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Médico que trabalha doente já é algo ruim em tempos normais, mas e durante a pandemia de Covid-19?

Médico que trabalha doente já é algo ruim em tempos normais, mas e durante a pandemia de Covid-19?

"Primum non nocere"

Enquanto vemos o mundo parar por causa da pandemia de Covid-19, silenciosamente, os profissionais da saúde trabalham sem parar para oferecer atendimento aos pacientes infectados, encontrar novos tratamentos, conter o avanço da doença... É uma guerra na qual a linha de frente veste seu uniforme branco e luta com as armas que têm contra um inimigo ainda pouco conhecido.

É um ato quase heroico desempenhado por esses profissionais. No entanto, precisamos conversar sobre quais são os limites de saúde (ou doenças) para os médicos e profissionais da área, principalmente, em tempos de pandemia.

Recentemente, Steven Joffe, professor de ética médica e política de saúde da Universidade da Pensilvânia, publicou um artigo no site STAT (que está sendo usado como base para este texto) discutindo o trabalho médico em casos de doença e contou a história de uma colega que, pouco antes do início do surto de coronavírus, trabalhou doente, usando máscara, lavando as mãos e esperando, contra a esperança, não infectar nenhum paciente ou colega de trabalho no processo. [1] Essa atitude, tão normal entre médicos e profissionais da saúde, recebe o nome de presenteísmo:

O "presenteísmo" ocorre quando um funcionário vai trabalhar apesar de doença médica que o impede de render totalmente no trabalho. Esse problema foi bem estudado na literatura de negócios e ciências sociais e carrega uma importância crescente no cenário da assistência médica devido ao risco de transmissão de doenças infecciosas em populações vulneráveis ​​de pacientes. [2]

Não há dúvidas que o absenteísmo de funcionários gera custos para os empregadores, mas existem evidências crescentes de que a presença de funcionários doentes ou com problemas médicos também pode resultar em custos significativos para a organização com a redução da produtividade. Isso pode ser verificado em alguns artigos publicados sobre o assunto:

É óbvio que nenhum dos colegas médicos têm em mente o objetivo de  espalhar doenças, prejudicar pacientes ou gerar custos para o hospital quando decide ir trabalhar doente. Essa atitude de dizer a si mesmo que tudo ficará bem se usar uma máscara e luvas, tomar ibuprofeno e seguirmos em frente faz parte do treinamento médico, marcado pelo estoicismo e pelo pouco espaço para mostrar vulnerabilidade.

Mas precisamos levar em consideração que, se já é  ruim para um médico ou profissional da saúde trabalhar enquanto está doente em tempos normais, durante épocas de cíticas, como a pandemia de Covid-19, isso pode representar problemas ainda maiores.

Os profissionais de saúde que retornam ao trabalho, apesar de apresentarem sintomas contínuos de uma doença infecciosa, estendem os riscos do presenteísmo muito além dos problemas de produtividade reduzida para os domínios da segurança do paciente e da saúde pública. [2] 

Sabemos que o aumento do número de pacientes com Covid-19 pode atingir fortemente os hospitais, e isso vai desafiar até mesmo as melhores políticas e práticas de licença médica. Por isso precisamos pensar em medidas para garantir que os funcionários doentes fiquem em casa e que os que trabalham permaneçam saudáveis, enquanto cuidam de um grande número de pacientes doentes e altamente contagiosos.

 

O que leva os profissionais de saúde a trabalharem doentes? 

Segundo o artigo Presenteísmo: um perigo para a saúde pública, publicado em 2010 no Journal of general internal medicine, a resposta a essa pergunta pode depender de: [2]

  1. Disciplina do funcionário
  2. Status social na organização
  3. Nível de segurança no trabalho e da segurança financeira
  4. Demandas de cuidados no trabalho

Dentre estes fatores, o status social desempenha um grande papel. O artigo Você trabalha com uma infecção do trato respiratório?, publicado na revista internacional Occupational and Environmental Medicine, demonstra que, ao cuidar do pacientes, os médicos se esforçam para defender o princípio fundamental da medicina: primum non nocere (primeiro não faz mal). No entanto, mais de 80% deles trabalham quando estão doentes. [3]

A pesqusia analisou estudantes de medicina do terceiro ano,  residentes de medicina interna e cirurgia e médicos. A frequência de casos de trabalho com infecções do trato respiratório ficou, respectivamente, em 73,8%, 48,9% e 57,7%. O motivo para isso, citado principalmente entre os estudantes, foi fatores relacionados a opiniões e impressões de outros. Já os médicos estavam mais preocupados com a prestação de assistência ao paciente. 

Situação semelhante acontece com a enfermagem. O artigo Por que enfermeiros registrados trabalham quando estão doentes?, publicado no  The Journal of Nursing Administration, descreve-se a sensação de tensão entre supervisores e equipe de enfermagem que influencia na decisão de trabalhar doente. A tensão foi criada quando supervisores questionaram a legitimidade de doenças e se concentraram na necessidade de relatar doenças em um prazo que assegurasse a adequação da equipe de substituição. 

 

Um retrato da realidade médica

No estudo Presenteísmo entre médicos residentes, publicado pelo Journal of the American Medical Association (JAMA), 700 médicos residentes em diversas especialidades de 12 hospitais foram entrevistados sobre trabalhar enquanto estavam doentes. 

Apesar das reformas no modelo de residência americana para garantir a saúde do residente e do paciente, as taxas de presenteísmo foram (e ainda são) altas e semelhantes às observadas em 1999. Quase 60% relataram trabalhar doentes durante o ano anterior, e isso ocorreu devido à pressão do trabalho e à falta de tempo para procurar assistência médica. [4]

Os residentes podem trabalhar quando estão doentes por várias razões, incluindo dedicação equivocada, falta de sistema de cobertura adequado ou medo de decepcionar colegas de equipe. Independentemente da razão, dados os riscos para os pacientes relacionados a doenças e erros, o presenteísmo deve ser desencorajado pelos diretores do programa.[4]

A pesquisa Razões pelas quais médicos e clínicos avançados trabalham enquanto doentes, publicada em 2015 no JAMA demonstrou que  apesar do progresso no desenvolvimento de estratégias para a prevenção de infecções associadas à assistência, pouca atenção tinha sido direcionada, na época, à compreensão e prevenção da transmissão de patógenos dos profissionais de saúde aos pacientes.

A mesma pesquisa mostrou que, embora os entrevistados acreditassem que trabalhar enquanto doente colocava pacientes em risco, mais de 80% dos eles relataram fazê-lo pelo menos uma vez no ano anterior. Um profissional de saúde sintomático pode transmitir patógenos diretamente a outros; contaminar superfícies compartilhadas e de alto toque; e, até mesmo, experimentar julgamento prejudicado com base na gravidade de sua doença.

A literatura médica inclui numerosos relatos de surtos para os quais os profissionais de saúde sintomáticos foram considerados a melhor fonte de doença nos centros de saúde, como influenza e infecções por Bordetella pertussis, Staphylococcus aureus resistente à meticilina e Norovirus. [5]

Publicado em 2017 no American Journal of Infection Control, o resultado da pesquisa com profissionais de saúde americanos Trabalhando com doenças semelhantes à influenza: Presenteísmo entre os profissionais de saúde dos EUA durante a temporada de influenza de 2014-201, descobriu que: [6]

  • Mais de 40% da equipe de saúde dos EUA pesquisada trabalhava com doenças semelhantes à influenza autorreferida.
  • Por profissão, os farmacêuticos e médicos eram mais propensos a trabalhar com doenças semelhantes à influenza.
  • Por ambiente de trabalho, o pessoal hospitalar era o mais provável de trabalhar com doenças semelhantes à influenza.

De acordo com a pesquisa Políticas para triagem de visitantes e licença médica em hospitais dos EUA, publicada pela Cambridge Core, 50% dos entrevistados observaram que o hospital não exigia que os funcionários com sintomas virais respiratórios fossem avaliados pela saúde ocupacional, mas quando avaliados, 93% dos membros da equipe com sintomas virais respiratórios tinham o atendimento direto ao paciente restringido. [7]

 

O que os hospitais poderiam fazer para ajudar? 

É tentador apontar o dedo para os profissionais de saúde que vão trabalhar quando estão doentes. Afinal, se a doença é contagiosa, eles representam uma ameaça para os pacientes vulneráveis. Mas isso seria um erro.

Os médicos têm uma tremenda responsabilidade em relação a seus pacientes e e aos seus pares por ficarem em casa quando doentes. Mais do que qualquer um, eles têm a obrigação de acompanhar o cuidado dos pacientes. Mas eles também têm uma grande oportunidade de começar a mudar essa cultura de mártir.

No estudo Mais do que um resfriado: infecções virais respiratórias adquiridas em hospitais, política de licença médica e necessidade de mudança de cultura são propostas 3 recomendações para rever o trabalho do médico em situação de doença: [8]

  • Os hospitais precisam de apólices não punitivas de licença médica com sistemas de plantão para cobrir os médicos doentes.
  • Os hospitais devem adotar políticas que exijam que os médicos com sintomas de infecções virais respiratórias, com ou sem febre, sejam excluídos do tratamento de pacientes, especialmente aqueles com risco de piores resultados devido a condições subjacentes.
  • Os médicos devem ser atendidos por um especialista em saúde ocupacional sempre que houver a possibilidade de uma doença contagiosa que possa colocar seus pacientes em risco.

Durante períodos críticos, como o que estamos vivendo agora,  são necessárias medidas de vigilância para garantir a existência de procedimentos apropriados de controle de infecção, incluindo o impedimento de trabalho da equipe de saúde enquanto são potencialmente infecciosas. 

Essas políticas devem incluir a disponibilidade de licença médica remunerada irrestrita, processos sistemáticos para a triagem de funcionários doentes e regras de exclusão obrigatórias. [2]

Uma mudança é necessária pelas organizações de assistência médica para ver medidas como licença médica irrestrita, não apenas como benefícios aos funcionários, mas como oportunidades reais de investimento para proteger a segurança do paciente. Porém, quando o surto passar, os hospitais não devem voltar ao modelo de costume. A experiência deve servir como um aprendizado e  lembrar a necessidade de sistemas que ajudem os médicos doentes a se recuperarem em casa.

 

Referência

 


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Juliana Karpinski
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Community Manager na Academia Médica, jornalista por formação e designer por paixão, cursa especialização em Gestão Estratégica e é acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná.

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