A JAMA Network Open publicou um estudo que propõe, pela primeira vez, um conjunto de competências essenciais para orientar o ensino médico sobre cannabis medicinal. O trabalho, conduzido por especialistas de diversas áreas da saúde e educação, utilizou o método Delphi modificado, amplamente reconhecido na construção de consensos científicos para definir quais conhecimentos, habilidades e atitudes devem fazer parte da formação médica moderna diante da crescente demanda por orientações clínicas seguras sobre o uso de cannabis.
Da proibição à necessidade de educação
A trajetória da cannabis na medicina é marcada por contrastes. Utilizada por milênios em práticas médicas na China, Índia e Oriente Médio, ela foi incorporada à farmacopeia europeia e norte-americana no século XIX como analgésico e anticonvulsivante. Contudo, a criminalização nos Estados Unidos, iniciada em 1937 e consolidada pela Controlled Substances Act de 1970, encerrou o uso legal da planta por décadas.
Desde os anos 1990, porém, mudanças sociopolíticas e pressão de pacientes levaram à legalização da cannabis medicinal em diversos estados americanos. Atualmente, 38 estados, o Distrito de Columbia, Porto Rico e três territórios dos EUA permitem o uso terapêutico, totalizando quase 4 milhões de pacientes cadastrados. A recente recomendação do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) para reclassificar a cannabis como substância de classe III, reconhecendo sua utilidade médica e baixo potencial de abuso reforça o movimento de revalorização científica do tema.
Apesar dos avanços científicos que comprovam benefícios clínicos em condições como dor crônica, espasticidade muscular e náusea induzida por quimioterapia, o estudo mostra que médicos ainda se sentem despreparados para discutir cannabis com seus pacientes. Pesquisas revelam que mais de 66% dos diretores de escolas médicas dos EUA consideram que seus egressos “não estão preparados” para prescrever cannabis medicinal. Em 2015, apenas 9% das faculdades incluíam o tema em seus currículos.
Esse vácuo educacional é atribuído a três fatores principais:
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Ilegalidade federal persistente, que dificulta pesquisa e padronização curricular.
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Estigma cultural ainda associado ao uso da planta.
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Heterogeneidade regulatória entre estados, que cria insegurança jurídica para profissionais e instituições.
As seis competências essenciais:
O consenso propõe seis competências centrais para a educação médica sobre cannabis:
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Conhecimento do sistema endocanabinoide e da farmacologia da planta.
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Compreensão das indicações clínicas, evidências terapêuticas e limitações científicas.
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Avaliação de riscos e benefícios para diferentes populações (idosos, gestantes, adolescentes, pacientes com comorbidades).
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Domínio das legislações federal e estadual e das responsabilidades profissionais.
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Comunicação ética e não julgadora com pacientes que fazem uso medicinal ou recreativo.
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Capacidade de integrar a cannabis em práticas baseadas em evidências, respeitando protocolos e segurança do paciente.
Essas competências visam tanto o ensino de graduação quanto a formação continuada de profissionais de saúde, podendo ser adaptadas para enfermagem, fisioterapia e outras áreas clínicas.
Educar é reduzir riscos e desigualdades
O estudo destaca que o acesso à cannabis medicinal ainda é desigual: o custo elevado, a falta de cobertura por seguros e a escassez de médicos certificados limitam o tratamento em populações de baixa renda. Além disso, muitos pacientes recorrem à automedicação, comprando produtos sem certificação ou prescrição, o que reforça a importância de profissionais bem informados e abertos ao diálogo.
Os autores argumentam que educar sobre cannabis não significa fazer apologia ao uso, mas proteger pacientes e reduzir danos por meio de uma abordagem ética e científica. Médicos devem ser capazes de orientar sobre posologia, interações medicamentosas, vias de administração e potenciais efeitos adversos, mesmo quando atuam em estados onde o uso medicinal ainda é ilegal.
Implementação e desafios
Os pesquisadores reconhecem a dificuldade de incluir novos conteúdos em currículos já sobrecarregados, mas sugerem estratégias integrativas: inserir o tema em disciplinas de farmacologia, saúde pública ou medicina interna; oferecer eletivas curtas e workshops; e criar capacitação docente com material adaptado à legislação local.
Outro ponto estratégico seria incluir tópicos sobre cannabis nos exames de licenciamento médico, o que naturalmente impulsionaria sua adoção curricular e estimularia a formação de docentes especializados.
Os autores concluem que implementar esse framework contribuirá para diminuir o abismo entre a prática clínica e o avanço científico, capacitando profissionais a oferecerem informações seguras, baseadas em evidências e centradas no paciente, um passo fundamental para a medicina do século XXI.
Referência:
Zolotov Y, Mendoza Temple L, Isralowitz R, et al. Developing Medical Cannabis Competencies: A Consensus Statement. JAMA Netw Open. 2025;8(10):e2535049. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.35049






