Um amplo estudo de coorte, realizado na Finlândia e na Escócia e acompanhando 1.548.538 pares mãe-filho por até 21 anos, investigou uma questão clínica de enorme relevância: se a exposição a corticosteroides no período pré-natal, prática rotineira entre 24 semanas 0 dias e 33 semanas 6 dias em gestações com risco de parto prematuro, está associada a maior suscetibilidade a infecções ao longo da infância e adolescência.
Os autores analisaram 49.263 crianças expostas a corticosteroides no período pré-natal e compararam desfechos infecciosos (respiratórios e não respiratórios) com os de pares não expostos, contemplando tanto nascidos pré-termo quanto a termo. Trata-se do primeiro estudo a avaliar, em escala populacional e com seguimento de longo prazo (até 21 anos), a associação entre exposição pré-natal a corticosteroides e risco de infecções.
O uso de corticosteroides no período pré-natal expandiu-se nas últimas décadas, inclusive em gestações mais avançadas (final do pré-termo tardio e cesáreas eletivas no início do termo), alcançando mães e crianças que, muitas vezes, não nascem no intervalo terapêutico ideal (até 7 dias entre a aplicação e o parto). Estima-se que cerca de metade das crianças expostas durante a gestação acabe nascendo a termo (≥37 semanas). Paralelamente, estudos em animais e coortes humanas levantaram preocupações sobre efeitos adversos de longo prazo em sistemas cardiovascular, metabólico, respiratório, renal, imune e neurocognitivo.
Além do risco global de infecções ao longo da infância e adolescência, os autores separaram as análises em:
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Infecções respiratórias (incluindo mais que apenas pneumonia e considerando dados ambulatoriais e de internação).
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Infecções não respiratórias (bacterianas invasivas, gastrointestinais, de pele e partes moles, geniturinárias e virais).
O objetivo adicional foi explorar se uma eventual vulnerabilidade seria explicada sobretudo por alterações na estrutura pulmonar (infecções respiratórias) ou por mecanismos imunoendócrinos (imunossupressão e eixo hipotálamo-hipófise-adrenal), refletindo-se também em infecções não respiratórias.
Principais achados
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Crianças expostas apresentaram risco aumentado de infecções ao longo da infância e adolescência (até 21 anos) quando comparadas às não expostas, tanto para infecções respiratórias quanto não respiratórias, em pré-termo e em termo.
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A incidência do primeiro episódio infeccioso foi inversamente proporcional à idade gestacional ao nascer; os muito prematuros (28 semanas e 0 dias a 31 semanas e 6 dias) exibiram as taxas mais altas por 1.000 pessoa-anos. Esse gradiente é coerente com a imaturidade mais pronunciada dos sistemas imunes inato e adaptativo em prematuros, que pode persistir em idade escolar.
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Entre muito prematuros (28 semanas e 0 dias a 31 semanas e 6 dias) e prematuros moderados (32 semanas e 0 dias a 33 semanas e 6 dias) as associações entre corticosteroides no período pré-natal e risco de infecções desapareceram nos modelos totalmente ajustados. A transição de associação positiva (em ajuste simples) para ausência de associação após ajuste total sugere papel de covariáveis importantes (p. ex., tabagismo materno, idade materna, ano de nascimento) na explicação do risco.
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Os resultados alinham-se a evidências anteriores de maior risco infeccioso em expostos no curto prazo (0–4 anos), agora estendido até o início da vida adulta, com a diferença de que este trabalho inclui amplo escopo de diagnósticos (não restringe a pneumonia) e dados ambulatoriais, além de internações.
Os autores discutem mecanismos que, isolados ou combinados, podem sustentar a maior suscetibilidade infecciosa observada em expostos:
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Imunomodulação pelos corticosteroides: redução de proliferação de linfócitos T, linfopenia, diminuição de subpopulações (CD4+ e CD25+) observadas em amostras de sangue de cordão.
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Efeitos sobre órgãos linfoides: modelos animais mostram atrofia de timo, adrenais e tecidos linfoides após exposição gestacional; em humanos, já se descreveu redução do tamanho do timo na prole exposta.
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Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal: a exposição pode suprimir cortisol em prematuros e aumentar a responsividade do eixo em nascidos a termo e crianças, alterando a resposta ao estresse. Ainda não está claro se tais alterações explicam diretamente a maior propensão a infecções, mas constituem via biológica coerente.
Diante da associação com maior risco de infecções até 21 anos em expostos (pré-termo e termo), os autores reforçam que corticosteroides no período pré-natal deve ser utilizado de forma judiciosa, ponderando benefícios neonatais amplamente reconhecidos e possíveis consequências de longo prazo. Nos muito prematuros e prematuros moderados, os benefícios de curto prazo parecem superar riscos e, após ajuste completo, não houve associação com maior risco infeccioso, um achado que dialoga com a prática atual de indicar corticosteroides nesse grupo.
É necessária maior precisão na predição de parto prematuro e critérios mais estritos de administração, visando direcionar corticosteroides às gestantes com maior probabilidade de parto muito prematuro ou prematuro e cujos recém-nascidos mais se beneficiariam.
Referência:
Decrue F, Frier EM, Lin C, et al. Antenatal Corticosteroids and Infectious Diseases Throughout Childhood. JAMA Netw Open. 2025;8(10):e2536809. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.36809






