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FIBROSE CÍSTICA

INTRODUÇÃO

A Fibrose Cística (FC), também conhecida como mucoviscidose, é uma doença genética hereditária autossômica recessiva que afeta principalmente os sistemas respiratório e digestivo. Ela é causada por mutações no gene Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator (CFTR), responsável por produzir uma proteína que regula o transporte de íons e água nas células. A FC clássica manifestasse no início da infância.


HISTÓRICO

No século 15, a doença era atribuída a maldição de bruxas, tendo cunhado um provérbio europeu alertava os pais: “Ai da criança que sentir o gosto salgado de um beijo na testa, pois ela é amaldiçoada e logo morrerá.” conhecido por anunciar uma morte inevitável precedida por uma agonia áspera.


Figura 1- Dra. Dorothy Andersen

FONTE: COLUMBIA UNIVERSITY


Foi apenas em 1938 que a pediatra americana Dra. Dorothy Andersen, identificou a patologia e cunhou o termo “fibrose cística”. Tal descoberta foi um divisor de águas; anteriormente as crianças eram classificadas com doença celíaca, foi justamente ao realizar a necrópsia em uma criança que ela acreditava ter falecido de doença celíaca quando observou lesões no pâncreas. Pesquisando mais, observou também lesões no pulmão e identificou um padrão da doença. A contribuição de Andersen se torna mais notável, e necessária de se ressaltar em todo esse texto sobre FC que está sendo aqui exposto, pelo fato que em sua época a questão de gênero era fortíssima, sendo apenas 5% dos médicos praticantes nos Estados Unidos eram mulheres.


Em 1938, Andersen publicou um artigo para o American Journal of Diseases of Children: “Cystic Fibrosis of the Pancreas and Its Relation to Celiac Disease: A Clinical and Pathological Study”. Nele, ela descreveu quase 50 casos de pacientes diagnosticados com doença celíaca que mostraram os sinais característicos do que hoje sabemos ser fibrose cística.


INCIDÊNCIA E TEORIA DA VANTAGEM SELETIVA


A fibrose cística apresenta maior frequência em populações caucasianas, podendo variar em populações diferentes (exemplificado na tabela abaixo).


Tabela 1: Relação população com a incidência de casos.

Fonte: Baseado em SULLIVAN, Brian P O', FREEDMAN, Steven D (2009). Cystic fibrosis. (pág. 1892). Adaptado por Carolina de Fátima Scarparo. Retirado de Genética Pratica UFSCAR, 2023.

Segundo Borges - Osório e Robinson, “a vantagem ou a desvantagem de um determinado genótipo é relativa ao ambiente em que ele se situa.” Há a teoria de que assim como a vantagem genotípica dos heterozigotos da Doença Falciforme (especificamente os de traço Hbas), demonstrarem resistência em relação a Malária calcada pelo P. Vivax e P.falciparum, endêmicas na região da Subsaariana. Sendo tal doença fatal e uma vantagem genotípica de resistência representar uma questão de seletividade, corroborando com a grande incidência de portadores da doença. A FC talvez, tenha sido uma vantagem seletiva tenha sido muito valiosa há centenas de anos, as infecções tais como a cólera e a disenteria, eram endêmicas na Europa Ocidental.

A descoberta do papel do produto proteico desse alelo na permeabilidade da membrana reforça a hipótese da sua vantagem seletiva pelo aumento de resistência aos efeitos de várias infecções gastrintestinais, podendo resultar na diminuição da perda de fluidos e eletrólitos nos heterozigotos, durante tais infecções.


CONTEXTUALIZAÇÃO GENÉTICA

O gene CFTR é situado no braço longo do cromossomo 7, no locus7q31 do qual possui 27 éxons que serão responsáveis pela síntese da proteína. Com a mutação no gene, é desregulado principalmente o transporte de íons na membrana celular, levando ao acumulo de muco espesso e pegajoso nas vias aéreas, pâncreas e outros órgãos. O muco espesso obstrui os ductos, causando problemas respiratórios, digestivos e reprodutivos.


MUTAÇÕES DO GENE CFTR

No que se refere a mutação, foram observados mais de 2000 tipos ao longo dos anos. A variação é categorizada em 6 classes que se diferem pelo o mecanismo do CFTR que é afetado, além dos sintomas equivalentes classes são o seguinte.


  • Classe I: Mutações que influenciam a produção de proteínas.

  • Classe II: Mutações relacionadas ao processamento das proteínas.

  • Classe III: Mutações que complicam a abertura do canal.

  • Classe IV: Mutações que alteram o transporte de íons.

  • Classe V: Mutações que prejudicam a atividade celular da CFTR.

  • Classe VI: Mutações que reduz a expressividade da proteína por influenciar a estabilidade do CFTR na membrana plasmática.

No sistema respiratório, o muco acumulado nas vias aéreas dificulta a passagem do ar e cria um ambiente propício para infecções bacterianas frequentes, como pneumonias. Isso pode levar a danos pulmonares progressivos ao longo do tempo.

No sistema digestivo, o muco pode bloquear os ductos pancreáticos, impedindo a liberação adequada de enzimas digestivas para o intestino, o que interfere na digestão e absorção de nutrientes.


Figura 2 -Representação esquemática de como a proteína CFTR é criada a partir do gene que está contido no cromossomo 7.

FONTE: KUBELBECK, "CFTR from gene to channel 01" editado por Bruna Maciel Melo, arte final e obra original sob CC BY-SA 3.0, obra original disponível em Wikimedia Commons a midiateca livre, março de 2015. Retirado de Genética Pratica UFSCAR, 2023.


A mutação mais comum é a F508del" ou "deltaF508". Essa mutação resulta na deleção de três nucleotídeos (TTT) na posição 508 do gene CFTR, o que leva à produção de uma proteína CFTR defeituosa e instável. Essa mutação é responsável por aproximadamente 70% dos casos de fibrose cística em pacientes de origem caucasiana.


SINTOMAS

Os sintomas da fibrose cística variam em gravidade, mas geralmente incluem tosse crônica, falta de ar, infecções pulmonares recorrentes, dificuldades na digestão, ganho de peso insuficiente e suor mais salgado do que o normal.

  • Problemas respiratórios: Bronquiectasias (dilatação permanente dos brônquios com acúmulo crônica de muco), infecções pulmonares frequentes, tosse persistente, falta de ar e produção excessiva de muco nas vias aéreas, levando a danos progressivos nos pulmões.

  • Problemas digestivos: Dificuldades na digestão e absorção de nutrientes, levando a perda de peso, fezes gordurosas e crescimento comprometido em crianças, acometimento hepático, doença do refluxo gastroesofágico

  • Infecções recorrentes: Infecções pulmonares crônicas, muitas vezes causadas por bactérias resistentes a antibióticos, que podem piorar ao longo do tempo.

  • Sinusite crônica: Inflamação dos seios da face, resultando em congestão nasal, dor facial e infecções recorrentes.

  • Desidratação: A produção excessiva de suor devido às glândulas sudoríparas anormais pode levar à desidratação e desequilíbrio eletrolítico.

  • Salinidade anormal: O suor de pessoas com fibrose cística é mais salgado do que o normal, podendo ser detectado através do teste do suor.

  • Problemas reprodutivos: Mais de 95% dos homens com fibrose cística podem ter ausência dos ductos deferentes, causando infertilidade. Mulheres podem ter dificuldades para engravidar devido à espessura do muco cervical.

  • Complicações a longo prazo: A progressão contínua da doença pode levar a danos pulmonares graves, insuficiência respiratória e complicações, diabetes, e problemas de saúde em outros órgãos.

Não há cura para a fibrose cística, mas há tratamentos que ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Isso inclui fisioterapia respiratória para ajudar na remoção do muco, uso de medicamentos para abrir as vias aéreas, terapia enzimática para melhorar a digestão e antibióticos para tratar infecções. Em alguns casos, um transplante de pulmão pode ser necessário em estágios avançados da doença.


IMPORTÂNCIA DA INCORPORAÇÃO DO TRIKAFTA no SUS

Trikafta é uma medicação desenvolvida para tratar a fibrose cística em pacientes com determinada mutação genética (que tenham pelo menos um gene chamado delta F508, como vimos anteriormente.

A medicação é uma combinação de três moduladores de CFTR (elexacaftor, tezacaftor e ivacaftor), destinados a melhorar a função das proteínas, facilitando o transporte adequado de íons e fluidos nas células epiteliais. Tanto o elexacaftor quanto o tezacaftor funcionam como corretores, ou seja, se ligam à proteína CFTR defeituosa e a ajudam a dobrar de maneira adequada, assim a célula consegue levá-la até a membrana celular ao invés de destruí-la. Já o ivacaftor (comercializado independentemente como Kalydeco) é um potencializador, ou seja, liga-se à proteína CFTR e a mantém aberta, para que mais sais possam passar por ela. Os três medicamentos, combinados, se potencializam, e praticamente corrigem o defeito responsável pelos acometimentos causados pela Fibrose Cística.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ademais, como é atribuída a frase do médico e artista Abel Salazar, “O médico que somente sabe de medicina, nem de medicina sabe”, a FC não deve ser vista apenas por uma visão tecnocrata fisiológica/patológica, faz-se necessário sim, o constante investimento e busca científica da cura. Por outro lado, entender as Humanidades Médicas também é de grande valia ao profissional da saúde. Afinal, a história da saúde está anastomosada com a história da humanidade. As enfermidades, influem na história, politica, cultura e espiritualidade. Diante disso, no que tange o profissional da saúde na contemporaneidade, vale ressaltar a importância da empatia, sendo necessário também o olhar atento para uma possível necessidade do direcionamento a orientação psicológica do paciente e familiares.


REFERÊNCIAS

COLUMBIA UNIVERSITY , “A Legacy of Changing Medicine: Cystic Fibrosis”, disponível em : https://www.cuimc.columbia.edu/news/legacy-changing-medicine-cystic-fibrosis, acessado em 15 de agosto de 2023.

NEW YORK-PRESBYTERIAN, “It Happened Here: Dr. Dorothy H. Andersen”, disponível em : https://healthmatters.nyp.org/it-happened-here-dr-dorothy-h-andersen/ , acessado em 15 de agosto de 2023.

MEDWAY, “Doença falciforme: um mecanismo de resistência à malária”, disponível em : https://www.medway.com.br/conteudos/doenca-falciforme-um-mecanismo-de-resistencia-a-malaria/ , acessado em 10 de agosto de 2023.


BORGES-OSÓRIO, Maria Regina e ROBINSON, Wanyce Miriam, GENÉTICA HUMANA, – 3ª edição, Porto Alegre, Artmed, 2013, Páginas 260-261.


THOMPSON & THOMPSON, “Caso 10 – Fibrose Cística”, GENÉTICA MÉDICA, 7ª edição, Rio de Janeiro, Elsevier, 2008, Páginas xxii – xxiv.


PNEUMORANDO, “Revolucionando o Tratamento da Fibrose Cística: Trikafta e Sua Incorporação no SUS”, disponível em: https://pneumorando.com.br/revolucionando-o-tratamento-da-fibrose-cistica-trikafta-e-sua-incorporacao-no-sus/, acessado em 10 de agosto de 2023.


GENÉTICA PRÁTICA UFSCAR, “FIBROSE CÍSTICA”, disponível em:https://www.geneticanapratica.ufscar.br/temas/fibrose-cistica#:~:text=Essa%20doen%C3%A7a%20%C3%A9%20caracterizada%20pelo,os%20pulm%C3%B5es%2C%20p%C3%A2ncreas%20e%20intestino. acessado em 10 de agosto de 2023.


Autora: LILIAN GALLIGANI

Co-autora: NADINE CRISTINA MACHADO


O GEPRAPS é um grupo interdisciplinar e multidisciplinar de profissionais da saúde, que desenvolvem trabalhos e reflexões sobre as situações relacionadas às Doenças Respiratórias Crônicas – DRCs no Brasil .O principal objetivo do grupo é apoiar as boas práticas assistenciais, a educação permanente, o desenvolvimento multiprofissional continuado e a pesquisa respiratória na Atenção Primária a Saúde, com enfoque nas linhas de cuidado das Doenças Respiratórias Crônicas e Tabagismo. Para mais informações acesse nosso site  https://www.gepraps.com.br/  ou nosso instagram @gepraps .

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