"O amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte." — Antoine de Saint-Exupéry (1900–1944)
Sabemos, com alto grau de certeza, que o leite humano doado salva vidas em UTIs neonatais, reduzindo enterocolite necrosante e sepse em prematuros. Mas a medicina raramente olha para a fonte dessa generosidade com a mesma lupa científica. Será que a mulher que doa compromete sua própria saúde nutricional ou mental? Será que o bebê dela, que divide o leite com desconhecidos, sofre algum impacto no crescimento?
A Dúvida Silenciosa
Com o aumento global dos Bancos de Leite Humano, surge a preocupação ética e clínica: estamos sobrecarregando a lactante? A produção extra de leite exige maior demanda metabólica e tempo (ordenha), o que poderia teoricamente levar ao esgotamento materno ou à "competição" nutricional com o próprio filho.
Evidências de 2025
Pesquisadores analisaram 9 estudos sobre a saúde materna e 6 sobre a saúde infantil. Os resultados, meta-analisados quando possível, indicam neutralidade:
Mãe: O risco de depressão pós-parto (RR: 0.60), ansiedade (RR: 0.84) e mastite (RR: 1.48) não mostrou diferença estatisticamente significativa entre quem doa e quem não doa.
Bebê: Não houve aumento no risco de ganho de peso lento (RR: 0.36) ou necessidade de fototerapia (RR: 2.21), com intervalos de confiança cruzando a nulidade.
Ausência de Evidência de Dano
O estudo traz uma mensagem vital para a saúde pública: não há evidências atuais de que doar leite faça mal à mãe ou ao seu filho. Isso valida as campanhas de doação. No entanto, a classificação "certeza muito baixa" (GRADE) nos lembra que a maioria dos estudos são observacionais e heterogêneos. Na prática clínica, isso significa que o incentivo à doação deve continuar, mas o acompanhamento da doadora deve ser individualizado, garantindo que sua nutrição e saúde mental estejam preservadas durante o ato de doar.
Texto escrito pela acadêmica Carolina C. Reis
Referências
Baier KE, Berg A, Smith A, Evans J, Rogner J, Murad MH, et al. The Impact of Donating Human Milk on the Health of the Donor and Their Infant: Evidence from Two Systematic Reviews. Adv Nutr. 2025;100581.






