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Narrativa Médica: Os últimos segundos de morte.

Narrativa Médica: Os últimos segundos de morte.
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Querido e estimável amigo,


     Estou morrendo. Não há tristeza na morte. Mais um ciclo vai se encerrando, enquanto poupo o meu tempo restante para divagar acerca daquilo que nos parecia complexo, mas que, na verdade, só o era devido à nossa inexperiência. Aos poucos, eu percebo como tudo era tão simples, tão fugaz, e como eu nunca fui capaz de compreender plenamente. Talvez essa minha última descoberta seja o maior mistério da vida: passamos a entender tudo quando estamos no leito, à beira da morte, e quando, aos poucos, os olhos se fecham; nossas mãos vão perdendo a força, a sensibilidade, e o nosso tato se atrofia. Já não conseguimos mais possuir nada, e a respiração se torna cada vez mais lenta, mais superficial, até que, finalmente, damos o nosso último suspiro.

     Se eu desenhasse um arco-íris, as cores seriam as mesmas, embora eu preferisse desenhar o céu e as estrelas. Eu criaria um contraste entre o azul claro, o alaranjado, o anil e a magnitude resultante da difração dos raios luminosos no globo terrestre. Talvez fôssemos aquele prisma, refletindo as luzes que incidiam sobre nós, mas que se apagaram com o fechar dos olhos. Talvez a sintonia entre o existir e o não-existir se finda quando as estrelas começam a brilhar, porque a raridade do brilho dura apenas alguns segundos (ou talvez quase uma centena de anos, dentre bilhões de anos-luz de existência do universo). Essa beleza que se prostra talvez não seja, de toda, infinita ou inalcançável; embora o tempo a consuma até o último lampejo, tornando-se então apenas resquício e fragmentos do que um dia foi, assim como será o meu corpo daqui a algumas horas.

     Esses meus olhos poderiam estar úmidos ou, quem sabe, eu poderia antecipar o inevitável e fechá-los de uma só vez. Contudo, eles ardem incessantemente devido à perda de terminações nervosas que ocorre gradualmente neste meu corpo errante e cansado. Olho ao relógio e as horas são eternidades, e não pense que seja porque estou aqui – do outro lado da existência –, mas sim porque tenho refletido constantemente sobre a presença.

     Eu cheguei a duvidar de minha presença neste curto piscar de olhos. Entretanto, toda a contra-argumentação que minha vã filosofia me permite não é capaz de elucidar essa minha verdadeira incompreensão racional sobre o mundo. Baseei-me no padrão dos acontecimentos sucessivos e inigualáveis que se perpetuaram nos instantes de tempo, mas a alma chorou sopros inaudíveis que arrancaram lágrimas. Eu não pude continuar... Diante disso, poderia eu sorrir um pouco mais nas horas vagas cujos segundos circundam-se em frente ao pensamento mais vago do dia? Não faria sentido, meu caro. Talvez o sentido das coisas tenha se perdido entre os corredores escuros do existir, ou entre os corredores deste hospital, no qual me instalei para ter as últimas reflexões sobre a vida.

     O arco-íris vai se formando diante dos meus olhos, e eu me perco entre as minhas próprias alucinações. Já é tarde. A enfermaria está vazia. O senhor do leito ao lado recebeu alta, e agora tenho um quarto só para mim – talvez para este último momento de vida me faça recordar de como estive durante toda ela: sozinho. O crepúsculo desapareceu, a noite surgiu, e eu apenas permaneço.

     Amigo, neste último momento de vida me veio um pensamento atroz: viver é um dom, sobreviver é uma arte. É trágico: olhar para o céu e imaginar o infinito, embora seja mágico poder encontrar outra infinidade diferente daquela que possuímos. Somos nós finitos? Digo, quando é que passamos a nos perceber como seres e quando é que deixamos essa volatilidade sumir? O que seremos após a morte? Além disso, àqueles que não conseguiram existir em vida, o que lhes sucederá na morte? Quando é que passamos a compreender que o nosso corpo não suporta a existência da forma e se transforma em outras formas mais simples, como a matéria que nos constitui? Somos e nos tornamos pesados demais, como se bastasse nos observarmos como um conjunto dualístico – amor versus medo.

     Como se encarar a tonalidade de ser, saber, poder saber, ou até saber que se sabe, que somos a soma da existência com tudo aquilo que o mundo compôs, mas que jamais se restitui ao seu estado primário. Dessa forma, será que assim conseguiríamos recriar aquilo que nos originou? Isso tem me parecido exato, além de ser, também, humano.

     Anunciam-se serenas e leves as vozes do amanhã. Conduzem os corações impuros à esperança do novo amanhecer. Esses plurais isentos do sentimento divino, induzem-se ao equívoco de acreditar que um dia as portas se abrirão para um novo reencontro. Às vezes, clamam pelo sentido daquilo que não pode ser explicado. As pessoas choram. O corpo cai ao chão; o poeta ri do seu desespero em observação; o artista mancha a pintura com sangue, enquanto imagina a beleza na tragédia. Escutam-se as pronúncias incólumes e verminosas... O desespero é a ideia de ser, de participar.

     Eis então que, a esta hora, entra em meus aposentos aquela jovem médica que me recebeu desde a internação. Diz estar ali para avaliar o meu caso, devido à gravidade. Pergunta-me se desejo algo, se sinto dores, se minha respiração melhorou. Ela percutiu o meu tórax, avaliou o estado da respiração e percebe que respiro superficialmente, como se meus pulmões já não desejassem mais viver. Não permito que ela acione o respirador, como se eu mesmo também não desejasse mais viver.

     Vendo-a aqui, diante de mim, enquanto ela analisa esse estado decadente do meu pobre corpo, tenho a sensação de que vê-la seja como encarar o espelho e enxergar flores saindo dos olhos, como ouvir o silêncio da própria voz ecoando pelos mistérios do coração. Encontrávamo-nos, às vezes, durante a consulta, e eu desviava minha atenção por medo, devido à fuga agonizante do meu corpo desta galáxia, como se não houvesse gravidade suficiente para me manter ao seu lado. Sentia que minhas entranhas iam desfalecendo, como se eu adentrasse em outros universos, ou só estivesse vivenciando uma realidade que não me seria mais palpável... Não nesse estado em que me encontro. Naqueles momentos, eu suplicava por um amor que eu nunca vivenciei em vida, para que pudesse, ao menos, partir em paz.

     Então, apesar dessa sufocante náusea que vai se apoderando das minhas cognições, tenho percebido que já não consigo mais reconhecer as partes do meu corpo: minhas mãos, minhas pernas, minha face. A doença vai consumindo o pouco que me resta. Enfim, como eu disse, não há tristeza na morte. Lutamos para viver, caro amigo, porém chega um momento em que não há mais escapatória. Ultimamente, conclui algo interessante: esse câncer metastático que acometeu o meu corpo é, talvez, a expressão intrínseca da minha vontade de sobreviver a cada instante.

     As minhas células se multiplicam entre os meus tecidos, competindo umas com as outras células – como se eu fosse estranho a mim mesmo, e já não me reconhecesse – para que os genes possam se perpetuar. Talvez se eu tivesse filhos... Talvez, se eu tivesse passado essa herança genética aos filhos que não tive, eu não estaria aqui nesse momento. Estou. E isso basta. Além do mais, caro amigo, qual é a importância em continuar vivo, sendo que já havia morrido tempos atrás: vivendo na sombra, debilitado, carregando os tabus sociais e religiosos que influenciam a forma de enxergar a vida.

     Ao observá-la daqui – tão jovem e tão bela – penso nas inúmeras possibilidades tive na vida, em quantas probabilidades me couberam à existência e eu nada aproveitei. Por isso, caríssimo, não há tristeza na morte – ao menos não na minha. Assim, nesta dicotomia indecisa, permaneço a questionar sobre os valores que nos constituem, sobre o que me constitui. Agora, nada sou, nada mais posso ser. Não exaspero mais o gozo nem o suspiro, embora o desejo permaneça. Aos poucos percebo que o meu cérebro vai sendo corroído por essa praga que me assola. Vou perdendo os sentidos.

     O silêncio que tomou essa sala é tão mais bonito e majestoso. Eu quis silêncio em meus dias, muito mais do que aquela sequidão na garganta e do clamoroso pranto da madrugada, porém nunca tive. E aqui, enquanto sinto o “partir do corpo”, ele vai se apoderando das minhas entranhas, percorrendo as vísceras até se alojar na espinha. Contorço-me tão ferozmente que já nem ouço os estalidos das costelas quebradas, enquanto isso os espasmos acalmam os músculos esqueléticos e nesse momento percebo um prazer tão intenso nessa dor física, pois nada se assemelha à dor que carrego no meu existir. Talvez seja isso: a dor no corpo me faz – por instantes – esquecer a dor da alma.

     Sendo assim, nesse ímpeto majestoso, lá fora já aponta a lua no céu, contornando as solidões humanas – aos frágeis seres que fingem estar vivos – e aos insanos poetas que se perdem nas suas angústias mais profundas. Neste hospital: os incomodados doentes que se percebem no mundo e os pobres pacientes que temem a vida, ou a morte. Nessa ânsia esquizofrênica de poder viver – como essas minhas malditas células! – as pessoas vão se acomodando em quartos, pelos cantos, à espera de um milagre. Talvez isso constitua a humanidade, meu querido, quando os olhos desconhecidos brilham na enseada que finda no fim de todas as tardes: a vida se prostra tão pequena, tão pequena, como aqueles recém-nascidos que se descobrem na vida aqui neste mesmo hospital, três andares abaixo. O intercurso da vida se faz assim, nessa forma tão vazia.

     É já hora. Sinto que seja a hora. As palpitações aumentam, o corpo convulsiona, e eu grito. Tento pedir socorro, mas já não há médicos nem acompanhantes; ninguém consegue me ouvir. Eu grito, porém ninguém me escuta. As arritmias se intensificam, formam-se coágulos, e as artérias tornam-se rígidas e as veias dilatadas. O coração pulsa ainda mais rápido, os pulmões – em um último suspiro por vida – tentam puxar todo o ar rarefeito deste quarto escuro.

     É essa a sensação de querer viver? Como as células cancerígenas que se espalham pelos órgãos do meu corpo? Eu quero viver, eu preciso viver. Socorro! Socorro! Descobri que nada vivi. Tantos planos... Queria poder dizer à minha médica o quanto seus cuidados me tranquilizaram... Talvez eu pudesse voltar atrás. De que valeu todos os meus pensamentos se nada construí em vida?

     Agora percebo o quanto nos enganamos... Esses são os meus últimos segundos: o que eu poderia dizer em tão pouco tempo? Adeus?

(Neste instante, cessaram-se os batimentos cardíacos e os movimentos respiratórios. Os olhos ainda estavam abertos, e a boca sorria. Descobriu a vida nos seus últimos segundos de morte. As enfermeiras encontraram aquele pobre senhor às 04:35h.)

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