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Gabinete de Curiosidades Médicas: Joseph Lister e o espírito empreendedor do século XIX

Gabinete de Curiosidades Médicas: Joseph Lister e o espírito empreendedor do século XIX

Bem-vindos à série "Gabinete de Curiosidades Médicas"! Aqui você vai encontrar fatos curiosos, sombrios ou interessantes sobre a história da medicina e das artes. Prepare-se para um encontro inesperado com médicos, escultores, pintores, filósofos que se unem para contar um pouco das inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

Vamos lá?

Joseph Lister foi uma figura central na revolução da medicina no século XIX. Junto com Louis Pasteur e Robert Koch, ele forma a santíssima trindade da revolução bacteriológica.  Criado no seio de uma família quase tradicional, Lister desde cedo mostrava aptidão para o estudo de coisas que tendiam a se esconder dos olhos humanos. Não era à toa que andava carregando seu microscópio para lá e para cá, mesmo na universidade, onde o instrumento ainda era visto com desconfiança por alunos e professores.

Durante sua formação, foi aluno de James Syme, hoje conhecido como o Napoleão da Cirurgia, e aos poucos foi conquistando o respeito entre os seus, não sem algumas contendas e arranca-rabos, como as que ocorreram por escrito via troca de cartas na até hoje conceituada revista The Lancet com James Y. Simpson, famoso pela descoberta do clorofórmio.

Por toda a sua vida, Joseph Lister trabalhou para desenvolver métodos seguros que fossem capazes de reduzir o número de mortes por infecções durante e depois de procedimentos cirúrgicos. Foi assim que criou um sistema antisséptico, que tinha como princípios básicos a higienização e o uso de ácido carbólico no preparo do ambiente, dos instrumentos e também nos cuidados pós-operatórios. 

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Além de dar uma força no processo de compreensão das doenças infecciosas e do tratamento antisséptico, Lister indiretamente acabou por ajudar a acender a chama de alguns espíritos empreendedores da época. No ano de 1876, depois de muito desenvolver e aperfeiçoar seus métodos, sempre enfrentando as palavras duras de seus opositores com a maior das composturas, Joseph Lister rumou para os Estados Unidos para defender suas ideias para uma plateia ainda mais cética no Congresso Internacional de Medicina, na Filadélfia. 

Nessa noite, teve de tudo um pouco. Bate-boca, acusações, piadinhas e muito sarcasmo. Em contrapartida, houve também quem ouviu, apreciou e parabenizou as descobertas do médico britânico. E no meio disso tudo, pessoas que tinham até suas próprias ideias de como levar a ideia revolucionário de Lister adiante.

Entre os ouvintes atentos do evento estava o médico Robert Wood Johnson. Estupefato com tudo o que tinha ouvido sobre seres microscópicos capazes de matar e dos métodos inovadores de combatê-los, Wood voltou para casa e convenceu seus outros dois irmãos, James e Edward, a se juntarem a ele naquela batalha contra as forças invisíveis. Foi assim que nasceu a Johnson & Johnson, que começou como uma empresa responsável por fabricar aqueles que seriam os primeiros curativos, suturas e outros materiais cirúrgicos que seguiam o método de assepsia criado por Lister.

Mas, nem tudo são flores. Afinal, o ser humano sempre acaba dando um jeito de desvirtuar qualquer coisa, não é mesmo? 

Não demorou para que invenções mirabolantes e produtos bizarros começassem a aparecer, pegando carona nas teorias de Lister. Teve a pasta de dente carbólica, a bola de fumaça carbólica, o sabonete carbólico, etc. Já outros se esforçaram para levar a coisa para outro patamar, como o médico norte-americano que injetava ácido carbólico diretamente nas hemorróidas de seus pacientes ― algo que, se já não parece confortável nos tempos atuais, imagina em um século em que qualquer procedimento era feito da maneira mais rústica possível.   

Outro empreendimento de sucesso, e que teve sua semente plantada naquela noite de 1876, foi iniciado pelo Dr. Joseph Joshua Lawrence. Em 1879, ele começou a fabricar, nos fundos de uma fábrica de charutos, sua própria mistura antisséptica, que tinha em sua fórmula elementos como timol, eucaliptol, mentol e um teor alcoólico de 27%. 

Anos mais tarde, em 1881, Lawrence conheceu Jordan Wheat Lambert, um farmacêutico com uma lábia mais que eficiente e com tino para os negócios. Interessando nos frutos que aquele preparado poderia lhe render, Lambert comprou os direitos da fórmula e iniciou uma grande campanha de publicidade. O produto antisséptico, que agora era dele, era recomendado para os usos mais inusitados. Servia para a limpeza de pisos, para o tratamento de caspa e era fortemente indicado para o tratamento contra gonorréia, doença mais que comum naquela época. 

Mas foi apenas com a aprovação da classe odontológica, que passou a receitar a mistura para seus pacientes, que o produto quase milagroso de Lambert decolou e finalmente alcançou o seu lugar ao sol. Tanto que eu posso até apostar que você tem uma garrafa dele no seu armário do banheiro agora mesmo.

O nome do produto? Ah, é. Quase me esqueci. 

O nome do produto é Listerine, que ganhou esse nome, claro, em homenagem a Joseph Lister.

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Academia Médica
Jocê Rodrigues
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Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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