Essa é a essência mais bela e pura do acolhimento. E  concordando com especialistas da área, também na empatia sinto uma imensa dor de quem fica. 

Ver quem chegou ao ponto de tirar sua própria vida não porque não encontrou uma saída para seu sofrimento, para uma mudança em sua vida. Não encontrou antes de tudo isso o verdadeiro acolhimento, carinho, ou até mesmo um sincero "está tudo bem?" para ajudar.

E quem ficou nesse plano que gostava realmente dessa pessoa, olhando a si e para o mundo com uma culpa que até quem está distante vê uma angústia sem fim. 

Não adianta a psicofarmacologia mais avançada, a terapia feita pelo mais hábil psicólogo, se outros fatores continuarem danosos. Ai nesse ponto vários "colegas" que já se esqueceram do acolhimento, esqueceram do "perfil biopsicossocial". 

Aliás um psicólogo ou um médico adequado a lidar com o suicídio sabe a frase acima melhor que eu.

Meses de cores, interação social e discussão são importantes, mas somente se tiverem alterações para um bem estar cultural.

Quando uma pessoa se vai em sofrimento, não sei o que tem do além vida (deixo isso aos espiritualistas), mas nesse plano temos pessoas que sentem falta, luto, culpa e um ciclo de dor e sofrimento.

Não colocarei em pauta a péssima educação médica, assédio, negligência e falta de empatia na carreira. (e nem quero gente com falso moralismo usando essa menção para criticar a educação médica e a medicina de forma genérica, tenha o mínimo de respeito e não faça da morte uma pessoa que foi amada e querida como palanque).

Talvez essas pessoas nem sabem que estão fazendo isso. Podem ser tão vítimas do sistema quanto o Suicida.

E aí que reside a minha maior critica: onde estão os teólogos, filósofos, médicos, psicólogos, sociólogos e as pessoas que amam a palavra "ciência multidisciplinar da saúde mental" para resolver isso? De cientista de gabinete o mundo tá cheio, mas de amor legítimo a vida a falta parece que impera.

Ainda quem está aqui podemos ajudar, sendo quem sofre diretamente ou indiretamente. 

Se você precisar de ajuda, procure ajuda especializada, um amigo de confiança, um ente querido, o centro de valorização da vida tem número de telefone e atendimento online 24h de graça.

Pode até comentar aqui eu posso tentar ajudar. 

Você nunca estará sozinho nessa. 

 


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Henri Hajime Sato
Henri Hajime Sato Seguir

Médico, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, curioso local e sempre existe alguma coisa errada no reino da Dinamarca.

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