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Um texto que (não) necessariamente tem a ver com medicina

Um texto que (não) necessariamente tem a ver com medicina

Qualquer pessoa que esteja lendo esta publicação provavelmente já se deparou com a necessidade de escrever seu próprio texto. Seja para uma redação da escola, para ser aprovado no vestibular, uma narrativa, aqueles textos de dia dos pais ou das mães, ou mesmo uma carta se declarando para o ser amado. Seja qual for o estilo do texto produzido, todos eles partem de uma premissa, de uma motivação para o que será escrito: o tema.

Se fizermos um experimento e colocarmos um número N de pessoas para fazerem uma redação a partir de um mesmo tema, acho pouco provável que, ao final, dois dos N textos sejam idênticos. Acreditem, o pessoal do Inep faz isso todo ano com o Enem e até hoje, que eu saiba, não se teve notícia de duas redações iguais.

Neste ano tive a oportunidade de começar a escrever para a Academia Médica e, durante dois meses, semanalmente, eu produzia um texto diferente tendo apenas um tema como ponto de partida.

Nada muito difícil pra quem já teve que fazer centenas de redações ao longo da vida, certo? Não é bem assim! Eu tenho um certo amor pela nossa língua e, particularmente, tenho bastante cuidado com a maneira com que escrevo, em como coloco as palavras, na forma como minha escrita pode ser interpretada, dentre outras coisas. Estar atento a tudo isso, toma um tempo danado!

Ao longo desses dois meses, integrando um grupo de graduandos de diversas partes do Brasil (o Alpha Squad S2), tivemos encontros virtuais com médicos muito experientes, com histórias pessoais incríveis e que hoje atuam de maneiras às vezes pouco convencionais. Conversamos com médicos interessados em desenvolvimento pessoal e espiritualidade; médicos cientistas, que aliam pesquisa, ensino e assistência; médicos que optaram por não fazer uma residência, médicos empreendedores, high tech, atuando em startups até mesmo fora do país; enfim, médicos que pensaram fora da caixinha ou, como disse um de nossos colegas, que criaram as suas próprias caixinhas quando não havia uma.

E por que estou falando tudo isso? A grande maioria dos acadêmicos de medicina começam o curso bastante jovens, cheios de sonhos e ideais sobre quando forem médicos. Eu, ao contrário, comecei a percorrer essa jornada com quase 36 anos de idade, meio "casca grossa", com uma série de conceitos já estabelecidos e engessados: graduação, residência e trabalho. E mesmo que ao final tudo possa se resumir a apenas esses três estágios, os meandros são infinitos e capazes de tornar a trajetória enriquecedora.

Com isso, refleti sobre esse paralelo entre escrever um texto e a construção da carreira médica. Talvez do senso comum eu aprenda que meu texto só pode ter introdução, desenvolvimento e conclusão, que precisa ser um texto impecável que garanta a aprovação alheia, que não posso errar e que minha redação precisa ser comparável às dos meus pares. Mas hoje eu sei que posso colocar quantos parágrafos eu quiser, que neste texto as palavras são minhas e que a forma que as articulo também são resultado do que eu decidir para a redação da minha história como médico.

Interagir com outros pontos de vista, conhecer histórias semelhantes à minha, mas com desfechos tão variados, abriu uma gama imensa de opções e me fez enxergar possibilidades outrora embaçadas na minha visão sobre a carreira médica. Seja na medicina ou na vida de modo geral, qualquer que tenha sido a empreitada que o leitor tenha começado, tem apenas diante de si um tema e uma folha em branco. Não há respostas prontas, não há como copiar o texto de outra pessoa. Até podemos nos inspirar em histórias já contadas, mas no fim das contas a obra terá que ser nossa e com nossas próprias palavras.

Sua prática clínica será resultado dos "textos" que você "leu" de seus mestres, assim como é sua a decisão de qual residência fará e como fará (e se fará), se vai trabalhar na assistência, na academia ou na indústria (ou mesmo se vai misturar tudo isso), se vai ser um médico "blogueiro" promovendo sua clínica ou divulgando conhecimento científico, se será médico palestrante ou escritor, se será médico programador ou gestor, se será médico trader ou se sua realização estará dentro do centro cirúrgico; se vai fazer trabalho voluntário em uma comunidade carente no Brasil ou em uma missão dos Médicos sem Fronteiras; se vai trabalhar em um lugar fixo ou em vários lugares.

E o melhor: nenhuma das opções anteriores se excluem mutuamente, o autor é você!

Como já mencionado, o tempo para a versão final de um texto pode ser longo. Uma redação pode ser revisada e editada com novas ideias que podem surgir. Igualmente a formação médica, que, aliás, nunca termina. Contanto que estejamos sempre atentos à nossa responsabilidade, rigor e cuidado para com nossos pacientes, razão maior de nossa formação, temos liberdade para a criação da nossa história. Da mesma forma que escrever é uma arte, a medicina também o é e requer aprimoramento constante dos seus artistas.

P.S.: Após a publicação deste texto, já fiz, pelo menos, três revisões. Cada vez que releio percebo algo que pode ser aperfeiçoado. É disso que se trata! ;)


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Felipe Dalvi
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Engenheiro biomédico, doutor em Modelagem Computacional e atual acadêmico de Medicina na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Sou colunista do Alpha Squad e entusiasta da visão integrada entre mente e corpo.

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