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Inspirações e a caixa
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Inspirações e a caixa

Inspirações e a Caixa

Entrei na faculdade de medicina com 17 anos. Isso, dezessete! Todo aquele sonho infanto-juvenil ainda muito presente na cabeça. Ideais de trabalho e conquistas. Respeito, grandeza. Muito novo! Jovem demais! Mas tudo bem, foi assim.

Faculdade de medicina! Não acreditava quando passei. Primeiro vestibular. Única prova e bum! Vaga garantida. Orgulho e choradeira para todo mundo lá em casa. E assim, de uma hora para outra, um molde caiu na minha cabeça. Sim, um modelo. Como dizem os entendidos, um paradigma. “Vocês serão médicos!” “É uma grande responsabilidade!” “Vocês salvarão vidas!” Nós? Um bando de adolescentes e jovens que mal e mal tinham barba? Nós? Salvando?

Ao fim de um processo de 6 anos de faculdade era exatamente isso que as pessoas, que a sociedade iria esperar de nós. Salvadores de vidas. Muitos, ou melhor, a maioria jovem como eu, tínhamos que aprender isso. Drogas, procedimentos, diagnósticos, doenças! Um mundo novo, um vocabulário mais novo ainda. Forames! Meia-vida! Cateter! Feedback negativo! Muito novos,  jovens demais. Exigências demais também.

No exato instante que nos dizemos estudantes de medicina as pessoas nos olham diferente. “Ah, vai ser médico!” “Qual especialidade vai fazer?” “Olha essa minha bolinha aqui no pescoço, é normal isso?” Mas ainda nem somos médicos. Somos estudantes. Era esse o caminho mesmo? Ser médico? Antes de refazer essa pergunta uma espécie de bloqueio chega e passa a interromper  nossa visão. Um filtro. Uma coisa.

Eu chamo isso de caixa também. Uma caixa ao redor da cabeça. Um modo de pensar fixo, baseado em manuais, condutas pré-estabelecidas, trabalhos científicos. Importante? Muito! Fundamental! Não haveria medicina moderna sem isso. Mas e o outro lado do cérebro? Inspiração?

Criatividade. Médicos não são treinados para serem criativos. Caixa na cabeça e segue meu filho. Leia, estude, comporte-se! Moderação, compromisso, responsabilidade. Sim, queremos ser médicos assim, todos querem. Mas e aquela outra parte? E a arte? A espontaneidade praticamente some nesse regime. Respostas prontas. Siga o manual! Siga o guideline!” Não, não demonstre tristeza ao paciente.” Ouvi isso de um professor uma vez.

Disso resulta um comportamento padrão. Vamos ficando chatos, monótonos, com cara de pastel. Robóticos! Claro que existe o dia-dia, a rotina, o “pega pra capar” que nos empurra nessa direção. Mas, eu pergunto, não pode ser diferente? O que nos inspira? Sei que muitos se esforçam para isso mas a caixa sempre cai de novo na cabeça. Conversa entre médicos? Sempre assim: “E aquele paciente com bla bla blalose!?” “E o convênio X ou Y paga bem?” “Operei uma senhora muito gorda!” etc etc. Chato, monótono, cara de pastel.

Vejam, não quero reformar os currículos de medicina. Quem sou eu para isso. Só alertar os mais novos, os internos, os residentes, os recém  formados. Medicina é arte  mas também é negócio. Ganha pão digno e muito importante mas aprendam a pensar fora da caixa de vez em quando. Sim, demonstrem tristeza ou felicidade aos seus pacientes. Tentem ser mais espontâneos. Aprendam outras coisas. Toquem música. Façam esportes. Corram! Leiam livros que não são de medicina porque neles existe medicina também. Humanidade. Impressionante o que um Victor Hugo ou um Machado de Assis entendem do assunto.

Abrir este outro caminho não nos é ensinado em lugar algum. Alguns percebem e outros não. Acho que por conta disto vejo muitos médicos desanimados, cabisbaixos e arrependidos de terem escolhido medicina. Visita, consulta, cirurgia, congresso. Não precisa ser assim. Não precisa ser só assim. Não somos robôs. Somos treinados para exercer a nobre arte com muito zelo e cuidado, oferecendo o melhor aos nossos pacientes, mesmo que seja apenas uma mão amiga, um ombro para chorar. Contudo, não é só isso.

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