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Pancreatite Aguda: A abordagem delicada da reidratação

Pancreatite Aguda: A abordagem delicada da reidratação
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ago. 10 - 4 min de leitura
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Figura: Algorítmo proposto para manejo adequado de fluidos em pancreatite aguda. 

Uma publicação do British Journal of Surgery, intitulada  Fluid treatment in acute pancreatitis: a careful balancing act , discute a pancreatite aguda, uma condição que pode progredir rapidamente com consequências severas. A intervenção precoce, focada na reidratação, é crucial, embora as melhores práticas ainda estejam em análise.

A principal preocupação ao tratar pacientes com esta condição é a hipoperfusão que pode levar à disfunção orgânica. Muitas vezes, isso é causado por um volume intravascular reduzido, que pode ser consequência de vários fatores, como vômitos, redução da ingestão de líquidos e febre. O tratamento padrão tem sido a reidratação, na tentativa de evitar danos ao pâncreas e reduzir a progressão para formas mais graves da doença.

Contudo, a reidratação deve ser feita com cautela. O estudo WATERFALL*, publicado em 2022, foi um divisor de águas nesse campo.  Ele foi o primeiro ensaio clínico randomizado (RCT) de grande escala, a comparar diferentes estratégias de administração de fluidos em casos de pancreatite aguda.  Portanto, ao comparar duas abordagens de administração de fluidos em pacientes com pancreatite aguda, descobriu-se que uma abordagem mais agressiva não conferia nenhum benefício em relação aos resultados centrados no paciente. Em vez disso, o risco de sobrecarga de fluidos era significativamente maior, e o estudo foi interrompido prematuramente devido a essas descobertas.

Especificamnte, o estudo WATERFALL avaliou estratégias de administração de fluidos, comparando um bolus inicial de cristaloide de 20 ml/kg com um bolus de 10 ml/kg seguido de infusões de 3 ml/kg/h e 1.5 ml/kg/h. Originalmente planejava incluir 744 pacientes, mas foi interrompido após incluir apenas 249 devido a uma análise interina que mostrou uma incidência significativamente mais alta de sobrecarga de fluidos no grupo mais agressivo. Embora não houvesse diferenças significativas nos desfechos primários entre os grupos, os desfechos secundários, como necrose pancreática e falência orgânica, foram numericamente mais altos no grupo agressivo. Em termos de volume, o grupo agressivo recebeu uma mediana de 7,8 litros de fluidos, enquanto o grupo moderado recebeu 5,5 litros.

Isso levanta a questão: qual é o equilíbrio ideal na reidratação? É um desafio determinar a quantidade exata de fluidos a serem administrados, especialmente na presença de outras comorbidades, como insuficiência cardíaca. Porém, os dados atuais sugerem que, em pacientes bem perfundidos, deve-se seguir uma abordagem mais moderada, como a proposta pelo braço moderado do estudo WATERFALL.

Quando o paciente está em choque, o quadro se complica. Embora os dados de tratamento em choque séptico possam fornecer algumas orientações, é importante reconhecer as diferenças significativas entre choque séptico e pancreatite aguda. Ainda há uma necessidade premente de estudos bem projetados sobre o tratamento da pancreatite aguda grave, dado o alto índice de mortalidade associado.

Em conclusão, a pancreatite aguda é uma condição complexa, e a reidratação é uma intervenção crítica. Ainda que o tratamento agressivo com fluidos possa parecer intuitivo, a evidência atual sugere uma abordagem mais cautelosa. Continua sendo importante que, médicos e pesquisadores busquem um entendimento mais profundo para orientar o tratamento e melhorar os resultados para os pacientes.

Caso você tenha interesse em aprofundar seus conhecimentos sobre o ensaio clínico randomizado WATERFALL, referenciado nesta publicação, disponibilizamos o link para acesso ao estudo na íntegra. 



Leia também: 


Referências:

  • Kristian Strand , Jannicke H Møller, Fluid treatment in acute pancreatitis: a careful balancing act, British Journal of Surgery, Volume 110, Issue 8, August 2023, Pages 880–882, https://doi.org/10.1093/bjs/znad155
  • * de-Madaria E, Buxbaum JL, Maisonneuve P et al.  Aggressive or moderate fluid resuscitation in acute pancreatitis. N Engl J Med 2022;387:989–1000



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