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Engajamento do paciente na era digital

Engajamento do paciente na era digital

É comum que pacientes só procurem saber sobre seu corpo após o início de algum sintoma, que pode ser algo temporário ou o primeiro sintoma de uma patologia grave. Ainda, maus hábitos alimentares, sedentarismo, comportamentos de risco e outras decisões que dependem do paciente atuam como agente causador da sua própria doença. É somente nesse momento que acontece o engajamento desses pacientes, então o que poderia ser uma jornada de tratamento rumo à recuperação torna-se uma jornada de novos sinais e sintomas e, até mesmo, a descoberta de doenças graves.

Os stakeholders da saúde (profissionais, clínicas, planos de saúde e governo) devem procurar cada vez mais envolver os pacientes como parceiros e promotores da sua própria recuperação. Pacientes engajados são mais saudáveis e, quando iniciam algum sintoma, são os mais dispostos a abraçar um plano de recuperação, sucedendo uma cascata de eventos que culminam numa tomada de decisões mais informadas sobre suas opções de cuidados, tornando o tratamento mais efetivo, com recursos melhores utilizados se estiverem alinhados com as prioridades dos pacientes, minimizando gastos desnecessários.

Um paciente engajado reduz o custo das empresas e planos de saúde, uma vez que ele se cuida. Consegue reduzir os gastos nos serviços de emergência, de internação e até na quantidade de exames de alto custo. No caso de pacientes crônicos é possível garantir qualidade de vida, já que a pessoa tem o compromisso de seguir o tratamento e de mudar seu comportamento. Portanto engajar o paciente é um problema de saúde pública.

Há o conceito chamado “determinismo recíproco” dentro de uma teoria que busca entender como as pessoas adquirem seus hábitos de saúde, corroborado por um estudo sobre como as pessoas adquirem comportamentos, da década de 70, do psicólogo canadense Bandura. O conceito compreende a existência de uma relação dinâmica de influência e percepção dessa influência entre a pessoa, o seu ambiente e os seus comportamentos. Assim, quando uma pessoa aprende um novo comportamento ou muda um antigo, a sua confiança em realizá-lo novamente no futuro aumenta.

Por exemplo, pacientes com sintomas de resfriado viral, a conduta que mais beneficia o paciente é descanso e hidratação, porém se o médico orientar apenas uma ingesta hídrica maior, boa parte dos pacientes procurarão uma emergência ou outro profissional. A prescrição de chás, comum a muitos médicos e até mesmo a sua automedicação, é uma forma de aumentar o engajamento dos pacientes para maior ingesta hídrica. Portanto, a identificação de elementos e de suas influências dentro do trinômio pessoa-ambiente-comportamento pode melhorar a nossa habilidade de engajar os pacientes.

Já é passado a proliferação de novos recursos para expandir o envolvimento do paciente. As ferramentas para a tomada de decisão compartilhada entre pacientes e provedores ou planos de saúde estão se tornando cada vez mais sofisticadas e visam melhorar o engajamento dos pacientes em suas próprias decisões de saúde. O paciente tem medo, inseguranças, angústias, sonhos, planos de vida e que precisa primeiro ser identificado como uma pessoa que possui valores e tem sua singularidade.

Qualquer curioso tem acesso à informação antes de buscar o atendimento. Assim surge o paciente empoderado e engajado, e isso amplia à medida que a tecnologia avança, de forma exponencial. Uma rápida busca no Google sobre como engajar os pacientes trazem resultados que já deveriam ser de conhecimento a todos stakeholders da saúde. Os que já os praticam conseguem melhor eficiência clínica, pacientes mais fiéis e engajados e menores gastos.

Nessa extensa lista de como engajar encontramos:

  1. Melhora da comunicação com os profissionais, com termos menos técnicos;
  2. Educar pacientes e os profissionais;
  3. Obter feedback;
  4. Melhorar a relação de confiança entre médico e paciente;
  5. Oferecer atendimento humanizado;
  6. Otimizar o atendimento;
  7. Produzir conteúdo relevante;
  8. Foco na prevenção...

Mesmo com tudo isso em pauta, alguns trabalhos mostram que em torno de 1/3 do que é feito aos pacientes realmente é benéfico e cerca de 10% das ações, embora mitiguem o problema, acabam criando outros problemas simultaneamente, resultando em uma ineficácia do cuidado.

O reduzido conhecimento técnico, falta de interesse e o medo limitam o engajamento do paciente. Da parte dos profissionais, a falta de questionamentos, o fato de não dar ouvidos aos pacientes e não reconhecer seus erros também contribuem para isso. O foco no paciente é algo que se sobressai. Garantir que ele tenha a melhor experiência e um cuidado mais efetivo e personalizado é algo que tem se preconizado muito em modelos de gestão em saúde.

Assim, o tratamento deixa de ser medicocêntrico e vemos um empoderamento do paciente, que tende a ser cada vez mais instruído e digital no que diz respeito à sua saúde e ao tipo de assistência que recebe. A maioria dos problemas acontece quando o médico não está por perto. Com a evolução digital foi possível começar essa mudança para engajá-los através da disponibilidade de informações como estado da saúde, sinais, sintomas, exames e medicações na nuvem.

Ainda, plataformas facilitam os processos permitindo o agendamento de consultas e exames e retirada dos mesmos sem precisar ir até o hospital ou clínica, entre outros benefícios. A tecnologia está ajudando o paciente a se cuidar conforme seus objetivos de vida, otimizando sua qualidade de vida, aprender com outros pacientes, construir e seguir sua própria rotina de cuidado, personalizando seu tratamento, reduzir o impacto da doença na sua vida e apoiar o paciente a se cuidar nas suas relações interpessoais.

Plataformas que conseguem modificar o comportamento humano já é passado. Aplicativos prescritíveis já são liberados pela FDA nos EUA desde 2017 (SaMD – software as a medical device). Paciente carregando seu próprio prontuário eletrônico já é uma necessidade. Prescrições já chegam nas farmácias antes do paciente sair do hospital e medicamentos são deixados em sua casa antes mesmo que ele chegue.

A gamificação é utilizada como solução para envolver familiares e amigos no tratamento, com essa informação sendo acompanhada pelo médico. Empresas que fornecem serviços de gestão da adesão à prescrição e monitoramento de sinais vitais começam a despontar no mercado. A terapia digital já existe.

O exagerado volume de aplicativos disponíveis contribui não só para esse engajamento, mas também cria uma avalanche de dados que podem ser usados para a gestão populacional de saúde, permitindo a aplicação de ações de saúde primárias mais eficientes ou até mesmo o gerenciamento e controle de pacientes com doenças crônicas. As tecnologias já disponíveis estão possibilitando cada vez mais conhecer esse paciente já empoderado e realizar a atenção à saúde de maneira mais completa, com informações mais precisas e importantes e tendo a dimensão de qual é o histórico e suas tendências.

O paciente começa a ter insights sobre o que se passa com ele e quais tipos de decisões ou atitudes ele pode tomar. Claro que a ideia do uso de milhares de aplicativos não engaja ninguém, mas plataformas de interoperabilidade (Health Level Seven - HL7) já estão sendo colocadas na vitrine, possibilitando interação de diferentes plataformas e uma coleta maior e mais confiável de dados, bem como sua interpretação.

É preciso embasar e padronizar as escolhas que estão sendo feitas, pois decisões aleatórias levam à variabilidade no atendimento e resultam em custos altos de assistência. É extremamente relevante dar a importância de que a efetividade clínica só será alcançada definitivamente quando todos começarem a pensar de uma mesma forma, olhando sempre para a difícil equação entre qualidade e custo.

É preciso alinhar os pensamentos e garantir que todos estejam unidos e remando no mesmo sentido, rumo a um mesmo objetivo. Só conseguiremos isso se não somente o paciente esteja engajado, mas também o médico e os outros profissionais de saúde, o plano de saúde e as instituições. O engajamento do médico às novas tecnologias é o novo foco, uma vez que a do paciente já está acontecendo.

Quando esse engajamento do médico for realidade, e assim se tornar um novo comportamento, a empatia e humanização no cuidado acontecerá de forma natural, desse modo ele deixará de ser um especialista na doença e assumirá o papel de especialista no ser humano. O chá será necessário para terminar uma consulta e não parte do tratamento.

 

Texto publicado também, neste link.


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Albert Bacelar
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Médico Intensivista, Diarista, Coordenador da UTI no HTL, Instrutor de Simulação Realística em Saúde, Professor de Medicina pela FTC, Professor de Design Thinking em Saúde, Ex-Mergulhador de Resgate, especialista em Gestão, Empreendedorismo e Finança

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